|
|
|
Aliás, era um prodígio. Eu, muito branca, cabelos encaracolados escuros e grandes olhos amendoados, não posso me descrever necessariamente como uma mulher atraente pois sou do tipo andrógino, isto é, podia me passar por um rapaz muito bonito. O interessante é que naquele tempo, eu não havia aceitado o fato de achar certas criaturas do belo sexo, extremamente atraentes e procurava não pensar no assunto.
Pintei um Beethoven em gesso, imitando porcelana portuguesa, para que ela o colocasse sobre seu piano. Passávamos tardes cálidas, conversando sobre arte. Eu me deliciando em sua arte e ela elogiando meus trabalhos artísticos. Porém, certo dia, o tempo de inocência acabou. Ela começou a namorar e eu mergulhei em uma profunda melancolia. Não sabia ao certo o que sentia, mas certa vez, eu a vi descendo a rampa do conservatório, com suas partituras debaixo do braço e por uma fração de segundos nossos olhos se prenderam. Era fim de tarde e seus olhos faiscaram como duas tochas e pensei que de certa forma, ela não era assim tão indiferente a mim, quanto aparentava ser. Vários namoros se sucederam até que um dia, ela me convidou para um fim de semana regado a muita música em sua casa. Cheguei com o coração saindo pela boca, pois a imaginava com o namorado e eu alí, segurando vela. Encontrei-a sozinha. Seus pais haviam saído para uma casa de uma tia e passariam o fim de semana fora. Ela, filha única, dedilhava displicentemente o piano e convidou-me para ouvir algumas peças.
Ao fim, olhou-me com aquele olhar profundo e sensual e disse:
Aquilo foi demais para meu auto-controle. Levantei-me de súbito e apanhando seu rosto com as duas mãos, a beijei com força que seus lábios ficaram inchados e mais avermelhados do que já eram. Ela me olhou com uma expressão totalmente aturdida e aos poucos, pude ver que esta cambiava para uma chama intensa e feroz.
Ela gemia em desespero e suas unhas arranhavam minhas costas. Fiz amor com ela alí mesmo, sobre o tapete da sala do piano. Nunca havia transado com mulher ou homem, mas me guiei pelo instinto e sentia que o corpo inteiro dela, se movia em sintonia com o meu e sua pele ardia em febre. Enfim, ela gozou em meus lábios, e pude sentir, pois exalou um sabor almíscarado e ligeiramente salgado. Eu, simplesmente havia atingido o clímax e gozando, sobre o corpo dela que se movia freneticamente sob o meu. Busquei seu rosto e pude ver suas pupilas expandidas, um sinal claro que havia tido um forte e avassalador orgasmo (como descobri depois). Depois do prazer, ela parecia desmaiada. Apenas seus olhos estavam fixos em algum ponto do teto. Depois, saiu da sala e foi tomar banho. Eu simplesmente não sabia mais o que fazer. Aliás, eu nem ao menos sabia como podia ter sido tão atrevida, pois sou muito introvertida. Me vesti e saí rapidamente da casa, como se fugisse de uma enchente, procurando não olhar para trás. Na outra semana ela, que havia se desentendido com o namorado, aparece novamente com o rapaz a tiracolo. Ele desfilava com sua musa, satisfeito de ter a mulher mais bonita da escola de artes, em que estudávamos, ao seu lado. Eu infeliz e sem poder olhá-la nos olhos. Sua aparição, com o namorado, para mim foi a resposta: Ela não me queria e me rejeitava. Meses depois, o anúncio de noivado e meu coração sangrou e eu parei de pintar minhas aquarelas. Estava infeliz demais para qualquer manifestação artística.
Senti que era dela. Tinha seu perfume. Abri e li: "-Não posso ser sua, mas minha alma e meu amor, sempre serão seus! - Adeus! Não me procure ! Lembre-se da promessa. Meu coração carrega uma sinfonia em seu nome e espero que sua arte, seja intensa e apaixonada, como me possuiste. Não me procure ! Só meu piano sabe como estou sofrendo..."
Ela mergulhou em uma série de recitais em várias cidades e enfim, voltou apenas para se casar. Fui ao casamento, apenas para vê-la passar, linda, com seu vestido de noiva. Mudaram-se. O noivo era de outra cidade, e meu coração partiu-se a ponto de não mais poder suportar ouvir Tchaikowisck e Chopin, sem chorar. Um dia , depois de muitas experiências em minha vida e uma década depois, eu recebi um pequeno bilhete e este dizia: "não se esqueça da promessa!" E ainda hoje, depois que soube que ela se separara do marido, eu não a procurei, mas não posso jamais esquecer da promessa. |