|
O
CANTO DA SEDUÇÃO
Isabelle
saiu do banho com a pele enrugada de tanto que ficou emersa na banheira
de pedra no banheiro de seu novo quarto. Tentava se recompor. Estava
sentindo o desespero se avizinhando e não sabia que atitude tomar.
Sabia que a partir do que fizera naquela tarde, tudo o mais poderia
lhe acontecer. Colocou um vestido estilo indiano muito confortável
e vestiu uma macia sandália de couro com correias que lhe amarravam
nas pernas. Caminhou preguiçosamente pelo corredor de pedra e
foi até o refeitório mais próximo se alimentar.
Teve sorte porque os outros empregados não estavam por ali e
ela pode se servir com tranqüilidade. Tinha o semblante melancólico
e a mágoa da tarde lhe ardia no peito, como se tivesse sido atingida
por uma lança cruel.
Foi cautelosamente até a sala do piano da Ala residencial. Começou
a dedilhar distraidamente algumas músicas populares que gostava.
Tocou Adia. Tinha um CD da cantora Sarah Mclachlan. Apreciava
tanto aquela música e buscava nela extravasar sua dor. Cantarolou
baixinho:
Adia
(Adia)
Adia
I do believe I failed you
(Adia, eu acredito que falhei com você)
Adia
I know I let you down
(Adia, eu sei que te decepcionei)
Don't
you know I tried so hard
(Você não sabe que eu tentei tanto)
To
love you in my way
(Te amar do meu jeito)
It's
easy let it go...
(É fácil, basta tentar)
Adia I'm empty
(Adia, eu estou me sentindo vazia)
Since
you left me
(Desde que você me deixou)
Trying
to find a way to carry on
(Tentando achar uma maneira de continuar)
I
search myself and everyone
(Eu procuro em mim mesmo e em todos)
To
see where we went wrong
(Para ver onde nós erramos)
'Cause there's no one left to finger
(Pois não restou ninguém para que eu aponte meu dedo)
There's
no one here to blame
(Não há ninguém aqui para culpar)
There's
no one left to talk to honey
(Não restou ninguém para conversar, minha querida)
And
there ain't no one to buy our innocence
(E não há ninguém para comprar nossa inocência)
'Cause
we are born innocent
(Porque nós nascemos inocentes)
Believe
me Adia, we are still innocent
(Acredite em mim, Adia, ainda somos inocentes)
It's
easy, we all falter
(É fácil, todos erramos)
Does
it matter?
(Será que isso importa?)
Adia I thought we could make it
(Adia, eu pensei que nós conseguiríamos)
But
I know I can't change
(Mas eu sei que não posso mudar)
The
way you feel
(O modo como se sente)
I
leave you with your misery
(Eu deixo você com seu sofrimento)
A
friend who won't betray
(Um amigo que não trairá)
I
pull you from your tower
(Eu tiro você da sua torre,)
I
take away your pain
(Eu faço sua dor parar)
And
show you all the beauty you possess
(E lhe mostro toda a beleza que você possui)
If
you'd only let yourself believe that
(Se você apenas se permitir acreditar que)
We
are born innocent
(Nós nascemos inocentes)
Believe
me Adia, we are still innocent
(Acredite em mim, Adia, nós ainda somos inocentes)
Alguém
entrou na sala. O coração de Isabelle disparou e ela parou
de tocar.
____Por favor, continue tocando! pediu Eduardo.
____Não ! tenho que sair! Preciso descansar amanhã tenho
algumas tarefas atrasadas para resolver...
____Não antes de me ouvir!
____O que tem a me dizer?
____Eu te quero, Isa!!
____Não! Você está enganado! Você gosta de
Tânia...
____Eu tentei! Depois que mamãe morreu eu tentei te esquecer
Isa. Sei de tudo. Mas também sei que ela te rejeita.
Posso te fazer feliz Isa. Podemos ter filhos. Podes ter tudo que quiser.
Terá um futuro grandioso. Seu talento será reconhecido
no mundo...
Isabelle abaixou a cabeça. Lágrimas escorriam de sua face.
Estava se sentindo perdida, sem saída. Breve Alexa providenciaria
para que ela fosse desligada da Quinta. Breve estaria novamente só,
sem esperança para seu futuro e com seu sonho de se tornar uma
grande pianista, perdido para sempre...
Eduardo acariciou-lhe os cabelos e pediu:
____Toque Love of My Life, conhece?
____Sim! Uma música linda. Gosto da versão do Fred Mercury,
mas ainda não aprendi a toca-la... respondeu Isabelle,
envergonhada pelas lágrimas que teimavam a lhe escorrer pela
face.
____Deixe que eu mostre os acordes!
Isa levantou-se do piano e Eduardo sentou-se e começou a dedilhar
os acordes.
____Veja! É muito simples...
Isabelle ouvia quieta.
Eduardo percebeu que lhe prendera a atenção e quando ela
menos esperava ele passou a cantar a melodia em uma voz de tenor muito
bela e sedutora.
Isabelle lembrou-se do que Tânia lhe dissera sobre a sedução
do canto de Eduardo e percebeu tarde o intento do moço.
____Ele está tentando me seduzir! pensou . Fez menção
de sair, mas o moço se adiantou e a apanhou forte nos braços...
____Case-se comigo, Isa...
A porta da sala que estava semi-aberta, escancarou-se. Alexa entrou
transtornada e flagrou Isabelle nos braços de Eduardo.
_____Traidores!!!
_____Não, Alexa! Você não entende! Eduardo
quis aplacar a fúria da irmã.
_____Eu ouvi tudo, não negue! Você cantou para ela...
Isa percebeu que a ira de Alexa estava centrada no irmão e avançou
para a moça, tentando segura-la...
_____Saia da minha frente! Sua vadia... Você também é
uma mentirosa...
Alexa empurrou Isabelle com tanta força que esta caiu no tapete.
Então passou a atacar o irmão. Batia com um chicote que
tinha na mão e Eduardo esquivava quanto podia, mas já
recebera vários golpes.
Os objetos, que não eram poucos na sala, eram jogados para o
ar, para os lados e em Eduardo. Alexa parecia a tormenta em seu furor...
Isabelle pensou em tentar apartar os irmãos, mas duas mãos
enormes e fortes a levantaram no ar como uma boneca e a retiraram da
sala. Era Jonas, o enorme carregador de Alexa e serviçal da Quinta.
Quinho estava por perto. Decerto ouvira o barulho medonho da sala sendo
destruída e correra chamar ajuda.
_____É melhor ficar fora da sala, senhorita Isabelle! - disse
o gigante, gentilmente.____A coisa tá feia e eu e Tonhão
vamos ter que nos virar pra segurar dona Alexa.
Tonhão era o outro empregado que agora, juntamente com Jonas
entravam na sala. A quebradeira continuou e Isabelle ouvia agoniada
os gritos de Alexa. De repente, silêncio e a porta torna a abrir-se
de supetão, sendo que por ela sai a herdeira de Além Tejo,
correndo enlouquecida.
_____Vai atrás dela Jonas! pediu Eduardo, que estava com
o corpo cheio de vergalhões, os cabelos em desalinho e o rosto
arranhado. Seus óculos estavam quebrados e sua roupa rasgada.
_____Está fora de si! Temo que faça alguma bobagem. Lastimou-se
o rapaz. ____Imagine ! atacar a mim? Seu único irmão?
Isabelle correu para seu quarto. Queria mudar de roupa para também
sair à procura de Alexa na noite. No quarto, sobre sua cama,
um envelope. Seu coração gelou. Tinha a caligrafia de
Alexa. Abriu e leu:
Vim para conversarmos. Não a encontrei. Pode me perdoar?
Precisamos nos encontrar Isa. Precisamos nos falar... Eu preciso de
você...Pode me livrar da dor?
Alexandra.
O coração de Isabelle quase parou e em desespero chegou
à triste conclusão:
_____Eu a perdi!
-----------------------------------------------------------------------------
Capítulo 7: SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESSA VIDA...
(por LARA DE LUNNA , adicionado em 6 de Junho de 2002)
(*nota
da autora: Alexa se pronuncia Aléquissa, ou Alékssa,
por fim: Alekssandra)
Os três cavaleiros, desciam cuidadosamente as trilhas na serra.
Era noite de lua cheia, mas a vegetação ocultava armadilhas.
Utilizavam-se de lanternas e lampiões. Isa estava vestida com
seu grande capote pantaneiro que lhe protegia totalmente o corpo do
sereno noturno e do frio que a neblina trazia consigo. Na cabeça,
seu companheiro, o velho chapéu de couro de abas largas. Jonas
aceitara que ela os acompanhasse muito à contragosto.
_____Isto aqui não é o pantanal , senhorita Isa! Isto
aqui é serra e serra tem lá suas peculiaridades. De um
lado parede, do outro abismo...
_____Vim preparada! Trouxe bússola e um mapa, além de
uma mochila de sobrevivência...
_____Tudo bem! Mas hoje mesmo tive que soltar dona Alexandra de uma
armadilha de caçador. Parecia um coelho raivoso! Imagine que
um caçador armou a tal armadilha bem na trilha da Pedra Lascada?
Que imprudência e irresponsabilidade...
_____É?
_____Agora veja só! Dona Alexandra some na mata em noite de assombração...
_____Assombração?
_____Sim ! noite de Lobisomem...
_____Ah!
Isabelle que crescera ouvindo estórias dos peões no pantanal,
não se surpreendeu da cisma de Jonas. Aliás, não
acreditava nestas criaturas da noite e se acreditasse, naquele momento
pouco lhe importava. Alexa estava naquelas matas e ela tinha que encontra-la.
Em certo momento, a trilha se bifurcou.
_____Vou por aqui! Conheço bem estas bandas... Vocês vão
por lá. Temos que nos separar. Sugeriu Tonhão.
_____Tudo bem! assentiu Jonas.
A trilha que Isa e Jonas tomaram começou a se enveredar serra
abaixo. Em certos lugares, tiveram que apear e continuar a pé,
puxando as montarias. Novamente outra bifurcação. Jonas
coçou a cabeça, preocupado. Isa adiantou-se:
_____Vou por esta! Você segue aquela.
_____Não posso permitir isso!
_____É a saúde de sua patroa que está em jogo!
Ela saiu transtornada da Quinta! Não deve estar com equipamento
algum e muito menos agasalhada...
_____Mas...
_____Olha aqui! Seria muita burrice descermos os dois juntos por uma
trilha. E se ela tiver seguido a outra? Tenho aqui comigo agasalhos
e provisões para três dias... Se me perder, espero amanhecer
e sigo a bússola...sou experiente nisso...
_____tudo bem moça! Só espero não me arrepender
por isso...
_____Não se arrependerá!
Isabelle desceu sua trilha, com o coração opresso. Temia
pela vida de Alexa. Se tivesse que dormir por ali, teria que fazer uma
fogueira para espantar os animais selvagens...
Certo momento, porém ela ouve o vento lhe trazendo vozes sussurradas.
_____Estou perto de algo!
Aproximou-se mais e do ponto elevado onde estava, pôde vislumbrar
luzes de lampiões no vale abaixo. Pessoas caminhavam para um
ponto qualquer oculto pelo arvoredo. Ela só podia ver as luzes
e vultos como de minúsculas formigas.
Desceu o mais rápido e cautelosamente quanto pode e aproximou-se,
ocultando-se.
Amarrou o cavalo por perto e observou o grupo. Eram pessoas vestidas
com enormes capas escarlates ou negras. Na mente de Isa, sobreveio tudo
que Tânia lhe dissera de certas orgias secretas. Pensou em sair
dali e ir ajudar Jonas na outra trilha, mas seu instinto lhe dizia para
averiguar melhor. Como seu longo capote negro lhe emprestava aspecto
semelhante aos convivas, aproveitou para se aproximar mais e mais.
Deparou-se com uma clareira toda calçada de pedras e com pilares
circundando-a.
_____O Templo de Afrodite! exclamou baixo.
Uma pessoa passou por ela na escuridão e deu-lhe uma máscara.
_____Use! Garoto! É a regra. Ninguém entra no Templo sem
a máscara.
_____Ele me confundiu com um garoto! pensou Isa, encaixando no
rosto uma vistosa e colorida máscara. Retirou o chapéu
e entrou cautelosamente. O que viu a fez estacar. Por todos os lados,
uma profusão de corpos desnudos debaixo das capas, se amando
de todas as formas possíveis na natureza. Tudo era permitido
e corpos masculinos e femininos se encaixavam por todos os lados. Isa
sentiu a excitação borbulhar em sua garganta, qual champanhe
espumante. Não conseguia tirar os olhos daquela cena totalmente
nova e carnal. Porém, a um canto, em um banco de pedra, uma criatura
vestida de escarlate jazia como se adormecida. Isa sabia que eram mulheres
as que se vestiam de escarlate e percebeu a aproximação
de um mascarado de elevadíssima estatura, com sua capa negra.
Este sentou-se ao lado da mulher de escarlate e começou de forma
suave a lhe abrir as vestes. Isa aproximou-se e viu quando o mascarado
lhe desnudou os seios e passou a toca-los de forma lasciva. As auréolas
eram rosa-chá e Isabelle reconheceu o corpo de Alexa. Isso a
enlouqueceu.
____O que Alexa pretendia? Queria se entregar ao mascarado desconhecido?
_____Não toque nela! - gritou.
O enorme mascarado levantou-se e empurrou Isa.
_____O que é fedelho? Você a quer? Poderá tê-la,
depois que eu me satisfazer...
Alexa pareceu despertar de seu torpor e fechou seu roupão e a
capa.
O mascarado voltou-se para ela e falou:
______Vamos minha Dama! Não deixe que este moleque imbecil nos
atrapalhe...
Dizendo isso, aproximou-se para retirar totalmente a roupa de Alexa.
Esta levantou-se e tentou sair dali, ao que foi impedida pelo marmanjo
que a apanhou pelo pulso.
_____Quem veio na chuva é pra se molhar e eu não vou te
largar até ter o que quero...
O sangue subiu na cabeça de Isabelle e ela pulou no pescoço
do mascarado. O tamanho dos dois era tão desproporcional que
quem presenciasse o embate, acharia que um cãozinho Chiuaua atacava
um Dog Alemão.
O grandão, girou o corpo várias vezes e Isa não
lhe largou. Estava iniciada a balbúrdia pois, logo, focos e focos
de brigas foram se formando e ninguém mais sabia quem batia em
quem. As mulheres separaram-se a um canto e os homens se socavam e distribuíam
pancadas por todos os lados. Isa, que fora confundida com um rapaz,
fora jogada ao chão e quanto mais tentava se levantar, mais recebia
golpes. A certo momento, ela, já com os dois olhos inchados,
percebeu que o grandalhão havia apanhado Alexa e esta se debatia
, tentando se livrar.
Isa apanhou um pedaço de lenha que encontrou perto e baixou na
costa do bruto, que furioso, lançou Alexa como uma boneca para
um lado e voltou-se contra sua agressora. Iria massacra-la.
Repentinamente, dois tiros ecoaram no vale e o povo começou a
correr e a fugir. Isa estava tentando manter-se em pé. Tinha
o corpo todo moído. Procurava por alexa e o local, iluminado
apenas por lampiões, dificultava sua busca. Não se importava
mais, se seria flagrada ali ou quem atirara.
Tateava o chão em desespero, até que encontrou uma mão
macia e acetinada. Puxou o corpo morno contra si e viu que sua amada
estava desmaiada. Seus cabelos claros, agora eram de um vermelho vivo.
_____Sangue!
Um vulto enorme aproximou-se.
_____Temos que leva-la urgente daqui!
Isa reconheceu aliviada a voz de Jonas.
_____Acho que bateu a cabeça em uma pedra! gaguejou, Isabelle.
Sentia-se desfalecer da dor física e da angústia, mas
tinha que resistir.
Jonas levantou o corpo de sua patroa, como se apanhasse uma criança
ao colo.
_____Ainda bem que atirei para cima! Mais um pouco e dariam cabo de
você. Animais no cio são perigosos!____ Temos que tira-la
urgente do vale. Ela ainda respira. Talvez haja tempo de socorre-la...
>>>>>>>>>>>>QUEM VENCERÁ?
O EROS OU THANATUS ?<<<<<<<<
Isa estava deitada de bruços em sua cama, semi afogada em suas
lágrimas. Desde que saíram do vale não parara de
chorar. O dia amanheceu e ela não se animava a se mover, com
medo de que alguma má notícia descobrisse seu esconderijo.
Quinho entrou no quarto como um rojão.
_____Dona Isa, Dona Isa!
Isabelle sentiu-se desfalecer.
_____Vão traze-la do hospital!!! O doutor disse que ela pode
ficar na Quinta para se recuperar...
Isabelle levantou-se de um salto e beijou as duas bochechas de Quinho!
______Meu Anjo adorado! Que bom que você me deu esta notícia.
Já estava me consumindo de tanta angústia...
_____Acho mesmo que a senhorita precisa é se cuidar! Está
um bagaço só!
_____Ô moleque desbocado! Eu te chamo de anjo e você me
diz que sou um bagaço?
_____Desculpe! Senhorita Isa, mas já se olhou no espelho?
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>O
PANDA<<<<<<<<<<<<<<<<<<
Isabelle convenceu Norayeva a deixa-la ser uma das moças que
cuidariam de Alexa em sua convalescença. Esta ainda estava imersa
em semi-inconsciência e passava boa parte do dia e da noite adormecida.
Isa descobriu com tristeza que Alexa não mais a reconhecia. Dr.
Ernesto explicou que a moça bloqueara dentro de si algumas personagens
e estava com amnésia parcial. Porém acreditava que com
o tempo, tudo entraria em seus eixos.
_____Ela não se lembra da mãe e nem de você, entre
outros eventos ! avisou, Norayeva.____Não tente forçá-la
a se lembrar de nada!
Certa manhã, quando Isa, ajudava Alexa a se alimentar na cama,
a moça para e a olha atentamente.
_____Será que ela está me reconhecendo?- pensou Isa.
_____Você é um Panda Gigante? balbuciou Alexa, que
não articulava uma palavra desde o acidente.
_____O que?
_____Panda! Aquele urso que come broto de bambu...
_____Ora! exclamou Isabelle desapontada, lembrando-se de seus
dois olhos que estavam roxos, o que provavelmente aguçou o espírito
zombeteiro de Alexa.
_____Pandas não gostam de sexo! continuou a convalescente.
_____É? Mas eu gosto!
_____Mesmo? Você é casada? Tem namorado?
_____Não!
_____Ah! Bom! Mas, Pandas estão em extinção. Não
gostam de sexo...
_____Não sou uma Panda...
_____Mas se parece com um com estes olhos escuros aí. Tem que
botar um bife de cada lado. Ajuda a clarear...
_____Beleza! Agora deu de teimar?
Um rebuliço se formou no quarto. A outra moça que ajudava
com Alexa saiu correndo no corredor.
_____Dona Norayeva! Seu Eduardo! A senhorita Alexa está conversando!
Eu ouvi ela conversando... gritava a moça. Logo o quarto
estava cheio de gente e Norayeva apanhou as mãos de Alexa e pediu:
_____Fale comigo, minha querida! Diz alguma coisa...
_____Oi, Nora! Tudo bem? Você não acha que aquela moça
ali se parece com um Panda?
Dia a dia, Alexa recuperava sua saúde e Doutor Ernesto estava
otimista.
Viera retirar os pontos da cabeça de sua paciente.
_____Ela é forte! Está se recuperando muito bem fisicamente!
_____E mentalmente, Doutor? quis saber Nora.
_____Bom! Aí, só com o tempo. Ela ainda está meio
confusa e tem a Amnésia. A pancada na cabeça foi forte.
Mas estou otimista. O tempo saneará todas as feridas...
_____Ela está diferente! Doutor. Está mais alegre e bem
humorada...
_____Deve ser porque, bloqueou dentro de si o que lhe causava angústia,
mágoa e dor. Mas aos poucos encontrará seu caminho!
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>MON
AMIS<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
Isa, agora passara a dormir em um quarto de hospedes há metros
do de Alexa e toda noite era uma agonia vê-la dormir e desejar
estar ali com ela, abraçando-a e beijando-a.
Naquela noite perfumada, não era diferente. Sua janela estava
aberta e no ar recendia o perfume das flores das árvores próximas.
Isa levantou-se e foi buscar um copo de água. O corredor estava
escuro. Quando voltou, ao passar pela porta do quarto de Alexa, ouviu
gemidos. Tornou a entrar em seu quarto com o coração apertado.
Bebeu a água de uma virada só e saiu pela janela vestida
somente com seu pijama. Era um lugar muito alto. Abaixo uma queda mortal
e ela pensou que enlouquecera, mas não desviou seu coração
de seu intento.
Foi caminhando cautelosamente, agarrada na amurada, contanto as janelas.
Encontrou a que pensava ser a de Alexa e a empurrou com cuidado. Abriu-se.
Entrou silenciosamente e pode ver que sua amada gemia e se contorcia
na cama. Estava tendo um pesadelo. Isa entrou cuidosamente debaixo dos
lençóis e abraçou Alexa, que se aninhou em seus
braços.
_____Vamos minha querida! É só um sonho ruim...
Alexa parou de se debater e passou a ressonar profundamente nos braços
de Isabelle. Esta por sua vez, sentia-se incendiar de desejo contido
ao sentir o toque e o perfume do corpo de seu amor. Controlou-se. Agora
era para ela uma desconhecida. Apenas mais uma das moças que
cuidavam da doente. Contentou-se em tê-la em seus braços
e assim ficou quase até o raiar do dia, quando voltou sorrateiramente
ao seu quarto. Não conseguira piscar o olho mas estava feliz
e assim passou a visitar e a se deitar com Alexa, todas as noites daquela
semana, até que descuidou-se e dormiu. Quando acordou, encontrou
Alexa desperta, ainda aninhada em seus braços, mas olhando-a
com seus enormes olhos cinzas.
______Então é você o anjo bom que vem me livrar
dos meus pesadelos? perguntou baixinho.
Isa assustou-se e descolou seu corpo do de Alexa. Esta riu suavemente.
Ah como era lindo aquele sorriso, pensou Isabelle, inebriada por ter
tido a oportunidade de presencia-lo.
______Não se afaste! Gosto de te-la por perto!
______Preciso ir, ainda tenho que cuidar de algumas coisas!
______Virá novamente na próxima noite?
______Não! Acho que você já está se recuperando
bem!
______Mas tenho muitos pesadelos, mon amis...
______Eu não posso! Nora não aprovaria!
______Será um segredo nosso!
______tudo bem! Segredo, está bom assim?
______Sim !
______O que significa mon amis? (* pronunciasse monamí)
- quis saber Isa.
______minha amiga em francês. Você será
minha amiga a partir de hoje. Tudo bem?
______Tá... tudo bem!
______E como boas amigas, até já temos segredos...
______É, boas amigas! repetiu Isa, desconcertada e saiu
do quarto rapidamente.
Duas noites depois, Norayeva quase as flagra nos braços uma da
outra. A velha governanta aproximou-se no corredor com seus passos pesados
e Isabelle que nem vira o dia amanhecer, rolou da cama para o chão
e se arrastou para baixo do móvel. Alexa apenas ria.
_______Bom dia, minha menina! Espero que esteja disposta hoje! Temos
que dar uma volta e você tem que aproveitar e fazer um pouco de
exercício, tomar ar puro!
______Tubo bem! Nora!
______Está rindo minha princesa? disse Norayeva comovida!
______Sim! Tenho dormido nos braços de um anjo...
______Venha, levante-se quero lhe mostrar muitas coisas. Comprei alguns
livros novos para você...
Isa esperou que ambas saíssem do quarto e se esgueirou pelo corredor.
Em seu quarto, refez-se do susto e resolveu encerrar suas visitas noturnas
à Alexa.
A semana transcorreu sem novidades além de que a jovem Alexandra
parecia recuperada totalmente e era outra pessoa. Muito quieta e séria,
porém sem qualquer traço da antiga agressividade.
Isabelle voltou a cuidar dos livros da Helicon e agora, presenciava
Alexa em suas horas de leitura. Descobrira que a jovem Além Tejo
era muito culta e lia e escrevia em vários idiomas, daí
o hábito de selecionar frases e poemas e traduzi-los.
Isa por sua vez, dedicava-se com paixão aos seus estudos ao piano,
porém, voltou-se a colecionar poemas e transcreve-los em sua
letra e esquece-los na biblioteca. Tânia andava meio
afastada. Ela e Eduardo continuavam namorando mas agora havia um certo
embaraço entre as duas e a paulista deixara de freqüentar
a biblioteca do ninho.
Uma tarde, Isa cuidava de organizar um pilha de livro, quando ouviu
a voz de Alexa.
_____Bonito poema! Muito inspirado!
A pele do rosto de Isabelle pegou fogo. Alexa aproximou-se.
_____Mon Amis não me faz mais companhia nas noites?
_____Você não precisa mais! Já deixou de ter pesadelos...
_____Às vezes tenho!
_____Não posso me arriscar!
A conversa estancou por aí, até que Alexa tornou a falar.
Agora lia o poema que Isabelle deixara na mesa.
EROS E PSIQUE
Conta
a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando
Pessoa
_____sabe
que este poema tem um significado profundo? perguntou Alexa.
_____Sim! Penso que significa a importância vital do auto conhecimento!
Que talvez vivamos para vencer obstáculos, dia a dia, até
encontramos nosso verdadeiro eu...
Alexandra arqueou as sobrancelhas, admirada. Depois sorriu suavemente,
sem deixar de fitar Isa, profundamente.
_____Percebo que além de atraente, é uma jovem inteligente.
Uma mistura em plena ebulição e muito perigosa. Pobre
do homem que se apaixonar por você. Pobre de Eduardo...
Isabelle empalideceu. Então Alexa sabia sobre ela e Eduardo.
_____Não é preciso muita argúcia para perceber
que meu irmão a quer.
Isa continuou silenciosa e suas mãos tremiam enquanto tentava
classificar um livro na estante. Alexa aproximou-se dela e abriu mais
seus belos olhos cinzas. Parecia intrigada mas por fim, para alívio
de Isa, retornou ao assunto anterior.
_____Aprecio muito poemas e poesias. São como gotas de paixão
e orvalho da alma de quem escreve, reavivando dentro de nós os
sentimentos ocultos ou mesmo adormecidos...
_____Se gosta tanto, posso coletar alguns para ti. Também amo
poema e poesias, além da música e seria maravilhoso poder
compartilhar com alguém que...
Isa calou-se abruptamente. Novamente corria o risco de se trair. Alexa
tocou-lhe o ombro desnudo, suavemente, sorrindo timidamente.
_____tudo bem! Mon Amis.
E assim, a partir daquele dia, a amizade entre as duas foi se estreitando
e Isabelle sentia que dia a dia Alexa a admirava mais e havia algo entre
elas que fazia a atmosfera ficar densa, quase tangível. Havia
um clima de magia e pela primeira vez, Isa percebeu que Alexa bebia
suas palavras com tanta intensidade e sofreguidão pois reconhecera
nela uma parceira à altura com quem compartilhar sua paixão
pela literatura, música e artes. Eram como almas gêmeas
que finalmente se reconheciam.
Em algumas tardes prazerosas, Isa aproveitava a oportunidade singular
de ter Alexa tão próxima e em sintonia consigo, para contar
à jovem seus causos pantaneiros, o que esta muito apreciava e
a incentivava.
_____Conte mais! - sorria, mostrando suas duas covinhas graciosas.
Isa sentia-se desfalecer quando a via sorrir timidamente, mas por fim
controlava-se e dotada de coragem, passava a narrar outra estória.
Ao fim de certa narrativa, Alexa tocou-a suavemente nas mãos
e perguntou com a fronte baixa, deixando sua franja ocultar parcialmente
os olhos.
_____O que fará, depois que se formar?
_____Pretendo participar de uma orquestra, dar concertos e aulas. Quero
viver pela música e da música...
_____É um terreno árido...!
_____Mas ainda assim, poderei viver com dignidade, mesmo sem ter muito
dinheiro, porém estarei fazendo o que tenho paixão e cumprindo
meu destino, como o destino do rio que é o mar...
Alexa levantou-se de onde estava e aproximou-se da lareira, ficando
de costas para Isa, como se em profunda meditação sobre
tudo que ela dissera. Momento depois, rompe o silêncio.
_____E por falar em paixão, observei que não há
nenhum moço por perto. Você não tem namorado ou
mesmo, se interessa por algum rapaz?
_____Não! Eu me dedico exclusivamente ao meu estudo. respondeu
Isabelle.
_____Mas, é uma moça jovem e... bonita. Deve ter algum
moço interessado. Um rapaz em especial...
_____Se tem, nem vi! argumentou Isa, fingindo despreocupação
e tentando antecipar a finalidade pela qual Alexa insistia naquele assunto.
Alexa voltou-se e sorriu. Novamente o coração de Isa encheu-se
de paixão e desejo, por isso resolveu aproveitar a oportunidade
e a abertura que entrevia:
_____E você? sua voz soava estranha, meio ofegante e ansiosa.
_____Bom! Eu recebi algumas cartas de certo primo distante que mora
em Portugal. Tem vinte e tantos anos.É ruivo como mamãe.
Mandou uma foto.
_____É bonito?
_____Sim! É bem bonito...
_____Mesmo? o ciúme invadia o peito de Isa e a sufocava.
Alexandra continuava a falar, aparentemente alheia ao turbilhão
de sentimentos que provocava.
_____Sim! Este primo diz que quer me conhecer e saber se sou mesmo a
deusa que descrevem nas terras do Além Tejo e Trás
os Montes. Aliás, deusa é a expressão
que ele usou. Diz que já me ama sem me conhecer. Que é
algo como almas se reconhecendo...
_____Surpreendente ! Tem muita lábia, este moço!
comentou ferinamente, Isabelle, com o rosto avermelhado.
Alexa pareceu curiosa diante do seu rubor, mas isso não a impediu
de continuar.
_____Virá por esses dias. Nora vai promover um jantar à
luz de velas para nós. Ele vai me pedir em namoro...
_____É mesmo? Aposto que o nome dele é Manoel... Manoel
o conquistador. Ou mesmo Joaquim, a alma gêmea desgarrada em busca
da mulher prometida...
_____É impressão minha ou alguma coisa que contei te aborreceu?
Está estranhamente sarcástica, irônica até.
Isabelle, conhecendo que alcançara o limite de sua resistência
naquele momento, fechou o livro que tinha no colo e saiu da biblioteca
raivosa, deixando atrás de si, Alexa, surpresa com sua atitude.
Uma semana se passou e Isa evitava ao máximo Alexa. Tentava se
concentrar em seu trabalho e seus estudos pois agora sabia que existia
uma ameaça em franca aproximação e tentava desesperadamente
escudar sua alma sensível da ferida mortal de ter suas esperanças
de futuro com Ale, lançadas por terra pelo tal pretendente. Não
conseguia pensar no que fazer até o dia do tal almoço.
Sabia que tal evento seria o divisor de águas e ela poderia perder
definitivamente Ale e nada que fizesse surtiria qualquer efeito. O que
a acalentava porém era a possibilidade, mesmo ínfima de
que Alexandra rejeitasse o moço como fizera com muitos outros
rapazes em sua vida.
______Mas é apenas uma possibilidade e eu não posso me
iludir. Tenho que encarar a realidade! Se contar a ela tudo que passamos
em nome do desejo e da paixão, lembrará também
de sua mágoa e dor, rejeitando-me por fim, como sempre fez...
Se ficar esperando um desfecho miraculoso, corro o risco de perde-la
para sempre. A verdade é que não tenho saída e
nem vejo um caminho que me leve até o coração do
meu amor...
Anoitecia e Isabelle não conseguia dormir. Estava em transe e
o torpor de seu medo e angústia a fez levantar-se da cama e caminhar
como sempre na escuridão. Naquela noite em especial, foi até
a biblioteca. Lá acendeu algumas luzes, de forma que a sala ficasse
parcialmente iluminada e sentou-se, contemplando o retrato de Lara.
_____Eu tentei, Lara! Eu tentei... estou desesperada! Sinto que a cada
dia estou perto de perde-la e nada consigo fazer além de me lamentar...
Enquanto falava, soluçava e ao observar os expressivos olhos
verdes do retrato, tinha a ilusão que ela a compreendia, pois
também provara a perda de um grande amor...
Não percebeu quanto tempo ficou ali, conversando desconexamente
com a imagem de Lara, até que sentiu um perfume tão conhecido
seu. O perfume de Alexa. A princípio pensou ser uma peça
de sua imaginação, até que ouvia sua voz.
_____Está me evitando? Belle?
Isa estremeceu ao ouvir como ela agora a chamava e tentou se recompor.
_____Não ! Não! É, é que tenho tido muita
coisa para organizar, cuidar...
_____E por isso, Mon amis me deixou de lado e em segundo plano? Pensei
que nossa amizade significasse alguma coisa para você...
_____E significa muito! Eu nunca te relegaria a segundo plano. Estou
sendo sincera...É que não tenho outra alternativa. Estou
fazendo o que acho melhor, mais razoável. Não me interprete
mal. Penso em você a todo instante...
Isa baixou o rosto. Havia se descontrolado e se revelara.
O rosto de Alexa ficou com uma expressão inescrutável
e por mais alguns minutos permaneceram ali, próximas sem se falarem.
_____Ela foi uma mulher muito linda! observou, Alexa, sobre o
retrato de Lara, a título de mudança de conversa._____Não
consigo me lembrar dela. O acidente que sofri a apagou de minhas lembranças...
_____Mas um dia se lembrará, eu sei!
_____Espero esse dia chegar e que seja em breve. Quando vejo o retrato
de Lara, sinto uma certa ânsia, como se algo oculto dentro de
mim, e do qual não me lembro palpitasse dolorosamente. Já
procurei saber com Nora ou Eduardo, algo mais sobre tudo que me ocorreu
antes do acidente, mas eles misteriosamente se mantêm calados.
Dizem, como você agora que um dia me lembrarei de tudo e o que
mais me intriga é o fato de ter me esquecido dela e de você...
_____Mistérios da psique humana! argumentou Isa, a título
de despiste.
_____Sim! E é por isso que eu insisto em pensar que de certa
forma você já significou muito para mim aqui na Quinta,
do contrário também não a baniria de minha memória...
Isa sorriu melancolicamente.
_____Talvez, Ale. Talvez...
_____Não vai me contar também?
_____Não! Tenho convicção de que em breve se lembrará
e como recomendações médicas são para serem
observadas, nada direi que possa prejudicar sua recuperação
plena.
Dizendo isso, Isa tocou Alexa um pouco acima da nuca, exatamente no
local onde esta se ferira, ao que esta gemeu e movendo graciosamente
o pescoço, aninhou a cabeça na palma da mão de
Isa. Estava agora de olhos fechados como se meditasse profundamente.
_____Ainda dói? quis saber Isabelle preocupada com o gesto
de Alexa. Esta sorriu e tornou a abrir os belos olhos.
_____Não, apenas estava perdida em pensamentos efervescentes...
Silêncio embaraçoso entre as duas.
Novamente, Alexandra o rompe.
_____Me esclarece uma coisa, Mon amis, você que é uma garota
experiente, como é beijar e tocar alguém... Assim, de
forma, digamos...
_____De forma sensual?
_____Isso mesmo! confirmou Alexandra, com o rosto avermelhado.
_____Nem sou tão experiente assim. Aliás tenho uma mínima
experiência pois me relacionei com alguém uma única
vez e de forma muito breve...
Alexa sentou-se muito próxima de Isabelle, tanto que esta podia
ouvir sua respiração que antes suave, se tornar ligeiramente
ofegante e entrecortada.
_____E você? Ale? Já se relacionou com alguém?
_____Não! Não que eu me lembre...
_____Então é virgem? atacou Isa, com a garganta
seca.
_____Sim!
Foi a hora de Isabelle fechar os olhos de tanto desejo de tomar aquele
corpo maravilhoso que ainda não havia sido invadido ou mesmo
rompido sob o toque e o peso de um amante. Ah se pudesse
ser a primeira da vida de Alexa, poderia molda-la sensualmente ao seu
modo, no seu ritmo e a faria viciar em sua seiva de mulher...
_____Você está bem?
_____Sim! Estava apenas perdida em meus pensamentos...
_____Decerto algo assim muito prazeroso pois está com uma expressão
de profundo enleio...
Isa tornou a firmar-se ao chão. Lembrou do Templo de Afrodite
e de como Ale oferecera seu corpo adorado para quem estivesse ali e
quisesse desfruta-lo. Uma atitude totalmente irracional. Porque agira
assim? O que a levou, sendo virgem a participar de uma festa pagã
como aquela? Seria o fato de tê-la flagrado nos braços
de Eduardo?
Alexa a retirou de seus pensamentos quando tomou uma de suas mãos.
_____Tem uma mão bonita e de dedos bem talhados. Talvez faça
uma escultura delas, como Camille Claudel que apreciava muito esculpir
pés e mãos...
Apesar da mudança do rumo da conversa, Isa ainda não conseguia
se concentrar em outra coisa além do fato de que Ale se confessara
virgem.
_____Nunca deixou os garotos se aproximarem?
Alexa arqueou a sobrancelha, intrigada pela insistência no assunto,
mas ainda percorrendo a mão de Isa com seus dedos, respondeu
despreocupadamente:
_____Bom, pelo que me lembro, eu os deixava aproximar sim e por fim
aprontava com eles. Simplesmente os botava para correr.
_____E vai botar seu primo para correr? emendou Isa, esperançosa.
_____Não! Desta vez não. Quero finalmente desvendar como
é me relacionar com um rapaz. Acho que já
é chegada a hora não é?
Isabelle nada disse. Apenas fechou os olhos. Estava corroída
pelo ciúme e tentava em vão ocultar seus sentimentos.
_____Acho que a hora de fazer amor é por algo maior, mais intenso...A
hora para o amor é quando sua alma clama pelo corpo desejado,
quando não se pode pensar em manhãs fulgurantes, sem ter
provado antes do vinho ou do néctar da pessoa que se quer. Somos
mulheres e para uma mulher é necessário algo mais do que
tesão e curiosidade ante ao que não se conhece. É
necessário ouvir com a alma o chamado. Então
conhecerá que é chegado o momento... Isa deixou
sua alma falar por si mesmo sentindo que estava sendo invasiva.
_____Mesmo? pergunto Alexandra, novamente impressionada pela
paixão e intensidade como fluíram as palavras de Isabelle.
_____Sim! Para mim é assim que flui o desejo, a paixão...
_____Foi assim para você na sua primeira vez?
_____Não! Minha primeira vez foi movida pelo desespero e pela
transferência de um sentimento represado e desprezado para o corpo
de outra pessoa que para mim, naquele momento representou a posse de
quem mais desejei e que repudiou meu sentimento...
Silêncio embaraçoso entre as duas. Alexa voltou seu rosto
para um ponto qualquer da imensa biblioteca e depois de alguns instantes,
perguntou suavemente:
_____Como seria tocar o rosto de alguém que você deseja?
Belle?
_____é algo muito especial.! Ale...
_____Mostre-me como você faria! Imagine que sou alguém
especial e que você deseja há muito...
_____como se eu pudesse imaginar outra coisa! pensou Isa.
_____Vamos parar com isso! Ale, não é brincadeira. É
algo mágico, sagrado até...
_____Não estou brincando! Belle... Respeito o sagrado, mas, preciso
saber e sinto que em você posso confiar todos meus anseios e segredos
acariciados...
Os olhos cinzas de Alexa se escureceram e Isabelle percebeu que ela
estava muito perturbada e isso a fez ceder fechando seus olhos e estendendo
as mãos que passaram a tocar suavemente o rosto de Alexa, movendo-se
de cima a baixo, contornando-lhe as linhas macias e harmoniosas. Podia
sentir-lhe o aroma sensual da saliva, de sua pele e o calor fluindo
e se intensificando.
______Quem você está imaginando Belle?
______Ninguém em especial...
______Está mentindo! Porque mentir para mim Belle? O que deseja
ocultar?
______Apenas tento perpetuar esse momento e tê-lo comigo por todos
os dias da minha vida...
______Está apaixonada! Posso sentir...
Alexa estendeu sua mão e tocou suavemente o rosto de Isa que
estremeceu e abriu os olhos, dentro deles jorros de paixão e
desejo.
Alexa continuou a toca-la. Tocou-lhe os lábios, sentiu sua textura
firme e acetinada. Depois evoluiu suavemente para o queixo, para o aveludado
da linha final dos cabelos junto às orelhas até sua nuca.
Isa não conseguiu abafar um gemido premente.
______Por favor, pare!
______Você está arrepiada...-sussurrou Alexa. ____Está
excitada, no cio e sou eu quem alterei a química de seu corpo...
Isso é especial e como diria você, mágico até...
______Eu lhe peço... Deixe-me ir embora...
______Não! Estes momentos para mim possuem a sedução
de um caminho desconhecido e nunca antes explorado e minha natureza
não me deixa recuar... Faz parte de minha personalidade. Quero
poder enlouquecer-te...
______Já estou me recuperando...
______Não é o que diz seu corpo. Posso senti-lo reagir
ao meu toque.
Seus lábios estão intumescidos, seus olhos brilham com
uma luz misteriosa, e sua respiração está em contraponto
à minha... Estamos no mesmo ritmo, Isa, a sós na mesma
redoma de cristal, não a rompa agora...
Alexa dizia tudo, suavemente e baixo ao ouvido de Isabelle, enquanto
lhe roçava docemente o rosto com os lábios. Isa ergueu
a mão e tocou-lhe suavemente o seio que já mostrava com
seus bicos eriçados que também estava excitada.
______Ela me quer! Ela me deseja como antes! pensou não
suportando mais, e lançando a cabeça para trás
quase desfalecendo, imaginando que o momento se aproximava , onde poderia
tocar e sugar os seios de auréolas rosa-chá de sua amada,
finalmente...
Alexa interrompeu a carícia e Isa percebendo a quebra daquele
ritmo doce, tornou a olha-la profundamente nos olhos e percebeu ali
algo da sua antiga personalidade, ao que se confirmou com um sorriso
malicioso.
______Ale, o que tem? O que está pensando? quis saber
Isa, angustiada pelo desejo contido em sua vazante.
______Ora! Belle, não estamos fazendo nada errado! disse,
e Isa percebeu que a voz dela estava mais rouca do que costume.
O passo seguinte foi mais audacioso. Alexa enfiou suas belas mãos
por baixo da camiseta de Isa e lhe acariciou os seios, ao que Isabelle
atirou a cabeça para trás, suspirando profundamente, sendo
que neste momento, sua parceira lhe acariciou o pescoço com os
lábios, dando-lhe pequenos beijinhos...
Não se contendo mais, Isa conduziu Alexa até a mesa e
a encostou, fazendo-a se deitar ali, com o peso de seu corpo. Depois,
subiu sobre ela e enlaçou suas pernas. Nisso, beijava os lábios
de Alexandra com ternura e suavidade. Tinha medo que ela fugisse. A
certo momento, Alexa sorriu novamente de forma maliciosa.
_____Diga-me agora o que está pensando! - pediu Isabelle.
_____Pensei que esta nossa brincadeira sensual é tão boa
e educativa, que podia praticar mais vezes com outras garotas ou rapazes,
antes de firmar namoro sério com meu primo...
Isabelle desmoronou ao chão da dura realidade e o impacto a fez
perder o eixo, porém tentou se recompor rapidamente e manter
alguma dignidade, mesmo depois que seu sonho mágico se rompeu
de forma abrupta e cruel.
_____Ah! Sim! Tudo bem! Pode praticar com outras garotas
e rapazes. Falou com amargura.____Aliás, aqui na Quinta
tem centenas de criaturas de todas as cores, raças, biótipos.
Mas pode começar com a arrumadeira, a passadeira, a copeira,
porque elas estão mais próximas...
Dizendo isso, Isabelle saiu da sala, sem dar tempo de Alexa expressar
qualquer movimento ou articular palavra.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>O
PRIMO<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
Alexandra nos dias que se seguiram, ainda tentou aborda-la de todas
as formas, chegando até a declarar para Nora, na biblioteca onde
Isa se encontrava, despreocupadamente que estava tendo uns sonhos "ruins"
e que sentia falta de seu anjo protetor que antes a consolara quando
estava enferma.
Nora
riu .
_____Venha
querida que vou lhe ensinar uma reza muito antiga que é para
conjurar o anjo guardião. Verás que suas noites serão
muito melhores.
Sairam
da sala.
Isabelle
sorvera cada palavra de Alexa, pois sabia o real significado delas,
porém estava magoada e ferida o bastante para desejar abandonar
a tudo alí na Quinta e se embrenhar mundo afora. Iria apenas
esperar a melhor oportunidade.
Uma tarde, Quinho passou pela biblioteca, meio que disfarçadamente
e deixou sorrateiramente um envelope e uma bela orquídea recém
colhida sobre a mesa. Isabelle que estava totalmente absorta em seu
trabalho, como forma de aplacar sua dor, em dado momento, finalmente
notou o misterioso envelope. Abriu-o e sentiu-se estremecer ao ver a
letra graciosa e traçada com personalidade de Alexandra.
Começou a ler.
_____Mon Cher!
Perdoe-me! Estou confusa, não sei o que pensar sobre tudo aquilo
que ocorreu naquele dia. Quero apenas que saiba que não sou a
pessoa fria e insensível que pensas e que tenha saído
ilesa de nossa inocente brincadeira sensual. Penso naqueles
momentos todo segundo, toda hora, todos os dias. Sua ausência
me desola e meu coração é noite sem lua ...
A.A.T.
Isabelle correu para seu quarto e leu e releu aquele bilhete, beijando-o
fervorosamente enquanto lágrimas escorriam por sua face e os
soluços quase lhe partiam a estrutura esguia.
______Eu tenho que ser forte para não ir me atirar aos pés
dela e implorar seu amor! Ela precisa encontrar a encruzilhada e então
optar: ou o primo ou a mim. Só assim saberá realmente
o que deseja ou quer para si no presente e futuro...Mas...algo está
me dizendo que estou perto de perde-la definitivamente!
Ah! abençoados eram aqueles dias em que quase nos matávamos
em tocaias, vinganças pueris e desejos reprimidos, mas antes
era apenas ela e eu. Agora há esse moço... Nunca aceitei
o óbvio: nosso amor está condenado na raiz porque a amo
mais agora, assim, sensível e carinhosa, mesmo sabendo que é
temperamental e instável. Um dia se lembrará do nosso
passado e toda sua mágoa e desprezo por mim aflorará e
não sei como irei suportar isso.
Não agora ao ouvi-la constantemente me chamando de Belle e poder
sorver o seu sorriso tímido, maravilhoso...
Quinho apareceu várias vezes naquele dia, com cara de quem pergunta:
Tem algum bilhete para levar?, mas Isa estava determinada
a se fechar em copas e sublimar seu sofrimento. Precisava retirar rapidamente
seu exército do país de Alexandra, antes que o ferissem
de morte...
Os dias fluíram para Isabelle no acalanto de noites angustiadas
e choros solitários, até que finalmente o primo estrangeiro
chegou à Quinta. Isa procurava não se afastar mais da
ala residencial, que agora era pouco freqüentada pois o restante
do pessoal se concentrava mais nos blocos da Quinta e na Helicon. Apenas
Quinho insistia em ficar saltitando ao seu lado procurando roubar-lhe
um pouco da atenção.
_____Já contei sobre o Boitatá?
_____Já, Quinho...
_____Tem certeza?
_____absoluta!
_____Bom, e sobre o Boto?
Isa manteve-se em silêncio. Procurava em vão se concentrar
na classificação dos livros na biblioteca mas não
conseguia. Sabia que naquele dia, estaria acontecendo o tal almoço
especial na Helicon.
_____O que a menina Isa tem? Está numa tristeza só...
_____Coisa de adulto, Quinho...
_____Ah sim! A senhorita está apaixonada...
_____O que é isso, Joaquim? Do jeito que não saio daqui,
só se for paixão por estes livros ou por estas estátuas
de mármore...
O menino riu. Depois falou todo maroto.
______Precisava ver a senhorita Alexandra de vestido... Está
linda... Uma princesa, se é possível ser mais bonita do
que já é...
Isa sentiu uma pontada de desespero. O livro em sua mão caiu.
______Deixa que eu pego! apressou-se o menino._____Ah! Lembrei!
Tenho um recado aqui da patroa. Ela quer que a senhorita vá até
a Helicon participar do tal almoço. Disse que apreciaria ouvir
umas músicas ao piano no fim da tarde...
______Ah! Sim! Ela não pediu! Ela mandou, não é?
______Bom! Aí eu não sei...
______Diga a ela que não vou. Estou indisposta hoje. Acho que
prestes a resfriar. Além do mais, existem outros alunos na Quinta
muito mais experientes e estudados do que eu.
______Tudo bem! Eu digo, mas só quando ela perguntar... Eu não
sei se a patroinha vai gostar muito. - o menino coçou a cabeça,
embaraçado._____Bom, tô andando.
Quando ele saiu, Isa estremeceu. Não tivera coragem de mandar
entregar a Alexandra o Soneto do Vinícius de Moraes que copiara
cuidadosamente na noite anterior. Abriu a folha e releu:
SONETO DO CORIFEU
São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar por perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.
(Vinícius
de Moraes)
Lágrimas rolaram de seus olhos. Havia tomado uma dura decisão.
Depois que o namoro de Alexa fosse confirmado ela pediria para deixar
de trabalhar para os Além Tejos. Voltaria para seu dormitório
de aluna bolsista e arranjaria algo para fazer na pequena cidade. Poderia
trabalhar na pequena loja de eletrônicos e discos de Seo Olívio,
pai de Godofredo, o jovem que conhecera quando ainda era uma recém-chegada.
Deixou tudo que tinha nas mãos sobre a mesa e foi tomar um banho.
Estava sendo consumida por sua tristeza e nada parecia amainar aquela
sensação de que um dilúvio estava prestes a desabar
sobre sua cabeça.
Dentro da sala de banho, imersa até o pescoço, ela rememorava
tudo que vivera até ali e todos os encontros e desencontros que
tivera com Alexandra. Tudo muito intenso, desvairado. Lembrou-se do
primeiro conflito, quando ela lhe despejara um balde dágua.
Depois a queda da árvore, pois vira Alexa se tocando com uma
peça de roupa sua. Aí, quando finalmente descobriu-lhe
o desejo, procurou-a, ofereceu seu corpo e seu amor àquela a
quem chamavam Musa de Pedra e foi rejeitada. Fugiu, perdeu-se.
Lara salvou-a e lhe deu o amor de que tanto necessitava para curar sua
alma ferida e magoada. Depois tanta dor, tanta perda, Alexa ainda passou
a odiá-la. Lembrou-se de sua luta recente para reconquistar-lhe
o amor e o incidente perigoso no Templo de Afrodite que quase lhe rouba
a vida de sua amada. Agora ali estava ela, sozinha, esquecida por Alexandra
que a considerava apenas como uma boneca útil para seus caprichos
de moça jovem, com sua libido em crescendo e hormônios
aos jorros no corpo. Pela primeira vez, perdera a convicção
de que representara para Alexa mais do que a promessa de um corpo ardente
em quem se enlaçar. Queria ter tido a oportunidade de cativa-la
de conquista-la como Loren fizera com Lara. Sim, porque o amor das duas
transcendera o corpo, era algo de essência, de alma. Talvez o
amor entre Lara e Loren tenha se iniciado com um profundo respeito e
admiração pelo talento, uma da outra. Depois descobriram-se
apaixonadas...
Saiu da banheira, nua e secou-se demoradamente. Sentiu vontade de invadir
a Helicon, bradando para os quatro cantos o quanto amava Alexandra e
que esta lhe pertencia. Mas... Ale nem ao menos se lembrava do que vivenciaram
até ali .
Vestiu-se. Desta vez com um belo roupão dourado, acetinado e
longo.
Precisava relaxar, se controlar e tornar a centrar sua energia no ideal
que traçara quando ali chegara: Formar-se. Apanhou diversas partituras
e entre elas, a que ganhara de Alexa, o Impromptus. Bebeu
uma taça cheia do vinho que mais apreciava, o Matheus, contemplando
embevecida, contra a luz aquele maravilhoso líquido tom rosa-chá,
tão sensual e ao mesmo tempo suave. Carregou a garrafa e a taça
consigo. Pretendia se embriagar completamente pelo menos naquele dia.
O que mais poderia lhe ocorrer? Que loucuras poderia fazer em sua solidão?
Talvez correr nua pelos corredores desertos, bradando seu amor, sua
dor e se isso acontecesse seria bom pois quem sabe assim extirpasse
do peito a angústia que ameaçava implodí-la.
Andou solitária ouvindo o soar sincopado de seus passos, até
a grande sala do piano que já estava totalmente recuperada após
ter sido quase destruída por Ale. Acendeu a lareira. Sentia frio
e principalmente a saudade do que nunca possuíra: os braços
cálidos de Alexandra enlaçando seu corpo, aquecendo-a.
Não quis almoçar. Estava sem fome.
Deitou-se em um divã e adormeceu. Acordou repentinamente, não
sabia quanto tempo dormira. Recompôs seu roupão e sentou-se
ao piano. Tocou algo para si mesma. Tocou músicas populares que
falavam de amor, cantarolando baixinho.
Em dado momento, a porta da sala escancarou-se repentinamente. Era Alexa,
trazendo Quinho arrastado pela gola da camiseta.
Estava com um vestido cor de pérola longo de decote sensual,
que lhe deixava os ombros nus, todo finamente bordado, além de
uma tiara de princesa, com pedras e pérolas, colar, brincos,
braceletes e anéis. Enfim, parecia a Cinderela no salão
de festas do palácio encantado.
Isa prendeu a respiração e continuou calada, enquanto
Alexandra se aproximava com Quinho a reboque.
______Se Belle não foi até Alexa, Alexa veio até
Belle!
Riu. Parecia ligeiramente alta, sob o efeito de algum vinho
ou licor.
_____Conte para ela, Quinho! Conte para ela, maroto, como botei meu
primo chato pra correr...
O menino estava engasgando na própria saliva.
_____Anda! Quinho! mandou Alexa em sua conhecida autoridade arrogante.
Isa percebeu que a cada dia a moça pouco a pouco recuperava sua
personalidade antiga.
_____Bom! - desengasgou Joaquim.____ Dona Alexandra virou o ensopado
do almoço, inteirinho no colo do rapaz... Foi um corre-corre
só. E ainda, no fim, mandou-o tomar a primeira caravela para
Portugal...
Ambos riram e Isa não sabia o que dizer enquanto dentro de si
a alegria e esperança cresciam._____Ela não o quis!
pensou.
_____Imagine! Ele avançando a mão na minha coxa? Tratei
de esfriar logo o moço. continuou Alexa.
Isabelle corou de ciúmes e levantou-se do piano.
_____Ah! Não, por favor, sente-se. Gostei do que ouvimos na outra
sala. Continue tocando. pediu Alexandra.
_____E quanto a você, senhor Joaquim, é pra sair da ala
e mandar o Jonas ficar de guarda. Aqui ninguém entra sem minha
autorização, entendeu?
_____Sim, patroa, é pra já...
_____Então vai andando...
Isabelle não conseguia se concentrar no que tocava e Alexa aproximou-se
silenciosamente sentando-se ao seu lado. O banco era grande e servia
para duas pessoas, mas Ale encostou seu ombro desnudo em Isa.
_____Vamos tocar algo à quatro mãos! Eu toco um pouco
piano. Não muito. Não me dedico, sabe? E Tem a escultura
que enrijece os dedos...
Isa consentiu em tocarem juntas, porém, vez ou outra, errava
a leitura da música, pois estava perturbada com a proximidade
de Alexandra de si.
_____Ei! Garota! Você precisa se concentrar.
_____Estou tentando! balbuciou , Isa.
Alexa parou de tocar.
_____Façamos um trato! Se você se esforçar e tocar
o Impromptu sem erros, para cada compasso que acertar, eu
te recompenso. Se errar, vou castiga-la...
_____Ora! Ale...
_____Vamos, aceite! Você poderá gostar da recompensa...
_____E qual é?
_____Um beijo na bochecha. O castigo é um puxãozinho de
orelha muito suave...
_____Como pode saber se gostaria de ser beijada?
_____Ora, apenas intuição feminina! - riu Alexa, servindo
a si do vinho, com a taça de Isa. Ao beber, sorvia o líquido
de forma sensual, lambendo os próprios lábios, não
deixando escapar nem uma gota. Enquanto assim fazia, olhava para Isa,
de forma penetrante, como uma predadora preste a abater sua presa.
_____Então? Aceita? disse, servindo-se novamente, tendo
o cuidado de aproximar a taça de suas narinas para aspirar o
bouquet.
_____você gostou do vinho!
______Gosto deste e de muitos outros vinhos portugueses. Porém,
existe um, alemão que aprecio. É bem comum. Popular, eu
diria, mas ainda assim o apreciso. Talvez pelo nome: liebefraumilch...
Isabelle iniciou o dedilhado de aquecimento, distraída.
______Você é a primeira pessoa que diz gostar de um vinho,
também pelo nome...
______É um nome bem sugestivo. Significa Leite da mulher
amada... Alguns traduzem como o leite do seio da mulher
amada...
Isabelle perdeu totalmente o acorde e quase fechou a tampa do piano
na própria mão.
______Está deliberadamente me provocando! Onde estou que não
agarro esta fêmea? pensou. Engoliu inúmeras vezes
a seco e baixou o rosto. Estava insegura sobre como agir. Alexa tocou-lhe
o queixo para levantar-lhe o rosto.
______Vamos, Belle! Toque o Impromptu para mim! Aceita o
desafio? Estou esperando... disse cruzando os braços no
colo.
Isa tornou a abrir o piano e como resposta à Alexa, passou a
tocar.Caprichou na interpretação.
______Ora! Falta um pouco mais de paixão! desafiou Alexandra.______Assim
não poderei entregar a ti, no fim do curso o anel de Euterpe...
______Verás então! riu-se Isa, retirando de seus
dedos todos os anéis e retornando à interpretação
com a fúria de todo seu sentimento represado nas mãos.
Até fechou os olhos e quando os abriu, viu o olhar intenso de
Alexa sobre si e errou uma nota...
______Vou ter que castigá-la! Disse Alexandra, fingindo
seriedade, puxando-lhe suavemente o lóbulo da orelha.
______Espere! Não é justo! Eu acertei 99% da peça...
______Então mereces alguns beijos!
Disse isso e apanhou o rosto de Isabelle com ternura e passou a lhe
dar inúmeros beijinhos na face. Isa sentiu-se incendiar. Suas
faces coraram.
______E agora por fim! A recompensa final, por ter tocado o Impromptu
com tanto sentimento!
Dizendo isso, Alexandra beijou os lábios de Isabelle que se sentiu
entorpecer. A sala ao redor escureceu e um clima sensual as envolveu.
Ambas levantaram-se do piano no mesmo momento.
______ Leu meu bilhete, Belle?
______Sim!
______E porque não o respondeu?
______Não sabia o que dizer...
______Tenho lutado contra sentimentos controversos e novos na minha
cabeça.
______É natural...
______Mas o que sinto é algo forte e possui densidade e planos
próprios...
______O que deseja neste momento, Ale?
Ela emudeceu e enrubesceu intensamente, baixando os olhos. Isa percebeu
a timidez, faceta desconhecida de sua personalidade.
______Eu desejo! Desejo... balbuciou Alexa.
Isabelle encostou seu corpo no dela e a envolveu com seus braços.
______O que deseja?
______Desejo beber do leite que jorra entre suas pernas sobre este piano.
Ë uma fantasia maluca eu sei, mas que me tira completamente de
órbita...
______Não! Nada o que desejares, minha querida poderá
ser maluco. Amantes não pecam. Nada pode impedir o curso do rio
chamado desejo...Venha, Ale, estou esperando...
Dizendo isso, Isa fechou a cauda do piano e em um salto ágil
sentou-se sobre sua superfície enorme que mais parecia uma mesa
em forma de asa de borboleta. Alexa , inicialmente, agia da forma perdida
de uma criança, porém a dado momento, aproximou-se resoluta
e à certa distância, Isabelle a laçou com suas pernas
e a puxou para si. Isso a enlouqueceu pois se desembaraçou do
roupão de Isa e com as mãos, abriu-lhe mais as coxas,
mergulhando em seu sexo, bebendo-o com sofreguidão. Isabelle
deixou o corpo recair sobre o piano, enquanto acariciava os cabelos
lisos e macios de Ale e a encaminhava pelo labirinto de seu sexo. Então
o tesão que aumentava avassalador a fez debater-se desesperada
e a fez perceber que sua amante, mesmo inexperiente, havia atingido
em cheio o centro de seu prazer, deflagrando-lhe maravilhosas sensações.
Alcançou o clímax com violência e quase faz Ale
perder o fôlego, pois suas pernas ainda a prendiam a si com força.
Ao perceber que Isa desfalecera e aos poucos se acalmava, Alexa apanhou-lhe
o corpo e puxou-a para si, beijando-a ardorosamente nos lábios.
______Recupere sua força! Mon Amour! Vou apanhar mais uma garrafa
de vinho para nós.Depois, vamos até meu quarto na Helicon!
Quero fazer amor contigo até exaurir-te e saciar este desejo
intenso que me consome...
______Não demore! Sofro profundamente de abandonite aguda
e isso me deixa desorientada...
______Não, minha bela, não vou mais deixa-la. Não
está sozinha em seu desejo e paixão...
______Então vá logo enquanto vou vestir uma roupa básica
para podermos ir até o ninho. Encontro-te aqui...
Saíram da sala apressadas. Isa caminhava pelos corredores, antes
sombrios, sentindo a felicidade jorrar pelo seu corpo como fontes de
luz, enquanto ainda sentia certo ardor delicioso em seu sexo.
Voltou de seu quarto minutos depois e irrompeu na sala do piano, encontrando
diante de si, uma nova Alexandra que neste momento tinha em sua mão
o anel de Euterpe, de onde ela certamente lera o nome de Lara.
_______O anel de mamãe! Ela lhe presenteou depois que se amaram
no tapete quais duas fêmeas no cio!
Isabelle percebeu a voz alterada de Alexandra e caminhou para abraça-la.
______Não me toque!
______Não lute contra a realidade, meu amor! Lembre-se que por
ti apanhei como um cachorro raivoso daqueles marmanjos que me tomaram
por rapaz no templo de Afrodite. Pensei que iria morrer mas suportei
a dor para tentar evitar que eles profanassem o corpo da mulher que
amo...
Alexa virou-lhe as costas e começou a tremer o que lhe denunciou
o choro convulsivo.
Isa preferia vê-la, centenas de vezes raivosa a ter que presenciar
pela primeira vez seu pranto e abraçou-a forte.
______Chore meu amor mas enterre o passado e seus mortos. Não
podemos viver vergados pelo peso de nossos erros e imperfeições.
Tome, fique com o anel. Eu ainda não o mereço e este é
o de Lara. Quero que o use...
Dizendo isso, Isa colocou suavemente o anel de Lara no dedo de Alexa
que a olhou com tanta dor e sentimento, como uma menininha perdida.
______Vamos minha pequena, onde está a Alexa selvagem e mordaz
que conheço? Vamos, reaja, rompa esta prisão que ergueste
em torno de ti...
Alexa caminhou trôpega até o divã e ali deitou-se
em abandono. Isa já não sabia mais como agir e esperou
pacientemente que seu amor abrisse os olhos, o que esta o fez, depois
de permanecer por cerca de vinte minutos silenciosa. Em seu olhar, agora,
Isa percebeu que a tempestade amainara para uma bonança envolta
em mistério.
______Venha! Determinou Alexa, apanhando uma das mãos
de Isa, enquanto a conduzia silenciosa pelo labirinto dos corredores
da Ala. Enfim chegaram a um aposento amplo no segundo piso, o que Isa
reconheceu imediatamente ser o antigo quarto de Alexa. Tudo estava arrumado
como se estivesse esperando por sua dona. A enorme cama com dossel estava
com suas cortinas carmim afastadas, mostrando um leito deliciosamente
preparado. Alexa a empurrou para a cama e começou a rasgar-lhe
a blusa e desabotoar sua calça jeans violentamente e quando se
deparou com a minúscula calcinha de Isa, rompeu-a nos dentes
perolados. Depois a usou para amarrar os pulsos de Isabelle sendo que
esta percebeu tardiamente que sua amante estava fora de si.
_____O que está fazendo, Ale? Vai acabar me machucando...
Alexa forçou o decote de seu belo vestido até rasga-lo
ao meio e ao se livrar dele, usou suas tiras para amarrar também
as pernas de Isabelle, abertas uma a cada pilastra do dossel.
_____Você está delirante! sussurrou Isa, afogada
em sua apreensão e excitação, enquanto Alexandra
iniciava a chupar-lhe com força o pescoço até o
sangue subir aos poros. Intercalava com mordidas e sorvidas poderosas
por todo seu corpo. Quando se acercou dos seios de Isa, esta gemeu ao
sentir a dor que provinham das fortes sugadas em seus mamilos e as mordidas
no seio. E assim transcorreram minutos intensos de prazer e dor até
por fim, Alexa a penetrou com seus longos dedos até que gozasse.
Não satisfeita de marcar todo o corpo de Isa, Alexandra ofereceu
aos lábios de sua prisioneira seu sexo úmido e almiscarado,
reiniciando a transa em um delicioso 69. Por fim, ao gozar nos lábios
de Isabelle, Alexa pareceu se acalmar e a libertou.
_____Assim você quase me mata!
_____Ainda não me saciei! Não me deixe sair por aquela
porta sem saciar todo meu desejo.
Isa entendeu o que ela queria dizer e beijou-a forte nos lábios
até que estes se tornaram tão inchados que pareciam que
verteriam sangue, enquanto suas mãos, massageavam o corpo ainda
tenso de Alexa que gemia ao seu toque e se debatia em ânsia.
Beijou seu longo e acetinado pescoço enquanto lhe fazia uma deliciosa
massagem na musculatura rija e tensa dos ombros. Aos poucos, sentiu-a
relaxar e esta passou a se debater menos. Apenas estremecia a cada carícia
recebida e apanhava a nuca de Isa com as mãos, puxando-a contra
si. Isabelle agora se acercou dos tão desejados seios de auréolas
rosa-chá de Alexa, que tinham um formato maravilhoso e cabiam
na palma de sua mão, sendo que as pontas de seus dedos podiam
lhe tocar a base. Acariciava um, enquanto sorvia o outro, a princípio
encaixando os lábios em um delicioso movimento de sucção
ao mesmo tempo em que sua língua se dedicava a percorrer o relevo
do bico túmido. Seu corpo roçava no de Ale, no vai e vem
das ondas, e esta agora lhe percorria com as mãos a lanugem dourada
suave que recobria a pele de suas costas.
Devagar, Isabelle encontrou o maravilhoso rastro que segue do umbigo
até o Delta de Vênus de Alexandra e passou a percorre-lo
com os lábios, ao que sua amante lançou seus braços
para trás e içou suas pernas aos ombros de Isa. Esta aproveitou
a oportunidade em que Alexandra se entregava totalmente e apanhou-lhe
as coxas com firmeza e encaixou os lábios no seu sexo, enquanto
seus dedos, penetravam-na suavemente e avançavam a cada espasmo.
A certo momento, sentiu aquele doce véu das virgens, que ela,
ferozmente rompeu em seu desejo de torna-la plenamente sua e por fim
introduziu-se totalmente. Alexa gritou, desesperada como um felino no
cio e lanhou com as costas de Isabelle...
______Ahhhhhhhhh!
Depois, estremeceu convulsivamente e gozou em profusão. Isa sorvia-lhe
todo néctar que emanava de seu sexo, que tinha o belo e harmônico
formato de uma orquídea.
Silêncio. Ale jazia como desmaiada. Parecia que finalmente encontrara
a paz. Isabelle voltou a se deitar ao seu lado, acariciando-a suavemente,
ouvindo-a ressonar nas profundezas do sono profundo que mergulhara ante
a intensidade do prazer que sentira.
_____Descanse meu amor! sussurrava Isa, com o coração
pleno de felicidade. Durma! Eu espero.
Apanhou o lençol carmim da cama e cobriu Ale e a si, deitando
com um braço em torno do corpo dela, como se para garantir que
esta não lhe fugiria mais, e acabou adormecendo. Não percebeu
quanto tempo dormiram mas despertou com a luz da manhã se infiltrando
pela ampla janela. Procurou por Alexa e não a encontrou ao seu
lado. O desespero lhe tomou conta.
_____Ela tornou a me abandonar! concluiu amargurada, mas por
um breve momento, pois Alexandra entrou no quarto, vestida com um roupão,
tendo os cabelos molhados e trazendo consigo uma bandeja com frutas,
iogurte e fartas fatias de pão. Em seu rosto uma expressão
totalmente nova. Havia ali uma mulher com o rosto sereno e os olhos
fulgurantes de paixão. Colocou a bandeja na mesinha de cabeceira
e sentou-se na cama ao lado de Isa, que a olhava surpresa.
_____Por um breve momento, pensei que havia me abandonado! confessou
Isa.
_____Não minha querida...Eu a amo e agora sei o quanto errei
com você. Fiquei acordada por toda a noite ao seu lado, apenas
para vê-la respirar e sorrir enquanto sonhavas. Eu poderia velar
seu sono por toda a vida, envolvida nesse doce e intenso momento pois
não quero mais perder nem mais um instante. Não posso
mais fechar os olhos ou dormir porque estaria deixando a vida passar
por nós e eu não quero perder nada, nem um segundo, porque
por mais que eu adormeça e sonhe que estou ao seu lado, isso
não é mais o suficiente. Quero sentir o pulsar de seu
coração junto ao meu, quero tê-la ressonando em
sono profundo ao meu lado, sonhando com meus beijos e com o amor que
fizemos, portanto, durma meu amor, que estarei ao seu lado velando-lhe
o sono, pois não quero perder mais nada, nem um instante nem
um átomo de vida que possamos compartilhar juntas.
--------------------------------->FIM<----------------------------------
|