"Pour Elle"- parte 3

O CANTO DA SEDUÇÃO

 

 

Isabelle saiu do banho com a pele enrugada de tanto que ficou emersa na banheira de pedra no banheiro de seu novo quarto. Tentava se recompor. Estava sentindo o desespero se avizinhando e não sabia que atitude tomar. Sabia que a partir do que fizera naquela tarde, tudo o mais poderia lhe acontecer. Colocou um vestido estilo indiano muito confortável e vestiu uma macia sandália de couro com correias que lhe amarravam nas pernas. Caminhou preguiçosamente pelo corredor de pedra e foi até o refeitório mais próximo se alimentar. Teve sorte porque os outros empregados não estavam por ali e ela pode se servir com tranqüilidade. Tinha o semblante melancólico e a mágoa da tarde lhe ardia no peito, como se tivesse sido atingida por uma lança cruel.

Foi cautelosamente até a sala do piano da Ala residencial. Começou a dedilhar distraidamente algumas músicas populares que gostava. Tocou “Adia”. Tinha um CD da cantora Sarah Mclachlan. Apreciava tanto aquela música e buscava nela extravasar sua dor. Cantarolou baixinho:



Adia
(Adia)

Adia I do believe I failed you
(Adia, eu acredito que falhei com você)

Adia I know I let you down
(Adia, eu sei que te decepcionei)

Don't you know I tried so hard
(Você não sabe que eu tentei tanto)

To love you in my way
(Te amar do meu jeito)

It's easy let it go...
(É fácil, basta tentar)


Adia I'm empty
(Adia, eu estou me sentindo vazia)

Since you left me
(Desde que você me deixou)

Trying to find a way to carry on
(Tentando achar uma maneira de continuar)

I search myself and everyone
(Eu procuro em mim mesmo e em todos)

To see where we went wrong
(Para ver onde nós erramos)


'Cause there's no one left to finger
(Pois não restou ninguém para que eu aponte meu dedo)

There's no one here to blame
(Não há ninguém aqui para culpar)

There's no one left to talk to honey
(Não restou ninguém para conversar, minha querida)

And there ain't no one to buy our innocence
(E não há ninguém para comprar nossa inocência)

'Cause we are born innocent
(Porque nós nascemos inocentes)

Believe me Adia, we are still innocent
(Acredite em mim, Adia, ainda somos inocentes)

It's easy, we all falter
(É fácil, todos erramos)

Does it matter?
(Será que isso importa?)


Adia I thought we could make it
(Adia, eu pensei que nós conseguiríamos)

But I know I can't change
(Mas eu sei que não posso mudar)

The way you feel
(O modo como se sente)

I leave you with your misery
(Eu deixo você com seu sofrimento)

A friend who won't betray
(Um amigo que não trairá)

I pull you from your tower
(Eu tiro você da sua torre,)

I take away your pain
(Eu faço sua dor parar)

And show you all the beauty you possess
(E lhe mostro toda a beleza que você possui)

If you'd only let yourself believe that
(Se você apenas se permitir acreditar que)

We are born innocent
(Nós nascemos inocentes)

Believe me Adia, we are still innocent
(Acredite em mim, Adia, nós ainda somos inocentes)

Alguém entrou na sala. O coração de Isabelle disparou e ela parou de tocar.

____Por favor, continue tocando! – pediu Eduardo.

____Não ! tenho que sair! Preciso descansar amanhã tenho algumas tarefas atrasadas para resolver...

____Não antes de me ouvir!

____O que tem a me dizer?

____Eu te quero, Isa!!

____Não! Você está enganado! Você gosta de Tânia...

____Eu tentei! Depois que mamãe morreu eu tentei te esquecer Isa. Sei de tudo. Mas também sei que “ela” te rejeita. Posso te fazer feliz Isa. Podemos ter filhos. Podes ter tudo que quiser. Terá um futuro grandioso. Seu talento será reconhecido no mundo...

Isabelle abaixou a cabeça. Lágrimas escorriam de sua face. Estava se sentindo perdida, sem saída. Breve Alexa providenciaria para que ela fosse desligada da Quinta. Breve estaria novamente só, sem esperança para seu futuro e com seu sonho de se tornar uma grande pianista, perdido para sempre...

Eduardo acariciou-lhe os cabelos e pediu:

____Toque “Love of My Life”, conhece?

____Sim! Uma música linda. Gosto da versão do Fred Mercury, mas ainda não aprendi a toca-la... – respondeu Isabelle, envergonhada pelas lágrimas que teimavam a lhe escorrer pela face.

____Deixe que eu mostre os acordes!

Isa levantou-se do piano e Eduardo sentou-se e começou a dedilhar os acordes.

____Veja! É muito simples...

Isabelle ouvia quieta.

Eduardo percebeu que lhe prendera a atenção e quando ela menos esperava ele passou a cantar a melodia em uma voz de tenor muito bela e sedutora.

Isabelle lembrou-se do que Tânia lhe dissera sobre a sedução do canto de Eduardo e percebeu tarde o intento do moço.

____Ele está tentando me seduzir! – pensou . Fez menção de sair, mas o moço se adiantou e a apanhou forte nos braços...

____Case-se comigo, Isa...

A porta da sala que estava semi-aberta, escancarou-se. Alexa entrou transtornada e flagrou Isabelle nos braços de Eduardo.

_____Traidores!!!

_____Não, Alexa! Você não entende! – Eduardo quis aplacar a fúria da irmã.

_____Eu ouvi tudo, não negue! Você cantou para ela...

Isa percebeu que a ira de Alexa estava centrada no irmão e avançou para a moça, tentando segura-la...

_____Saia da minha frente! Sua vadia... Você também é uma mentirosa...
Alexa empurrou Isabelle com tanta força que esta caiu no tapete. Então passou a atacar o irmão. Batia com um chicote que tinha na mão e Eduardo esquivava quanto podia, mas já recebera vários golpes.
Os objetos, que não eram poucos na sala, eram jogados para o ar, para os lados e em Eduardo. Alexa parecia a tormenta em seu furor...

Isabelle pensou em tentar apartar os irmãos, mas duas mãos enormes e fortes a levantaram no ar como uma boneca e a retiraram da sala. Era Jonas, o enorme carregador de Alexa e serviçal da Quinta. Quinho estava por perto. Decerto ouvira o barulho medonho da sala sendo destruída e correra chamar ajuda.

_____É melhor ficar fora da sala, senhorita Isabelle! - disse o gigante, gentilmente.____A coisa tá feia e eu e Tonhão vamos ter que nos virar pra segurar dona Alexa.

Tonhão era o outro empregado que agora, juntamente com Jonas entravam na sala. A quebradeira continuou e Isabelle ouvia agoniada os gritos de Alexa. De repente, silêncio e a porta torna a abrir-se de supetão, sendo que por ela sai a herdeira de Além Tejo, correndo enlouquecida.

_____Vai atrás dela Jonas! – pediu Eduardo, que estava com o corpo cheio de vergalhões, os cabelos em desalinho e o rosto arranhado. Seus óculos estavam quebrados e sua roupa rasgada.

_____Está fora de si! Temo que faça alguma bobagem. Lastimou-se o rapaz. ____Imagine ! atacar a mim? Seu único irmão?

Isabelle correu para seu quarto. Queria mudar de roupa para também sair à procura de Alexa na noite. No quarto, sobre sua cama, um envelope. Seu coração gelou. Tinha a caligrafia de Alexa. Abriu e leu:


“Vim para conversarmos. Não a encontrei. Pode me perdoar? Precisamos nos encontrar Isa. Precisamos nos falar... Eu preciso de você...Pode me livrar da dor?”

Alexandra.

O coração de Isabelle quase parou e em desespero chegou à triste conclusão:

_____Eu a perdi!


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Capítulo 7: SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESSA VIDA...
(por LARA DE LUNNA , adicionado em 6 de Junho de 2002)

(*nota da autora: Alexa se pronuncia – Aléquissa, ou Alékssa, por fim: Alekssandra)


Os três cavaleiros, desciam cuidadosamente as trilhas na serra. Era noite de lua cheia, mas a vegetação ocultava armadilhas. Utilizavam-se de lanternas e lampiões. Isa estava vestida com seu grande capote pantaneiro que lhe protegia totalmente o corpo do sereno noturno e do frio que a neblina trazia consigo. Na cabeça, seu companheiro, o velho chapéu de couro de abas largas. Jonas aceitara que ela os acompanhasse muito à contragosto.

_____Isto aqui não é o pantanal , senhorita Isa! Isto aqui é serra e serra tem lá suas peculiaridades. De um lado parede, do outro abismo...

_____Vim preparada! Trouxe bússola e um mapa, além de uma mochila de sobrevivência...

_____Tudo bem! Mas hoje mesmo tive que soltar dona Alexandra de uma armadilha de caçador. Parecia um coelho raivoso! Imagine que um caçador armou a tal armadilha bem na trilha da Pedra Lascada? Que imprudência e irresponsabilidade...

_____É?

_____Agora veja só! Dona Alexandra some na mata em noite de assombração...

_____Assombração?

_____Sim ! noite de Lobisomem...

_____Ah!

Isabelle que crescera ouvindo estórias dos peões no pantanal, não se surpreendeu da cisma de Jonas. Aliás, não acreditava nestas criaturas da noite e se acreditasse, naquele momento pouco lhe importava. Alexa estava naquelas matas e ela tinha que encontra-la.

Em certo momento, a trilha se bifurcou.

_____Vou por aqui! Conheço bem estas bandas... Vocês vão por lá. Temos que nos separar. – Sugeriu Tonhão.

_____Tudo bem! – assentiu Jonas.

A trilha que Isa e Jonas tomaram começou a se enveredar serra abaixo. Em certos lugares, tiveram que apear e continuar a pé, puxando as montarias. Novamente outra bifurcação. Jonas coçou a cabeça, preocupado. Isa adiantou-se:

_____Vou por esta! Você segue aquela.

_____Não posso permitir isso!

_____É a saúde de sua patroa que está em jogo! Ela saiu transtornada da Quinta! Não deve estar com equipamento algum e muito menos agasalhada...

_____Mas...

_____Olha aqui! Seria muita burrice descermos os dois juntos por uma trilha. E se ela tiver seguido a outra? Tenho aqui comigo agasalhos e provisões para três dias... Se me perder, espero amanhecer e sigo a bússola...sou experiente nisso...

_____tudo bem moça! Só espero não me arrepender por isso...

_____Não se arrependerá!

Isabelle desceu sua trilha, com o coração opresso. Temia pela vida de Alexa. Se tivesse que dormir por ali, teria que fazer uma fogueira para espantar os animais selvagens...

Certo momento, porém ela ouve o vento lhe trazendo vozes sussurradas.
_____Estou perto de algo!

Aproximou-se mais e do ponto elevado onde estava, pôde vislumbrar luzes de lampiões no vale abaixo. Pessoas caminhavam para um ponto qualquer oculto pelo arvoredo. Ela só podia ver as luzes e vultos como de minúsculas formigas.

Desceu o mais rápido e cautelosamente quanto pode e aproximou-se, ocultando-se.

Amarrou o cavalo por perto e observou o grupo. Eram pessoas vestidas com enormes capas escarlates ou negras. Na mente de Isa, sobreveio tudo que Tânia lhe dissera de certas orgias secretas. Pensou em sair dali e ir ajudar Jonas na outra trilha, mas seu instinto lhe dizia para averiguar melhor. Como seu longo capote negro lhe emprestava aspecto semelhante aos convivas, aproveitou para se aproximar mais e mais.

Deparou-se com uma clareira toda calçada de pedras e com pilares circundando-a.

_____O Templo de Afrodite! – exclamou baixo.

Uma pessoa passou por ela na escuridão e deu-lhe uma máscara.

_____Use! Garoto! É a regra. Ninguém entra no Templo sem a máscara.

_____Ele me confundiu com um garoto! – pensou Isa, encaixando no rosto uma vistosa e colorida máscara. Retirou o chapéu e entrou cautelosamente. O que viu a fez estacar. Por todos os lados, uma profusão de corpos desnudos debaixo das capas, se amando de todas as formas possíveis na natureza. Tudo era permitido e corpos masculinos e femininos se encaixavam por todos os lados. Isa sentiu a excitação borbulhar em sua garganta, qual champanhe espumante. Não conseguia tirar os olhos daquela cena totalmente nova e carnal. Porém, a um canto, em um banco de pedra, uma criatura vestida de escarlate jazia como se adormecida. Isa sabia que eram mulheres as que se vestiam de escarlate e percebeu a aproximação de um mascarado de elevadíssima estatura, com sua capa negra. Este sentou-se ao lado da mulher de escarlate e começou de forma suave a lhe abrir as vestes. Isa aproximou-se e viu quando o mascarado lhe desnudou os seios e passou a toca-los de forma lasciva. As auréolas eram rosa-chá e Isabelle reconheceu o corpo de Alexa. Isso a enlouqueceu.

____O que Alexa pretendia? Queria se entregar ao mascarado desconhecido?

_____Não toque nela! - gritou.

O enorme mascarado levantou-se e empurrou Isa.

_____O que é fedelho? Você a quer? Poderá tê-la, depois que eu me satisfazer...

Alexa pareceu despertar de seu torpor e fechou seu roupão e a capa.
O mascarado voltou-se para ela e falou:

______Vamos minha Dama! Não deixe que este moleque imbecil nos atrapalhe...

Dizendo isso, aproximou-se para retirar totalmente a roupa de Alexa. Esta levantou-se e tentou sair dali, ao que foi impedida pelo marmanjo que a apanhou pelo pulso.

_____Quem veio na chuva é pra se molhar e eu não vou te largar até ter o que quero...

O sangue subiu na cabeça de Isabelle e ela pulou no pescoço do mascarado. O tamanho dos dois era tão desproporcional que quem presenciasse o embate, acharia que um cãozinho Chiuaua atacava um Dog Alemão.

O grandão, girou o corpo várias vezes e Isa não lhe largou. Estava iniciada a balbúrdia pois, logo, focos e focos de brigas foram se formando e ninguém mais sabia quem batia em quem. As mulheres separaram-se a um canto e os homens se socavam e distribuíam pancadas por todos os lados. Isa, que fora confundida com um rapaz, fora jogada ao chão e quanto mais tentava se levantar, mais recebia golpes. A certo momento, ela, já com os dois olhos inchados, percebeu que o grandalhão havia apanhado Alexa e esta se debatia , tentando se livrar.

Isa apanhou um pedaço de lenha que encontrou perto e baixou na costa do bruto, que furioso, lançou Alexa como uma boneca para um lado e voltou-se contra sua agressora. Iria massacra-la.

Repentinamente, dois tiros ecoaram no vale e o povo começou a correr e a fugir. Isa estava tentando manter-se em pé. Tinha o corpo todo moído. Procurava por alexa e o local, iluminado apenas por lampiões, dificultava sua busca. Não se importava mais, se seria flagrada ali ou quem atirara.

Tateava o chão em desespero, até que encontrou uma mão macia e acetinada. Puxou o corpo morno contra si e viu que sua amada estava desmaiada. Seus cabelos claros, agora eram de um vermelho vivo.

_____Sangue!

Um vulto enorme aproximou-se.

_____Temos que leva-la urgente daqui!

Isa reconheceu aliviada a voz de Jonas.

_____Acho que bateu a cabeça em uma pedra! – gaguejou, Isabelle.

Sentia-se desfalecer da dor física e da angústia, mas tinha que resistir.
Jonas levantou o corpo de sua patroa, como se apanhasse uma criança ao colo.

_____Ainda bem que atirei para cima! Mais um pouco e dariam cabo de você. Animais no cio são perigosos!____ Temos que tira-la urgente do vale. Ela ainda respira. Talvez haja tempo de socorre-la...


>>>>>>>>>>>>QUEM VENCERÁ? O EROS OU THANATUS ?<<<<<<<<


Isa estava deitada de bruços em sua cama, semi afogada em suas lágrimas. Desde que saíram do vale não parara de chorar. O dia amanheceu e ela não se animava a se mover, com medo de que alguma má notícia descobrisse seu esconderijo.

Quinho entrou no quarto como um rojão.

_____Dona Isa, Dona Isa!

Isabelle sentiu-se desfalecer.

_____Vão traze-la do hospital!!! O doutor disse que ela pode ficar na Quinta para se recuperar...

Isabelle levantou-se de um salto e beijou as duas bochechas de Quinho!

______Meu Anjo adorado! Que bom que você me deu esta notícia. Já estava me consumindo de tanta angústia...

_____Acho mesmo que a senhorita precisa é se cuidar! Está um bagaço só!

_____Ô moleque desbocado! Eu te chamo de anjo e você me diz que sou um bagaço?

_____Desculpe! Senhorita Isa, mas já se olhou no espelho?


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>O PANDA<<<<<<<<<<<<<<<<<<


Isabelle convenceu Norayeva a deixa-la ser uma das moças que cuidariam de Alexa em sua convalescença. Esta ainda estava imersa em semi-inconsciência e passava boa parte do dia e da noite adormecida. Isa descobriu com tristeza que Alexa não mais a reconhecia. Dr. Ernesto explicou que a moça bloqueara dentro de si algumas personagens e estava com amnésia parcial. Porém acreditava que com o tempo, tudo entraria em seus eixos.

_____Ela não se lembra da mãe e nem de você, entre outros eventos ! – avisou, Norayeva.____Não tente forçá-la a se lembrar de nada!

Certa manhã, quando Isa, ajudava Alexa a se alimentar na cama, a moça para e a olha atentamente.

_____Será que ela está me reconhecendo?- pensou Isa.

_____Você é um Panda Gigante? – balbuciou Alexa, que não articulava uma palavra desde o acidente.

_____O que?

_____Panda! Aquele urso que come broto de bambu...

_____Ora! – exclamou Isabelle desapontada, lembrando-se de seus dois olhos que estavam roxos, o que provavelmente aguçou o espírito zombeteiro de Alexa.

_____Pandas não gostam de sexo! – continuou a convalescente.

_____É? Mas eu gosto!

_____Mesmo? Você é casada? Tem namorado?

_____Não!

_____Ah! Bom! Mas, Pandas estão em extinção. Não gostam de sexo...

_____Não sou uma Panda...

_____Mas se parece com um com estes olhos escuros aí. Tem que botar um bife de cada lado. Ajuda a clarear...

_____Beleza! Agora deu de teimar?

Um rebuliço se formou no quarto. A outra moça que ajudava com Alexa saiu correndo no corredor.

_____Dona Norayeva! Seu Eduardo! A senhorita Alexa está conversando! Eu ouvi ela conversando... – gritava a moça. Logo o quarto estava cheio de gente e Norayeva apanhou as mãos de Alexa e pediu:

_____Fale comigo, minha querida! Diz alguma coisa...

_____Oi, Nora! Tudo bem? Você não acha que aquela moça
ali se parece com um Panda?





Dia a dia, Alexa recuperava sua saúde e Doutor Ernesto estava otimista.

Viera retirar os pontos da cabeça de sua paciente.

_____Ela é forte! Está se recuperando muito bem fisicamente!

_____E mentalmente, Doutor? – quis saber Nora.

_____Bom! Aí, só com o tempo. Ela ainda está meio confusa e tem a Amnésia. A pancada na cabeça foi forte. Mas estou otimista. O tempo saneará todas as feridas...

_____Ela está diferente! Doutor. Está mais alegre e bem humorada...

_____Deve ser porque, bloqueou dentro de si o que lhe causava angústia, mágoa e dor. Mas aos poucos encontrará seu caminho!


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>MON AMIS<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<


Isa, agora passara a dormir em um quarto de hospedes há metros do de Alexa e toda noite era uma agonia vê-la dormir e desejar estar ali com ela, abraçando-a e beijando-a.

Naquela noite perfumada, não era diferente. Sua janela estava aberta e no ar recendia o perfume das flores das árvores próximas. Isa levantou-se e foi buscar um copo de água. O corredor estava escuro. Quando voltou, ao passar pela porta do quarto de Alexa, ouviu gemidos. Tornou a entrar em seu quarto com o coração apertado. Bebeu a água de uma virada só e saiu pela janela vestida somente com seu pijama. Era um lugar muito alto. Abaixo uma queda mortal e ela pensou que enlouquecera, mas não desviou seu coração de seu intento.

Foi caminhando cautelosamente, agarrada na amurada, contanto as janelas. Encontrou a que pensava ser a de Alexa e a empurrou com cuidado. Abriu-se. Entrou silenciosamente e pode ver que sua amada gemia e se contorcia na cama. Estava tendo um pesadelo. Isa entrou cuidosamente debaixo dos lençóis e abraçou Alexa, que se aninhou em seus braços.

_____Vamos minha querida! É só um sonho ruim...

Alexa parou de se debater e passou a ressonar profundamente nos braços de Isabelle. Esta por sua vez, sentia-se incendiar de desejo contido ao sentir o toque e o perfume do corpo de seu amor. Controlou-se. Agora era para ela uma desconhecida. Apenas mais uma das moças que cuidavam da doente. Contentou-se em tê-la em seus braços e assim ficou quase até o raiar do dia, quando voltou sorrateiramente ao seu quarto. Não conseguira piscar o olho mas estava feliz e assim passou a visitar e a se deitar com Alexa, todas as noites daquela semana, até que descuidou-se e dormiu. Quando acordou, encontrou Alexa desperta, ainda aninhada em seus braços, mas olhando-a com seus enormes olhos cinzas.

______Então é você o anjo bom que vem me livrar dos meus pesadelos? – perguntou baixinho.

Isa assustou-se e descolou seu corpo do de Alexa. Esta riu suavemente. Ah como era lindo aquele sorriso, pensou Isabelle, inebriada por ter tido a oportunidade de presencia-lo.

______Não se afaste! Gosto de te-la por perto!

______Preciso ir, ainda tenho que cuidar de algumas coisas!

______Virá novamente na próxima noite?

______Não! Acho que você já está se recuperando bem!

______Mas tenho muitos pesadelos, mon amis...

______Eu não posso! Nora não aprovaria!

______Será um segredo nosso!

______tudo bem! Segredo, está bom assim?


______Sim !

______O que significa mon amis? (* pronunciasse “monamí”) - quis saber Isa.

______”minha amiga” em francês. Você será minha amiga a partir de hoje. Tudo bem?

______Tá... tudo bem!

______E como boas amigas, até já temos segredos...

______É, boas amigas! – repetiu Isa, desconcertada e saiu do quarto rapidamente.

Duas noites depois, Norayeva quase as flagra nos braços uma da outra. A velha governanta aproximou-se no corredor com seus passos pesados e Isabelle que nem vira o dia amanhecer, rolou da cama para o chão e se arrastou para baixo do móvel. Alexa apenas ria.

_______Bom dia, minha menina! Espero que esteja disposta hoje! Temos que dar uma volta e você tem que aproveitar e fazer um pouco de exercício, tomar ar puro!

______Tubo bem! Nora!

______Está rindo minha princesa? – disse Norayeva comovida!

______Sim! Tenho dormido nos braços de um anjo...

______Venha, levante-se quero lhe mostrar muitas coisas. Comprei alguns livros novos para você...

Isa esperou que ambas saíssem do quarto e se esgueirou pelo corredor.

Em seu quarto, refez-se do susto e resolveu encerrar suas visitas noturnas à Alexa.



A semana transcorreu sem novidades além de que a jovem Alexandra parecia recuperada totalmente e era outra pessoa. Muito quieta e séria, porém sem qualquer traço da antiga agressividade.

Isabelle voltou a cuidar dos livros da Helicon e agora, presenciava Alexa em suas horas de leitura. Descobrira que a jovem Além Tejo era muito culta e lia e escrevia em vários idiomas, daí o hábito de selecionar frases e poemas e traduzi-los.

Isa por sua vez, dedicava-se com paixão aos seus estudos ao piano, porém, voltou-se a colecionar poemas e transcreve-los em sua letra e “esquece-los” na biblioteca. Tânia andava meio afastada. Ela e Eduardo continuavam namorando mas agora havia um certo embaraço entre as duas e a paulista deixara de freqüentar a biblioteca do ninho.

Uma tarde, Isa cuidava de organizar um pilha de livro, quando ouviu a voz de Alexa.

_____Bonito poema! Muito inspirado!

A pele do rosto de Isabelle pegou fogo. Alexa aproximou-se.

_____Mon Amis não me faz mais companhia nas noites?

_____Você não precisa mais! Já deixou de ter pesadelos...

_____Às vezes tenho!

_____Não posso me arriscar!

A conversa estancou por aí, até que Alexa tornou a falar. Agora lia o poema que Isabelle deixara na mesa.


EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa


_____sabe que este poema tem um significado profundo? – perguntou Alexa.

_____Sim! Penso que significa a importância vital do auto conhecimento! Que talvez vivamos para vencer obstáculos, dia a dia, até encontramos nosso verdadeiro eu...

Alexandra arqueou as sobrancelhas, admirada. Depois sorriu suavemente, sem deixar de fitar Isa, profundamente.

_____Percebo que além de atraente, é uma jovem inteligente. Uma mistura em plena ebulição e muito perigosa. Pobre do homem que se apaixonar por você. Pobre de Eduardo...

Isabelle empalideceu. Então Alexa sabia sobre ela e Eduardo.

_____Não é preciso muita argúcia para perceber que meu irmão a quer.

Isa continuou silenciosa e suas mãos tremiam enquanto tentava classificar um livro na estante. Alexa aproximou-se dela e abriu mais seus belos olhos cinzas. Parecia intrigada mas por fim, para alívio de Isa, retornou ao assunto anterior.

_____Aprecio muito poemas e poesias. São como gotas de paixão e orvalho da alma de quem escreve, reavivando dentro de nós os sentimentos ocultos ou mesmo adormecidos...

_____Se gosta tanto, posso coletar alguns para ti. Também amo poema e poesias, além da música e seria maravilhoso poder compartilhar com alguém que...

Isa calou-se abruptamente. Novamente corria o risco de se trair. Alexa tocou-lhe o ombro desnudo, suavemente, sorrindo timidamente.

_____tudo bem! Mon Amis.


E assim, a partir daquele dia, a amizade entre as duas foi se estreitando e Isabelle sentia que dia a dia Alexa a admirava mais e havia algo entre elas que fazia a atmosfera ficar densa, quase tangível. Havia um clima de magia e pela primeira vez, Isa percebeu que Alexa bebia suas palavras com tanta intensidade e sofreguidão pois reconhecera nela uma parceira à altura com quem compartilhar sua paixão pela literatura, música e artes. Eram como almas gêmeas que finalmente se reconheciam.

Em algumas tardes prazerosas, Isa aproveitava a oportunidade singular de ter Alexa tão próxima e em sintonia consigo, para contar à jovem seus causos pantaneiros, o que esta muito apreciava e a incentivava.

_____Conte mais! - sorria, mostrando suas duas covinhas graciosas.

Isa sentia-se desfalecer quando a via sorrir timidamente, mas por fim controlava-se e dotada de coragem, passava a narrar outra estória. Ao fim de certa narrativa, Alexa tocou-a suavemente nas mãos e perguntou com a fronte baixa, deixando sua franja ocultar parcialmente os olhos.

_____O que fará, depois que se formar?

_____Pretendo participar de uma orquestra, dar concertos e aulas. Quero viver pela música e da música...

_____É um terreno árido...!

_____Mas ainda assim, poderei viver com dignidade, mesmo sem ter muito dinheiro, porém estarei fazendo o que tenho paixão e cumprindo meu destino, como o destino do rio que é o mar...

Alexa levantou-se de onde estava e aproximou-se da lareira, ficando de costas para Isa, como se em profunda meditação sobre tudo que ela dissera. Momento depois, rompe o silêncio.

_____E por falar em paixão, observei que não há nenhum moço por perto. Você não tem namorado ou mesmo, se interessa por algum rapaz?

_____Não! Eu me dedico exclusivamente ao meu estudo. – respondeu Isabelle.

_____Mas, é uma moça jovem e... bonita. Deve ter algum moço interessado. Um rapaz em especial...

_____Se tem, nem vi! – argumentou Isa, fingindo despreocupação e tentando antecipar a finalidade pela qual Alexa insistia naquele assunto.

Alexa voltou-se e sorriu. Novamente o coração de Isa encheu-se de paixão e desejo, por isso resolveu aproveitar a oportunidade e a abertura que entrevia:

_____E você? – sua voz soava estranha, meio ofegante e ansiosa.

_____Bom! Eu recebi algumas cartas de certo primo distante que mora em Portugal. Tem vinte e tantos anos.É ruivo como mamãe. Mandou uma foto.

_____É bonito?

_____Sim! É bem bonito...

_____Mesmo? – o ciúme invadia o peito de Isa e a sufocava. Alexandra continuava a falar, aparentemente alheia ao turbilhão de sentimentos que provocava.

_____Sim! Este primo diz que quer me conhecer e saber se sou mesmo a “deusa” que descrevem nas terras do Além Tejo e Trás os Montes. Aliás, “deusa” é a expressão que ele usou. Diz que já me ama sem me conhecer. Que é algo como almas se reconhecendo...

_____Surpreendente ! Tem muita lábia, este moço! – comentou ferinamente, Isabelle, com o rosto avermelhado.

Alexa pareceu curiosa diante do seu rubor, mas isso não a impediu de continuar.

_____Virá por esses dias. Nora vai promover um jantar à luz de velas para nós. Ele vai me pedir em namoro...

_____É mesmo? Aposto que o nome dele é Manoel... Manoel o conquistador. Ou mesmo Joaquim, a alma gêmea desgarrada em busca da mulher prometida...

_____É impressão minha ou alguma coisa que contei te aborreceu? Está estranhamente sarcástica, irônica até.

Isabelle, conhecendo que alcançara o limite de sua resistência naquele momento, fechou o livro que tinha no colo e saiu da biblioteca raivosa, deixando atrás de si, Alexa, surpresa com sua atitude.

Uma semana se passou e Isa evitava ao máximo Alexa. Tentava se concentrar em seu trabalho e seus estudos pois agora sabia que existia uma ameaça em franca aproximação e tentava desesperadamente escudar sua alma sensível da ferida mortal de ter suas esperanças de futuro com Ale, lançadas por terra pelo tal pretendente. Não conseguia pensar no que fazer até o dia do tal almoço. Sabia que tal evento seria o divisor de águas e ela poderia perder definitivamente Ale e nada que fizesse surtiria qualquer efeito. O que a acalentava porém era a possibilidade, mesmo ínfima de que Alexandra rejeitasse o moço como fizera com muitos outros rapazes em sua vida.

______Mas é apenas uma possibilidade e eu não posso me iludir. Tenho que encarar a realidade! Se contar a ela tudo que passamos em nome do desejo e da paixão, lembrará também de sua mágoa e dor, rejeitando-me por fim, como sempre fez... Se ficar esperando um desfecho miraculoso, corro o risco de perde-la para sempre. A verdade é que não tenho saída e nem vejo um caminho que me leve até o coração do meu amor...

Anoitecia e Isabelle não conseguia dormir. Estava em transe e o torpor de seu medo e angústia a fez levantar-se da cama e caminhar como sempre na escuridão. Naquela noite em especial, foi até a biblioteca. Lá acendeu algumas luzes, de forma que a sala ficasse parcialmente iluminada e sentou-se, contemplando o retrato de Lara.

_____Eu tentei, Lara! Eu tentei... estou desesperada! Sinto que a cada dia estou perto de perde-la e nada consigo fazer além de me lamentar...
Enquanto falava, soluçava e ao observar os expressivos olhos verdes do retrato, tinha a ilusão que ela a compreendia, pois também provara a perda de um grande amor...

Não percebeu quanto tempo ficou ali, conversando desconexamente com a imagem de Lara, até que sentiu um perfume tão conhecido seu. O perfume de Alexa. A princípio pensou ser uma peça de sua imaginação, até que ouvia sua voz.

_____Está me evitando? Belle?

Isa estremeceu ao ouvir como ela agora a chamava e tentou se recompor.

_____Não ! Não! É, é que tenho tido muita coisa para organizar, cuidar...

_____E por isso, Mon amis me deixou de lado e em segundo plano? Pensei que nossa amizade significasse alguma coisa para você...

_____E significa muito! Eu nunca te relegaria a segundo plano. Estou sendo sincera...É que não tenho outra alternativa. Estou fazendo o que acho melhor, mais razoável. Não me interprete mal. Penso em você a todo instante...

Isa baixou o rosto. Havia se descontrolado e se revelara.

O rosto de Alexa ficou com uma expressão inescrutável e por mais alguns minutos permaneceram ali, próximas sem se falarem.

_____Ela foi uma mulher muito linda! – observou, Alexa, sobre o retrato de Lara, a título de mudança de conversa._____Não consigo me lembrar dela. O acidente que sofri a apagou de minhas lembranças...

_____Mas um dia se lembrará, eu sei!

_____Espero esse dia chegar e que seja em breve. Quando vejo o retrato de Lara, sinto uma certa ânsia, como se algo oculto dentro de mim, e do qual não me lembro palpitasse dolorosamente. Já procurei saber com Nora ou Eduardo, algo mais sobre tudo que me ocorreu antes do acidente, mas eles misteriosamente se mantêm calados. Dizem, como você agora que um dia me lembrarei de tudo e o que mais me intriga é o fato de ter me esquecido dela e de você...

_____Mistérios da psique humana! – argumentou Isa, a título de despiste.

_____Sim! E é por isso que eu insisto em pensar que de certa forma você já significou muito para mim aqui na Quinta, do contrário também não a baniria de minha memória...

Isa sorriu melancolicamente.

_____Talvez, Ale. Talvez...

_____Não vai me contar também?

_____Não! Tenho convicção de que em breve se lembrará e como recomendações médicas são para serem observadas, nada direi que possa prejudicar sua recuperação plena.

Dizendo isso, Isa tocou Alexa um pouco acima da nuca, exatamente no local onde esta se ferira, ao que esta gemeu e movendo graciosamente o pescoço, aninhou a cabeça na palma da mão de Isa. Estava agora de olhos fechados como se meditasse profundamente.

_____Ainda dói? – quis saber Isabelle preocupada com o gesto de Alexa. Esta sorriu e tornou a abrir os belos olhos.

_____Não, apenas estava perdida em pensamentos efervescentes...

Silêncio embaraçoso entre as duas.

Novamente, Alexandra o rompe.

_____Me esclarece uma coisa, Mon amis, você que é uma garota experiente, como é beijar e tocar alguém... Assim, de forma, digamos...

_____De forma sensual?

_____Isso mesmo! – confirmou Alexandra, com o rosto avermelhado.

_____Nem sou tão experiente assim. Aliás tenho uma mínima experiência pois me relacionei com alguém uma única vez e de forma muito breve...

Alexa sentou-se muito próxima de Isabelle, tanto que esta podia ouvir sua respiração que antes suave, se tornar ligeiramente ofegante e entrecortada.

_____E você? Ale? Já se “relacionou” com alguém?

_____Não! Não que eu me lembre...

_____Então é virgem? – atacou Isa, com a garganta seca.
_____Sim!

Foi a hora de Isabelle fechar os olhos de tanto desejo de tomar aquele corpo maravilhoso que ainda não havia sido invadido ou mesmo “rompido” sob o toque e o peso de um amante. Ah se pudesse ser a primeira da vida de Alexa, poderia molda-la sensualmente ao seu modo, no seu ritmo e a faria viciar em sua seiva de mulher...

_____Você está bem?

_____Sim! Estava apenas perdida em meus pensamentos...

_____Decerto algo assim muito prazeroso pois está com uma expressão de profundo enleio...

Isa tornou a firmar-se ao chão. Lembrou do Templo de Afrodite e de como Ale oferecera seu corpo adorado para quem estivesse ali e quisesse desfruta-lo. Uma atitude totalmente irracional. Porque agira assim? O que a levou, sendo virgem a participar de uma festa pagã como aquela? Seria o fato de tê-la flagrado nos braços de Eduardo?

Alexa a retirou de seus pensamentos quando tomou uma de suas mãos.

_____Tem uma mão bonita e de dedos bem talhados. Talvez faça uma escultura delas, como Camille Claudel que apreciava muito esculpir pés e mãos...

Apesar da mudança do rumo da conversa, Isa ainda não conseguia se concentrar em outra coisa além do fato de que Ale se confessara virgem.


_____Nunca deixou os garotos se aproximarem?

Alexa arqueou a sobrancelha, intrigada pela insistência no assunto, mas ainda percorrendo a mão de Isa com seus dedos, respondeu despreocupadamente:

_____Bom, pelo que me lembro, eu os deixava aproximar sim e por fim aprontava com eles. Simplesmente os botava para correr.

_____E vai botar seu primo para correr? – emendou Isa, esperançosa.

_____Não! Desta vez não. Quero finalmente desvendar como é me “relacionar” com um rapaz. Acho que já é chegada a hora não é?

Isabelle nada disse. Apenas fechou os olhos. Estava corroída pelo ciúme e tentava em vão ocultar seus sentimentos.

_____Acho que a hora de fazer amor é por algo maior, mais intenso...A hora para o amor é quando sua alma clama pelo corpo desejado, quando não se pode pensar em manhãs fulgurantes, sem ter provado antes do vinho ou do néctar da pessoa que se quer. Somos mulheres e para uma mulher é necessário algo mais do que tesão e curiosidade ante ao que não se conhece. É necessário ouvir com a alma o “chamado”. Então conhecerá que é chegado o momento... – Isa deixou sua alma falar por si mesmo sentindo que estava sendo invasiva.

_____Mesmo? – pergunto Alexandra, novamente impressionada pela paixão e intensidade como fluíram as palavras de Isabelle.

_____Sim! Para mim é assim que flui o desejo, a paixão...

_____Foi assim para você na sua primeira vez?

_____Não! Minha primeira vez foi movida pelo desespero e pela transferência de um sentimento represado e desprezado para o corpo de outra pessoa que para mim, naquele momento representou a posse de quem mais desejei e que repudiou meu sentimento...

Silêncio embaraçoso entre as duas. Alexa voltou seu rosto para um ponto qualquer da imensa biblioteca e depois de alguns instantes, perguntou suavemente:

_____Como seria tocar o rosto de alguém que você deseja? Belle?

_____é algo muito especial.! Ale...

_____Mostre-me como você faria! Imagine que sou alguém especial e que você deseja há muito...

_____como se eu pudesse imaginar outra coisa! – pensou Isa.

_____Vamos parar com isso! Ale, não é brincadeira. É algo mágico, sagrado até...

_____Não estou brincando! Belle... Respeito o sagrado, mas, preciso saber e sinto que em você posso confiar todos meus anseios e segredos acariciados...

Os olhos cinzas de Alexa se escureceram e Isabelle percebeu que ela estava muito perturbada e isso a fez ceder fechando seus olhos e estendendo as mãos que passaram a tocar suavemente o rosto de Alexa, movendo-se de cima a baixo, contornando-lhe as linhas macias e harmoniosas. Podia sentir-lhe o aroma sensual da saliva, de sua pele e o calor fluindo e se intensificando.

______Quem você está imaginando Belle?

______Ninguém em especial...

______Está mentindo! Porque mentir para mim Belle? O que deseja ocultar?

______Apenas tento perpetuar esse momento e tê-lo comigo por todos os dias da minha vida...

______Está apaixonada! Posso sentir...

Alexa estendeu sua mão e tocou suavemente o rosto de Isa que estremeceu e abriu os olhos, dentro deles jorros de paixão e desejo.

Alexa continuou a toca-la. Tocou-lhe os lábios, sentiu sua textura firme e acetinada. Depois evoluiu suavemente para o queixo, para o aveludado da linha final dos cabelos junto às orelhas até sua nuca. Isa não conseguiu abafar um gemido premente.

______Por favor, pare!

______Você está arrepiada...-sussurrou Alexa. ____Está excitada, no cio e sou eu quem alterei a química de seu corpo... Isso é especial e como diria você, mágico até...

______Eu lhe peço... Deixe-me ir embora...

______Não! Estes momentos para mim possuem a sedução de um caminho desconhecido e nunca antes explorado e minha natureza não me deixa recuar... Faz parte de minha personalidade. Quero poder enlouquecer-te...

______Já estou me recuperando...

______Não é o que diz seu corpo. Posso senti-lo reagir ao meu toque.
Seus lábios estão intumescidos, seus olhos brilham com uma luz misteriosa, e sua respiração está em contraponto à minha... Estamos no mesmo ritmo, Isa, a sós na mesma redoma de cristal, não a rompa agora...

Alexa dizia tudo, suavemente e baixo ao ouvido de Isabelle, enquanto lhe roçava docemente o rosto com os lábios. Isa ergueu a mão e tocou-lhe suavemente o seio que já mostrava com seus bicos eriçados que também estava excitada.

______Ela me quer! Ela me deseja como antes! – pensou não suportando mais, e lançando a cabeça para trás quase desfalecendo, imaginando que o momento se aproximava , onde poderia tocar e sugar os seios de auréolas rosa-chá de sua amada, finalmente...

Alexa interrompeu a carícia e Isa percebendo a quebra daquele ritmo doce, tornou a olha-la profundamente nos olhos e percebeu ali algo da sua antiga personalidade, ao que se confirmou com um sorriso malicioso.

______Ale, o que tem? O que está pensando? – quis saber Isa, angustiada pelo desejo contido em sua vazante.

______Ora! Belle, não estamos fazendo nada errado! – disse, e Isa percebeu que a voz dela estava mais rouca do que costume.

O passo seguinte foi mais audacioso. Alexa enfiou suas belas mãos por baixo da camiseta de Isa e lhe acariciou os seios, ao que Isabelle atirou a cabeça para trás, suspirando profundamente, sendo que neste momento, sua parceira lhe acariciou o pescoço com os lábios, dando-lhe pequenos beijinhos...

Não se contendo mais, Isa conduziu Alexa até a mesa e a encostou, fazendo-a se deitar ali, com o peso de seu corpo. Depois, subiu sobre ela e enlaçou suas pernas. Nisso, beijava os lábios de Alexandra com ternura e suavidade. Tinha medo que ela fugisse. A certo momento, Alexa sorriu novamente de forma maliciosa.

_____Diga-me agora o que está pensando! - pediu Isabelle.

_____Pensei que esta nossa brincadeira sensual é tão boa e educativa, que podia praticar mais vezes com outras garotas ou rapazes, antes de firmar namoro sério com meu primo...

Isabelle desmoronou ao chão da dura realidade e o impacto a fez perder o eixo, porém tentou se recompor rapidamente e manter alguma dignidade, mesmo depois que seu sonho mágico se rompeu de forma abrupta e cruel.

_____Ah! Sim! Tudo bem! Pode “praticar” com outras garotas e rapazes. – Falou com amargura.____Aliás, aqui na Quinta tem centenas de criaturas de todas as cores, raças, biótipos. Mas pode começar com a arrumadeira, a passadeira, a copeira, porque elas estão mais próximas...

Dizendo isso, Isabelle saiu da sala, sem dar tempo de Alexa expressar qualquer movimento ou articular palavra.


>>>>>>>>>>>>>>>>>>O PRIMO<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<


Alexandra nos dias que se seguiram, ainda tentou aborda-la de todas as formas, chegando até a declarar para Nora, na biblioteca onde Isa se encontrava, despreocupadamente que estava tendo uns sonhos "ruins" e que sentia falta de seu anjo protetor que antes a consolara quando estava enferma.

Nora riu .

_____Venha querida que vou lhe ensinar uma reza muito antiga que é para conjurar o anjo guardião. Verás que suas noites serão muito melhores.

Sairam da sala.

Isabelle sorvera cada palavra de Alexa, pois sabia o real significado delas, porém estava magoada e ferida o bastante para desejar abandonar a tudo alí na Quinta e se embrenhar mundo afora. Iria apenas esperar a melhor oportunidade.

Uma tarde, Quinho passou pela biblioteca, meio que disfarçadamente e deixou sorrateiramente um envelope e uma bela orquídea recém colhida sobre a mesa. Isabelle que estava totalmente absorta em seu trabalho, como forma de aplacar sua dor, em dado momento, finalmente notou o misterioso envelope. Abriu-o e sentiu-se estremecer ao ver a letra graciosa e traçada com personalidade de Alexandra.
Começou a ler.

_____Mon Cher!
Perdoe-me! Estou confusa, não sei o que pensar sobre tudo aquilo que ocorreu naquele dia. Quero apenas que saiba que não sou a pessoa fria e insensível que pensas e que tenha saído ilesa de nossa inocente “brincadeira” sensual. Penso naqueles momentos todo segundo, toda hora, todos os dias. Sua ausência me desola e meu coração é noite sem lua ...

A.A.T.

Isabelle correu para seu quarto e leu e releu aquele bilhete, beijando-o fervorosamente enquanto lágrimas escorriam por sua face e os soluços quase lhe partiam a estrutura esguia.

______Eu tenho que ser forte para não ir me atirar aos pés dela e implorar seu amor! Ela precisa encontrar a encruzilhada e então optar: ou o primo ou a mim. Só assim saberá realmente o que deseja ou quer para si no presente e futuro...Mas...algo está me dizendo que estou perto de perde-la definitivamente!

Ah! abençoados eram aqueles dias em que quase nos matávamos em tocaias, vinganças pueris e desejos reprimidos, mas antes era apenas ela e eu. Agora há esse moço... Nunca aceitei o óbvio: nosso amor está condenado na raiz porque a amo mais agora, assim, sensível e carinhosa, mesmo sabendo que é temperamental e instável. Um dia se lembrará do nosso passado e toda sua mágoa e desprezo por mim aflorará e não sei como irei suportar isso.
Não agora ao ouvi-la constantemente me chamando de Belle e poder sorver o seu sorriso tímido, maravilhoso...

Quinho apareceu várias vezes naquele dia, com cara de quem pergunta:

“Tem algum bilhete para levar?”, mas Isa estava determinada a se fechar em copas e sublimar seu sofrimento. Precisava retirar rapidamente seu exército do país de Alexandra, antes que o ferissem de morte...

Os dias fluíram para Isabelle no acalanto de noites angustiadas e choros solitários, até que finalmente o primo estrangeiro chegou à Quinta. Isa procurava não se afastar mais da ala residencial, que agora era pouco freqüentada pois o restante do pessoal se concentrava mais nos blocos da Quinta e na Helicon. Apenas Quinho insistia em ficar saltitando ao seu lado procurando roubar-lhe um pouco da atenção.

_____Já contei sobre o Boitatá?

_____Já, Quinho...

_____Tem certeza?

_____absoluta!

_____Bom, e sobre o Boto?

Isa manteve-se em silêncio. Procurava em vão se concentrar na classificação dos livros na biblioteca mas não conseguia. Sabia que naquele dia, estaria acontecendo o tal “almoço especial” na Helicon.

_____O que a menina Isa tem? Está numa tristeza só...

_____Coisa de adulto, Quinho...

_____Ah sim! A senhorita está apaixonada...

_____O que é isso, Joaquim? Do jeito que não saio daqui, só se for paixão por estes livros ou por estas estátuas de mármore...
O menino riu. Depois falou todo maroto.

______Precisava ver a senhorita Alexandra de vestido... Está linda... Uma princesa, se é possível ser mais bonita do que já é...

Isa sentiu uma pontada de desespero. O livro em sua mão caiu.

______Deixa que eu pego! – apressou-se o menino._____Ah! Lembrei! Tenho um recado aqui da patroa. Ela quer que a senhorita vá até a Helicon participar do tal almoço. Disse que apreciaria ouvir umas músicas ao piano no fim da tarde...

______Ah! Sim! Ela não pediu! Ela mandou, não é?

______Bom! Aí eu não sei...

______Diga a ela que não vou. Estou indisposta hoje. Acho que prestes a resfriar. Além do mais, existem outros alunos na Quinta muito mais experientes e estudados do que eu.

______Tudo bem! Eu digo, mas só quando ela perguntar... Eu não sei se a patroinha vai gostar muito. - o menino coçou a cabeça, embaraçado._____Bom, tô andando.

Quando ele saiu, Isa estremeceu. Não tivera coragem de mandar entregar a Alexandra o Soneto do Vinícius de Moraes que copiara cuidadosamente na noite anterior. Abriu a folha e releu:


SONETO DO CORIFEU


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar por perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

(Vinícius de Moraes)


Lágrimas rolaram de seus olhos. Havia tomado uma dura decisão. Depois que o namoro de Alexa fosse confirmado ela pediria para deixar de trabalhar para os Além Tejos. Voltaria para seu dormitório de aluna bolsista e arranjaria algo para fazer na pequena cidade. Poderia trabalhar na pequena loja de eletrônicos e discos de Seo Olívio, pai de Godofredo, o jovem que conhecera quando ainda era uma recém-chegada.

Deixou tudo que tinha nas mãos sobre a mesa e foi tomar um banho.

Estava sendo consumida por sua tristeza e nada parecia amainar aquela sensação de que um dilúvio estava prestes a desabar sobre sua cabeça.

Dentro da sala de banho, imersa até o pescoço, ela rememorava tudo que vivera até ali e todos os encontros e desencontros que tivera com Alexandra. Tudo muito intenso, desvairado. Lembrou-se do primeiro conflito, quando ela lhe despejara um balde d’água. Depois a queda da árvore, pois vira Alexa se tocando com uma peça de roupa sua. Aí, quando finalmente descobriu-lhe o desejo, procurou-a, ofereceu seu corpo e seu amor àquela a quem chamavam “Musa de Pedra” e foi rejeitada. Fugiu, perdeu-se. Lara salvou-a e lhe deu o amor de que tanto necessitava para curar sua alma ferida e magoada. Depois tanta dor, tanta perda, Alexa ainda passou a odiá-la. Lembrou-se de sua luta recente para reconquistar-lhe o amor e o incidente perigoso no Templo de Afrodite que quase lhe rouba a vida de sua amada. Agora ali estava ela, sozinha, esquecida por Alexandra que a considerava apenas como uma boneca útil para seus caprichos de moça jovem, com sua libido em crescendo e hormônios aos jorros no corpo. Pela primeira vez, perdera a convicção de que representara para Alexa mais do que a promessa de um corpo ardente em quem se enlaçar. Queria ter tido a oportunidade de cativa-la de conquista-la como Loren fizera com Lara. Sim, porque o amor das duas transcendera o corpo, era algo de essência, de alma. Talvez o amor entre Lara e Loren tenha se iniciado com um profundo respeito e admiração pelo talento, uma da outra. Depois descobriram-se apaixonadas...

Saiu da banheira, nua e secou-se demoradamente. Sentiu vontade de invadir a Helicon, bradando para os quatro cantos o quanto amava Alexandra e que esta lhe pertencia. Mas... Ale nem ao menos se lembrava do que vivenciaram até ali .

Vestiu-se. Desta vez com um belo roupão dourado, acetinado e longo.

Precisava relaxar, se controlar e tornar a centrar sua energia no ideal que traçara quando ali chegara: Formar-se. Apanhou diversas partituras e entre elas, a que ganhara de Alexa, o “Impromptus”. Bebeu uma taça cheia do vinho que mais apreciava, o Matheus, contemplando embevecida, contra a luz aquele maravilhoso líquido tom rosa-chá, tão sensual e ao mesmo tempo suave. Carregou a garrafa e a taça consigo. Pretendia se embriagar completamente pelo menos naquele dia. O que mais poderia lhe ocorrer? Que loucuras poderia fazer em sua solidão?

Talvez correr nua pelos corredores desertos, bradando seu amor, sua dor e se isso acontecesse seria bom pois quem sabe assim extirpasse do peito a angústia que ameaçava implodí-la.

Andou solitária ouvindo o soar sincopado de seus passos, até a grande sala do piano que já estava totalmente recuperada após ter sido quase destruída por Ale. Acendeu a lareira. Sentia frio e principalmente a saudade do que nunca possuíra: os braços cálidos de Alexandra enlaçando seu corpo, aquecendo-a. Não quis almoçar. Estava sem fome.

Deitou-se em um divã e adormeceu. Acordou repentinamente, não sabia quanto tempo dormira. Recompôs seu roupão e sentou-se ao piano. Tocou algo para si mesma. Tocou músicas populares que falavam de amor, cantarolando baixinho.

Em dado momento, a porta da sala escancarou-se repentinamente. Era Alexa, trazendo Quinho arrastado pela gola da camiseta.

Estava com um vestido cor de pérola longo de decote sensual, que lhe deixava os ombros nus, todo finamente bordado, além de uma tiara de princesa, com pedras e pérolas, colar, brincos, braceletes e anéis. Enfim, parecia a Cinderela no salão de festas do palácio encantado.

Isa prendeu a respiração e continuou calada, enquanto Alexandra se aproximava com Quinho a reboque.

______Se Belle não foi até Alexa, Alexa veio até Belle!
Riu. Parecia ligeiramente “alta”, sob o efeito de algum vinho ou licor.

_____Conte para ela, Quinho! Conte para ela, maroto, como botei meu primo “chato” pra correr...

O menino estava engasgando na própria saliva.

_____Anda! Quinho! – mandou Alexa em sua conhecida autoridade arrogante. Isa percebeu que a cada dia a moça pouco a pouco recuperava sua personalidade antiga.

_____Bom! - desengasgou Joaquim.____ Dona Alexandra virou o ensopado do almoço, inteirinho no colo do rapaz... Foi um corre-corre só. E ainda, no fim, mandou-o tomar a primeira caravela para Portugal...

Ambos riram e Isa não sabia o que dizer enquanto dentro de si a alegria e esperança cresciam._____Ela não o quis! – pensou.

_____Imagine! Ele avançando a mão na minha coxa? Tratei de “esfriar” logo o moço. – continuou Alexa.

Isabelle corou de ciúmes e levantou-se do piano.

_____Ah! Não, por favor, sente-se. Gostei do que ouvimos na outra sala. Continue tocando. – pediu Alexandra.

_____E quanto a você, senhor Joaquim, é pra sair da ala e mandar o Jonas ficar de guarda. Aqui ninguém entra sem minha autorização, entendeu?

_____Sim, patroa, é pra já...

_____Então vai andando...

Isabelle não conseguia se concentrar no que tocava e Alexa aproximou-se silenciosamente sentando-se ao seu lado. O banco era grande e servia para duas pessoas, mas Ale encostou seu ombro desnudo em Isa.

_____Vamos tocar algo à quatro mãos! Eu toco um pouco piano. Não muito. Não me dedico, sabe? E Tem a escultura que enrijece os dedos...
Isa consentiu em tocarem juntas, porém, vez ou outra, errava a leitura da música, pois estava perturbada com a proximidade de Alexandra de si.

_____Ei! Garota! Você precisa se concentrar.

_____Estou tentando! – balbuciou , Isa.

Alexa parou de tocar.

_____Façamos um trato! Se você se esforçar e tocar o “Impromptu” sem erros, para cada compasso que acertar, eu te recompenso. Se errar, vou castiga-la...

_____Ora! Ale...

_____Vamos, aceite! Você poderá gostar da recompensa...

_____E qual é?

_____Um beijo na bochecha. O castigo é um puxãozinho de orelha muito suave...

_____Como pode saber se gostaria de ser beijada?

_____Ora, apenas intuição feminina! - riu Alexa, servindo a si do vinho, com a taça de Isa. Ao beber, sorvia o líquido de forma sensual, lambendo os próprios lábios, não deixando escapar nem uma gota. Enquanto assim fazia, olhava para Isa, de forma penetrante, como uma predadora preste a abater sua presa.

_____Então? Aceita? – disse, servindo-se novamente, tendo o cuidado de aproximar a taça de suas narinas para aspirar o “bouquet”.

_____você gostou do vinho!

______Gosto deste e de muitos outros vinhos portugueses. Porém, existe um, alemão que aprecio. É bem comum. Popular, eu diria, mas ainda assim o apreciso. Talvez pelo nome: liebefraumilch...

Isabelle iniciou o dedilhado de aquecimento, distraída.

______Você é a primeira pessoa que diz gostar de um vinho, também pelo nome...

______É um nome bem sugestivo. Significa “Leite da mulher amada”... Alguns traduzem como o “leite do seio da mulher amada”...

Isabelle perdeu totalmente o acorde e quase fechou a tampa do piano na própria mão.

______Está deliberadamente me provocando! Onde estou que não agarro esta fêmea? – pensou. Engoliu inúmeras vezes a seco e baixou o rosto. Estava insegura sobre como agir. Alexa tocou-lhe o queixo para levantar-lhe o rosto.

______Vamos, Belle! Toque o “Impromptu” para mim! Aceita o desafio? Estou esperando... – disse cruzando os braços no colo.

Isa tornou a abrir o piano e como resposta à Alexa, passou a tocar.Caprichou na interpretação.

______Ora! Falta um pouco mais de paixão! – desafiou Alexandra.______Assim não poderei entregar a ti, no fim do curso o anel de Euterpe...

______Verás então! – riu-se Isa, retirando de seus dedos todos os anéis e retornando à interpretação com a fúria de todo seu sentimento represado nas mãos. Até fechou os olhos e quando os abriu, viu o olhar intenso de Alexa sobre si e errou uma nota...

______Vou ter que castigá-la! – Disse Alexandra, fingindo seriedade, puxando-lhe suavemente o lóbulo da orelha.

______Espere! Não é justo! Eu acertei 99% da peça...

______Então mereces alguns beijos!

Disse isso e apanhou o rosto de Isabelle com ternura e passou a lhe dar inúmeros beijinhos na face. Isa sentiu-se incendiar. Suas faces coraram.

______E agora por fim! A recompensa final, por ter tocado o “Impromptu” com tanto sentimento!

Dizendo isso, Alexandra beijou os lábios de Isabelle que se sentiu entorpecer. A sala ao redor escureceu e um clima sensual as envolveu. Ambas levantaram-se do piano no mesmo momento.

______ Leu meu bilhete, Belle?

______Sim!

______E porque não o respondeu?

______Não sabia o que dizer...

______Tenho lutado contra sentimentos controversos e novos na minha cabeça.

______É natural...

______Mas o que sinto é algo forte e possui densidade e planos próprios...

______O que deseja neste momento, Ale?

Ela emudeceu e enrubesceu intensamente, baixando os olhos. Isa percebeu a timidez, faceta desconhecida de sua personalidade.

______Eu desejo! Desejo... – balbuciou Alexa.

Isabelle encostou seu corpo no dela e a envolveu com seus braços.

______O que deseja?

______Desejo beber do leite que jorra entre suas pernas sobre este piano. Ë uma fantasia maluca eu sei, mas que me tira completamente de órbita...

______Não! Nada o que desejares, minha querida poderá ser maluco. Amantes não pecam. Nada pode impedir o curso do rio chamado desejo...Venha, Ale, estou esperando...

Dizendo isso, Isa fechou a cauda do piano e em um salto ágil sentou-se sobre sua superfície enorme que mais parecia uma mesa em forma de asa de borboleta. Alexa , inicialmente, agia da forma perdida de uma criança, porém a dado momento, aproximou-se resoluta e à certa distância, Isabelle a laçou com suas pernas e a puxou para si. Isso a enlouqueceu pois se desembaraçou do roupão de Isa e com as mãos, abriu-lhe mais as coxas, mergulhando em seu sexo, bebendo-o com sofreguidão. Isabelle deixou o corpo recair sobre o piano, enquanto acariciava os cabelos lisos e macios de Ale e a encaminhava pelo labirinto de seu sexo. Então o tesão que aumentava avassalador a fez debater-se desesperada e a fez perceber que sua amante, mesmo inexperiente, havia atingido em cheio o centro de seu prazer, deflagrando-lhe maravilhosas sensações. Alcançou o clímax com violência e quase faz Ale perder o fôlego, pois suas pernas ainda a prendiam a si com força. Ao perceber que Isa desfalecera e aos poucos se acalmava, Alexa apanhou-lhe o corpo e puxou-a para si, beijando-a ardorosamente nos lábios.

______Recupere sua força! Mon Amour! Vou apanhar mais uma garrafa de vinho para nós.Depois, vamos até meu quarto na Helicon! Quero fazer amor contigo até exaurir-te e saciar este desejo intenso que me consome...

______Não demore! Sofro profundamente de “abandonite aguda” e isso me deixa desorientada...

______Não, minha bela, não vou mais deixa-la. Não está sozinha em seu desejo e paixão...

______Então vá logo enquanto vou vestir uma roupa básica para podermos ir até o “ninho”. Encontro-te aqui...

Saíram da sala apressadas. Isa caminhava pelos corredores, antes sombrios, sentindo a felicidade jorrar pelo seu corpo como fontes de luz, enquanto ainda sentia certo ardor delicioso em seu sexo.

Voltou de seu quarto minutos depois e irrompeu na sala do piano, encontrando diante de si, uma nova Alexandra que neste momento tinha em sua mão o anel de Euterpe, de onde ela certamente lera o nome de Lara.

_______O anel de mamãe! Ela lhe presenteou depois que se amaram no tapete quais duas fêmeas no cio!

Isabelle percebeu a voz alterada de Alexandra e caminhou para abraça-la.
______Não me toque!

______Não lute contra a realidade, meu amor! Lembre-se que por ti apanhei como um cachorro raivoso daqueles marmanjos que me tomaram por rapaz no templo de Afrodite. Pensei que iria morrer mas suportei a dor para tentar evitar que eles profanassem o corpo da mulher que amo...

Alexa virou-lhe as costas e começou a tremer o que lhe denunciou o choro convulsivo.

Isa preferia vê-la, centenas de vezes raivosa a ter que presenciar pela primeira vez seu pranto e abraçou-a forte.

______Chore meu amor mas enterre o passado e seus mortos. Não podemos viver vergados pelo peso de nossos erros e imperfeições. Tome, fique com o anel. Eu ainda não o mereço e este é o de Lara. Quero que o use...

Dizendo isso, Isa colocou suavemente o anel de Lara no dedo de Alexa que a olhou com tanta dor e sentimento, como uma menininha perdida.

______Vamos minha pequena, onde está a Alexa selvagem e mordaz que conheço? Vamos, reaja, rompa esta prisão que ergueste em torno de ti...

Alexa caminhou trôpega até o divã e ali deitou-se em abandono. Isa já não sabia mais como agir e esperou pacientemente que seu amor abrisse os olhos, o que esta o fez, depois de permanecer por cerca de vinte minutos silenciosa. Em seu olhar, agora, Isa percebeu que a tempestade amainara para uma bonança envolta em mistério.

______Venha! – Determinou Alexa, apanhando uma das mãos de Isa, enquanto a conduzia silenciosa pelo labirinto dos corredores da Ala. Enfim chegaram a um aposento amplo no segundo piso, o que Isa reconheceu imediatamente ser o antigo quarto de Alexa. Tudo estava arrumado como se estivesse esperando por sua dona. A enorme cama com dossel estava com suas cortinas carmim afastadas, mostrando um leito deliciosamente preparado. Alexa a empurrou para a cama e começou a rasgar-lhe a blusa e desabotoar sua calça jeans violentamente e quando se deparou com a minúscula calcinha de Isa, rompeu-a nos dentes perolados. Depois a usou para amarrar os pulsos de Isabelle sendo que esta percebeu tardiamente que sua amante estava fora de si.

_____O que está fazendo, Ale? Vai acabar me machucando...

Alexa forçou o decote de seu belo vestido até rasga-lo ao meio e ao se livrar dele, usou suas tiras para amarrar também as pernas de Isabelle, abertas uma a cada pilastra do dossel.

_____Você está delirante! – sussurrou Isa, afogada em sua apreensão e excitação, enquanto Alexandra iniciava a chupar-lhe com força o pescoço até o sangue subir aos poros. Intercalava com mordidas e sorvidas poderosas por todo seu corpo. Quando se acercou dos seios de Isa, esta gemeu ao sentir a dor que provinham das fortes sugadas em seus mamilos e as mordidas no seio. E assim transcorreram minutos intensos de prazer e dor até por fim, Alexa a penetrou com seus longos dedos até que gozasse. Não satisfeita de marcar todo o corpo de Isa, Alexandra ofereceu aos lábios de sua prisioneira seu sexo úmido e almiscarado, reiniciando a transa em um delicioso 69. Por fim, ao gozar nos lábios de Isabelle, Alexa pareceu se acalmar e a libertou.

_____Assim você quase me mata!

_____Ainda não me saciei! Não me deixe sair por aquela porta sem saciar todo meu desejo.

Isa entendeu o que ela queria dizer e beijou-a forte nos lábios até que estes se tornaram tão inchados que pareciam que verteriam sangue, enquanto suas mãos, massageavam o corpo ainda tenso de Alexa que gemia ao seu toque e se debatia em ânsia.

Beijou seu longo e acetinado pescoço enquanto lhe fazia uma deliciosa massagem na musculatura rija e tensa dos ombros. Aos poucos, sentiu-a relaxar e esta passou a se debater menos. Apenas estremecia a cada carícia recebida e apanhava a nuca de Isa com as mãos, puxando-a contra si. Isabelle agora se acercou dos tão desejados seios de auréolas rosa-chá de Alexa, que tinham um formato maravilhoso e cabiam na palma de sua mão, sendo que as pontas de seus dedos podiam lhe tocar a base. Acariciava um, enquanto sorvia o outro, a princípio encaixando os lábios em um delicioso movimento de sucção ao mesmo tempo em que sua língua se dedicava a percorrer o relevo do bico túmido. Seu corpo roçava no de Ale, no vai e vem das ondas, e esta agora lhe percorria com as mãos a lanugem dourada suave que recobria a pele de suas costas.

Devagar, Isabelle encontrou o maravilhoso rastro que segue do umbigo até o Delta de Vênus de Alexandra e passou a percorre-lo com os lábios, ao que sua amante lançou seus braços para trás e içou suas pernas aos ombros de Isa. Esta aproveitou a oportunidade em que Alexandra se entregava totalmente e apanhou-lhe as coxas com firmeza e encaixou os lábios no seu sexo, enquanto seus dedos, penetravam-na suavemente e avançavam a cada espasmo. A certo momento, sentiu aquele doce véu das virgens, que ela, ferozmente rompeu em seu desejo de torna-la plenamente sua e por fim introduziu-se totalmente. Alexa gritou, desesperada como um felino no cio e lanhou com as costas de Isabelle...

______Ahhhhhhhhh!

Depois, estremeceu convulsivamente e gozou em profusão. Isa sorvia-lhe todo néctar que emanava de seu sexo, que tinha o belo e harmônico formato de uma orquídea.

Silêncio. Ale jazia como desmaiada. Parecia que finalmente encontrara a paz. Isabelle voltou a se deitar ao seu lado, acariciando-a suavemente, ouvindo-a ressonar nas profundezas do sono profundo que mergulhara ante a intensidade do prazer que sentira.

_____Descanse meu amor! – sussurrava Isa, com o coração pleno de felicidade. Durma! Eu espero.

Apanhou o lençol carmim da cama e cobriu Ale e a si, deitando com um braço em torno do corpo dela, como se para garantir que esta não lhe fugiria mais, e acabou adormecendo. Não percebeu quanto tempo dormiram mas despertou com a luz da manhã se infiltrando pela ampla janela. Procurou por Alexa e não a encontrou ao seu lado. O desespero lhe tomou conta.

_____Ela tornou a me abandonar! – concluiu amargurada, mas por um breve momento, pois Alexandra entrou no quarto, vestida com um roupão, tendo os cabelos molhados e trazendo consigo uma bandeja com frutas, iogurte e fartas fatias de pão. Em seu rosto uma expressão totalmente nova. Havia ali uma mulher com o rosto sereno e os olhos fulgurantes de paixão. Colocou a bandeja na mesinha de cabeceira e sentou-se na cama ao lado de Isa, que a olhava surpresa.

_____Por um breve momento, pensei que havia me abandonado! – confessou Isa.

_____Não minha querida...Eu a amo e agora sei o quanto errei com você. Fiquei acordada por toda a noite ao seu lado, apenas para vê-la respirar e sorrir enquanto sonhavas. Eu poderia velar seu sono por toda a vida, envolvida nesse doce e intenso momento pois não quero mais perder nem mais um instante. Não posso mais fechar os olhos ou dormir porque estaria deixando a vida passar por nós e eu não quero perder nada, nem um segundo, porque por mais que eu adormeça e sonhe que estou ao seu lado, isso não é mais o suficiente. Quero sentir o pulsar de seu coração junto ao meu, quero tê-la ressonando em sono profundo ao meu lado, sonhando com meus beijos e com o amor que fizemos, portanto, durma meu amor, que estarei ao seu lado velando-lhe o sono, pois não quero perder mais nada, nem um instante nem um átomo de vida que possamos compartilhar juntas.


--------------------------------->FIM<----------------------------------


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