Na época em que a conheci, tinhamos cerca de 18 anos. Ela, uma morena de longos cabelos lisos, tinha um quê de Norah Jones. A mesma boca sensual, os mesmos olhos lânguidos e o que era mais sedutor: tocava piano com paixão.

Aliás, era um prodígio.

Eu, muito branca, cabelos encaracolados escuros e grandes olhos amendoados, não posso me descrever necessariamente como uma mulher atraente pois sou do tipo andrógino, isto é, podia me passar por um rapaz muito bonito.

O interessante é que naquele tempo, eu não havia aceitado o fato de achar certas criaturas do belo sexo, extremamente atraentes e procurava não pensar no assunto.


Vivíamos em grupos de amigos. Ela me convidando para seus concertos e eu inebriada e me sentindo profundamente apaixonada.

Pintei um Beethoven em gesso, imitando porcelana portuguesa, para que ela o colocasse sobre seu piano. Passávamos tardes cálidas, conversando sobre arte. Eu me deliciando em sua arte e ela elogiando meus trabalhos artísticos.

Porém, certo dia, o tempo de inocência acabou.

Ela começou a namorar e eu mergulhei em uma profunda melancolia.

Não sabia ao certo o que sentia, mas certa vez, eu a vi descendo a rampa do conservatório, com suas partituras debaixo do braço e por uma fração de segundos nossos olhos se prenderam. Era fim de tarde e seus olhos faiscaram como duas tochas e pensei que de certa forma, ela não era assim tão indiferente a mim, quanto aparentava ser.

Vários namoros se sucederam até que um dia, ela me convidou para um fim de semana regado a muita música em sua casa. Cheguei com o coração saindo pela boca, pois a imaginava com o namorado e eu alí, segurando vela.

Encontrei-a sozinha. Seus pais haviam saído para uma casa de uma tia e passariam o fim de semana fora. Ela, filha única, dedilhava displicentemente o piano e convidou-me para ouvir algumas peças.


"-Esta aqui, eu estou treinando para um recital. Conta a estória de um pianista que visitando a galeria onde as telas de seu amigo, que havia falecido se encontravam, dispostos em um amplo e longo corredor, compôs para cada uma delas, em sequência, várias obras, que ao fim, compuseram uma bela de sinfonia". Ela tocou, tocou, e eu alí embevecida.

Ao fim, olhou-me com aquele olhar profundo e sensual e disse:


"-Faremos assim no futuro. Posso compor uma sinfonia sobre suas telas, ou você poderá pintar quadros, inspirados em minha música".


Aquilo bateu no meu peito com impacto e acho que meu rosto me denunciou, pois ela, Elisa, me olhou de um modo estranho, mesmo sendo o tipo de pessoa extremamente tímida. Como o clima estava meio denso, ela virou-se novamente para o piano e começou a tocar Tchaikowisk. Depois tocou Chopin. Ela sabia que eu adorava estes compositores .

Aquilo foi demais para meu auto-controle. Levantei-me de súbito e apanhando seu rosto com as duas mãos, a beijei com força que seus lábios ficaram inchados e mais avermelhados do que já eram. Ela me olhou com uma expressão totalmente aturdida e aos poucos, pude ver que esta cambiava para uma chama intensa e feroz.


Suas unhas me cravaram nos ombros e agora era ela quem me puxava para si, com os lábios sedentos. Ficamos nos acariciando e beijando por um tempo que não pude precisar, até que eu desabotoei rapidamente sua blusa e comecei a beijar-lhe os seios e a sugá-los.

Ela gemia em desespero e suas unhas arranhavam minhas costas. Fiz amor com ela alí mesmo, sobre o tapete da sala do piano. Nunca havia transado com mulher ou homem, mas me guiei pelo instinto e sentia que o corpo inteiro dela, se movia em sintonia com o meu e sua pele ardia em febre. Enfim, ela gozou em meus lábios, e pude sentir, pois exalou um sabor almíscarado e ligeiramente salgado.

Eu, simplesmente havia atingido o clímax e gozando, sobre o corpo dela que se movia freneticamente sob o meu. Busquei seu rosto e pude ver suas pupilas expandidas, um sinal claro que havia tido um forte e avassalador orgasmo (como descobri depois).

Depois do prazer, ela parecia desmaiada. Apenas seus olhos estavam fixos em algum ponto do teto. Depois, saiu da sala e foi tomar banho.

Eu simplesmente não sabia mais o que fazer. Aliás, eu nem ao menos sabia como podia ter sido tão atrevida, pois sou muito introvertida.

Me vesti e saí rapidamente da casa, como se fugisse de uma enchente, procurando não olhar para trás.

Na outra semana ela, que havia se desentendido com o namorado, aparece novamente com o rapaz a tiracolo. Ele desfilava com sua musa, satisfeito de ter a mulher mais bonita da escola de artes, em que estudávamos, ao seu lado.

Eu infeliz e sem poder olhá-la nos olhos. Sua aparição, com o namorado, para mim foi a resposta: Ela não me queria e me rejeitava.

Meses depois, o anúncio de noivado e meu coração sangrou e eu parei de pintar minhas aquarelas. Estava infeliz demais para qualquer manifestação artística.


Certa manhã, encontro dentro de meu estojo de tintas um bilhete.

Senti que era dela. Tinha seu perfume. Abri e li:

"-Não posso ser sua, mas minha alma e meu amor, sempre serão seus! - Adeus! Não me procure ! Lembre-se da promessa. Meu coração carrega uma sinfonia em seu nome e espero que sua arte, seja intensa e apaixonada, como me possuiste. Não me procure ! Só meu piano sabe como estou sofrendo..."


Meses se passaram e mesmo que eu tentasse me aproximar, não conseguia.

Ela mergulhou em uma série de recitais em várias cidades e enfim, voltou apenas para se casar.

Fui ao casamento, apenas para vê-la passar, linda, com seu vestido de noiva.

Mudaram-se. O noivo era de outra cidade, e meu coração partiu-se a ponto de não mais poder suportar ouvir Tchaikowisck e Chopin, sem chorar.

Um dia , depois de muitas experiências em minha vida e uma década depois, eu recebi um pequeno bilhete e este dizia:

"não se esqueça da promessa!"

E ainda hoje, depois que soube que ela se separara do marido, eu não a procurei, mas não posso jamais esquecer da promessa.

Home