"Pour Elle"- parte 1


Capítulo 1: A PERSONIFICAÇÃO DE UM SONHO

 

Ela esperava nervosamente sua vez. Sabia que suas chances eram quase inexistentes, mas desistir não fazia parte de seu caráter. Viajara de trem por 3 dias e três noites até alcançar a pequena cidade montanhosa onde a Quinta das Artes repousava como uma fortaleza antiga e poderosa. Ia tentar a bolsa de estudos que tanto sonhara. Todos anos, centenas de jovens como ela ali se aventuravam, como andarilhos dos caminhos de Santiago em busca da fonte inesgotável de águas do saber .
Isabelle caminhava sob o sol frio da manhã, procurando por uma pousada barata onde ficar até a hora do concerto, onde seria avaliada pelos velhos e virtuosos professores da Quinta.
Quando chegou sua vez, ela se aproximou do grande piano de cauda, meio trôpega, como se embriagada. Não conseguia ver nada à sua volta no grande salão do recital, apenas imagens borradas. Dedilhou, no princípio insegura, depois com a angústia e paixão de quem teme que ao primeiro acorde desarmônico, seu sonho lhe escape por entre os dedos.
Terminou. Levantou-se e saiu cabisbaixa. Outros jovens esperavam por sua vez de se apresentarem à bancada. Percebeu ao passar, o olhar frio e a face contraída de uma das velhas senhoras que a avaliava.

____Não consegui ! – pensou, contendo seu pranto. O olhar cortante da velha, percorreu de Isabelle para um certo ponto de um camarim de mármore, onde apenas uma bela mão de longos dedos, pareciam sob intensa emoção, pois a todo tempo se entrelaçavam e estremeciam em espasmos.

____Que gente estranha ! pensou a jovem recém-chegada.
Desceu para a cidadela em busca de algo para comer. Não tinha nada no estômago e depois da emoção que sofreu, eram bem capaz de desmaiar. Não ficaria nem mais um dia para saber o resultado. Sua mãe estava certa. Aquele não era seu mundo.
Sentou-se em um banco de praça, depois de tomar um copo de leite com chocolate e um pão com queijo feito na chapa. O relógio da igrejinha central soou, ecoando pela manhã, meio onírico.

____Este lugar mexe comigo ! – Pensou Isabelle. ____Quem me dera poder ficar por aqui, mas para garotas pobres como eu, a chance era a bolsa de estudos e agora, isto me parece tão absurdo e vago. Eu realmente não devo ter juízo nenhum.
Não viu as horas passar. O Sol, mudou sua luz esbranquiçada para o amarelo dourado da tarde. Sua pele se aqueceu e ardeu um pouco.

____Quero que esturrique ! Pensou, sem forças para reagir ao fracasso de seu sonho.

____Sai desse sol, menina! Assim você se queima toda ! – avisou uma senhora que passava por ali.

____Deixa, Gertrudes ! Esta menina não tem a pele como a nossa! Veja, ela parece ser feita de bronze!

Isa, observou que a mulher tinha razão. Os moradores daquele povoado, descendiam de europeus e eram tão brancos como paredes caiadas. Não era seu caso. A garota de 17 anos era mestiça de índio com alemão. Sua mãe fora criada em uma fazenda do Mato Grosso do Sul. Descendia dos bravos índios Guaicurus. Seu pai, o filho de um fazendeiro alemão recém aportado no Brasil. Da relação de amor dos dois, nasceu a morena Isabelle, que recebeu do pai, como único legado o sobrenome Zimmerman. Um acidente ceifara a vida jovem do pai e o avô rejeitou mãe e filha. Mudaram-se para outra fazenda, onde a mãe trabalhava como cozinheira para criar a filha. O piano, Isa aprendera a tocar, ouvindo escondida, quando a velha senhora, dona da Fazenda Montes da Promessa, tirava acordes sublimes com seus dedos tomados pelo reumatismo.


_____Ei ! você não é a Matogrossense que está disputando a bolsa de estudos para música? - perguntou um rapaz magro, muito branco, de cabelos ruivos espetados.
Isa , se moveu no banco, muito à contragosto. Sentiu-se humilhada por saber que seu anonimato fora quebrado.

_____É ! – respondeu.

_____O resultado já saiu ! A banca reprovou 99% dos candidatos. Eles são muito severos na avaliação...

_____É ! Eu percebi!

_____Este ano, passou apenas uma tal Isabelle Zimmerman !!! Está no mural... Os outros, ou pagam a pequena fortuna que é exigido pelo curso, ou caem fora !Ainda bem que para a bolsa de pintura e desenho, haviam 4 vagas. Eu consegui uma. Meu nome é Godofredo e o seu ?

A moça saltou como se fosse feita de borracha do banco e saiu correndo pela praça gritando !

____Ai meu Deus ! Ai meu Deus! Eu passei ! Eu passei!



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Mas nem tudo era simples. Isa logo descobriu o que uma aluna bolsista sem dinheiro, tinha que fazer e se submeter para conseguir algum dinheiro para comprar o equipamento necessário para o aprendizado, que não era barato. Seu quarto, consistia em um alojamento com dois beliches, com mais três moças de idade aproximada da sua.

Na primeira aula teórica ao piano, deveriam levar um diapasão, um caderno pautado e um metrônomo. Isa não tinha nada. A professora, Mestra Norayewa, depois da aula se aproximou e com seus olhos frios e penetrantes, sugeriu:

____Quer ganhar algum dinheiro menina? Precisa comprar seu material ou não poderá participar da aula. Para tanto é só não ser orgulhosa e encarar o trabalho.

Isa , assentiu com a cabeça, meio desconfiada daquela mulher, que em seu recital, parecia que a odiava sem a conhecer.

____Então , siga-me!

O trabalho era tirar o pó e limpar o soalho de pedra de várias salas de música. A Quinta das Artes, na verdade era uma espécie de fortaleza, dividida em vários blocos, onde cada um era dedicado ao ensino de uma variedade artística. No imenso platô, haviam no total, 9 blocos. Em uma Rocha gigantesta que rasgava o terreno, estava plantada o “ninho”, que era uma mansão no estilo Português, onde morava a Senhora de Além Tejo, proprietária da escola e muitas terras, até onde a vista podia alcançar.

Isa, agora, esfregava com força o chão de mármore. Sentia raiva e um misto de frustração, mas não se deixaria dobrar. Mestra Norayewa certamente esperava que ela desistisse e ela mostraria que podia engolir seu orgulho e contornar aquele obstáculo.

_____O que eu fiz para essa mulher me odiar tanto? – pensou.

Um barulho da porta se abrindo de supetão, a retirou de seus pensamentos.

Uma moça com idade aproximada à sua, entrara, batendo tudo que encontrava à sua frente. Isa já sabia que aquele belo exemplar de mulher, era a temida Alexa de Além Tejo. Tinha os cabelos cor de mel com tons avermelhados e os olhos cinzas frios, eram algo espetacular que Isa tinha que admitir que não conhecia olhos mais belos. A boca, era como cerejas tenras e rubras. A nariz reto, a pele de romã e a testa, alta e inteligente, possuía um detalhe sedutor: um “v”, aquela invasão de fios, que rompiam a linha entre seus belos cabelos lisos e sua pele alva.

Alexa aproximou-se com seu passo aristocrático. Tinha longas e bem torneadas pernas e quase sempre vestia uma roupa negra de couro, botas e os cabelos, cortados rente ao queixo, quase sempre eram presos por uma espécie de tiara de pedras cintilantes.

____Nunca cruze o caminho de Alexa ! – avisou, certo dia, uma das garotas de seu alojamento.

Isa , ao mesmo tempo inebriada com a beleza da jovem Alexa, sentiu algo dentro de si que a alertava. Ainda estava de joelhos, esfregando o chão, quando o balde foi chutado com estrondo e voou ao seu encontro, molhando-a toda.

Alexa ria convulsivamente. Seu rosto, agora mostravam duas covinhas nas bochechas. Isa levantou-se indignada. Vestia, como costume, uma camiseta sem manga e sua companheira calça jeans azul desbotada, que sem que ela percebesse, valorizava sua silhueta morena flexível. Os bicos de seus seios, apareceram sob a camiseta molhada e por um instante, ela pôde perceber que Alexa parou de gargalhar e mirou-a estática. Era um olhar estranho, como se algo a estivesse perturbando profundamente. Isa, sentiu que sua ira, borbulhava em sua garganta e no exato momento em que Alexa, pareceu desarmar-se, saltou sobre ela e rolaram pelo piso molhado, como duas gatas selvagens. Isa não viu quem as apartou, mas pôde ver os lábios carmin de Alexa que sangravam e sua face que estava com um tom azulado na altura da maçã do rosto.

_____Estou perdida ! – pensou em desespero ! ____Bati na filha da Diretora...
Levaram-na para uma espécie de gabinete, onde deveria aguardar sua sentença. Seu corpo tremia convulsivamente !

_____Eu deveria controlar meu gênio ! Agora tudo está acabado para mim!
Esperou por horas, que mais pareceram semanas, até que um rapaz, Alto, branco, de cabelos negros azulados entrou e lhe ofereceu um prato com duas fatias de pão de centeio e queijo.

_____Coma!

Isa não se fez de rogada. Seu estômago fervia e ela sentia que aquele era o último lanche da sentenciada.

_____Volte para seu alojamento ! Está liberada. Intercedi junto à Mestra Norayewa por você!

_____E por quê você fez isso ? Você mal me conhece !

O rapaz sorriu timidamente, e Isa pode ver que seus olhos, mesmo ocultos por um óculos de lente muito grossas, eram de um azul profundo e raro.

_____Minha irmã nunca encontrou alguém que lhe desse um corretivo. Tem um gênio difícil e Nora a estimula. Você a surpreendeu. Quem sabe assim, ela passe a respeita-la...

_____Você é Eduardo de Além Tejo?

_____Sim e você é a jovem pianista talentosa que conseguiu uma das bolsas mais cobiçadas na Quinta. Eu a ouvi tocar. Você é como um diamante bruto à espera que um ourives a lapide com arte. A senhora de Além Tejo certamente percebeu seu talento.

_____Ela estava na sala?

_____Sim! Ela sempre está pelos recônditos mais secretos de todo complexo da Quinta. Você não a viu. Quase ninguém a vê. Ela estava no seu camarote oculto, a metros de altura, sobre onde você interpretava sua peça musical.
Eu fazia parte da pequena platéia do local. A forma como você interpretou foi muito tocante ! Algo assim de alma e paixão. Bem vinda à Escola de Arte. Pode contar comigo e com minha amizade. Venha, está na hora do lanche da tarde. Você senta comigo no refeitório. Quer?

O rapaz, de cerca de 20 anos, tinha um porte bem talhado, apesar de não ser bonito, exalava um certo charme pessoal e infundia confiança com sua voz grave e agradável. Seu andar, denotava que tinha certo problema em uma das pernas, que não dobrava na altura do joelho.

____Vamos! Quero que meus amigos conheçam a gata selvagem Pantaneira !!!


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Capítulo 2: ACORDES PROIBIDOS
(por LARA DE LUNNA , adicionado em 16 de Abril de 2002)

Isa não podia acreditar em sua sorte. Fizera amizade com o filho da poderosa e misteriosa senhora de Além Tejo e ainda recebeu do rapaz uma proposta irrecusável:

_____Cuida de Vulcano para mim . Sei que conheces bem de cavalos...

_____Não posso aceitar ! Você já deve ter outro tratador...

_____E outros cavalos, de quem ele continuará a tratar. Aceita minha proposta e assim poderá se livrar de esfregar as salas de música e terá o material de que precisas...

_____Tudo bem ! Se é assim ! Eu aceito ! Quando posso começar?

_____Hoje ! e aqui está o adiantamento !

Eduardo entregou para a moça uma caixa, de onde ela pode ver, vários blocos de pauta, um metrônomo novinho , diapasão e mais algumas partituras.

_____Espero poder corresponder, a confiança que me destina...

_____Vai corresponder ! eu tenho certeza, ou então não lhe entregaria o Vulcano...

Ainda naquela semana, Isa levou Vulcano para lavar em um pequeno regato há 2 quilômetros do haras. Lavou-o com cuidado para evitar o desenvolvimento de fungos nos cascos e a entrada de água em suas orelhas. Depois, catou os carrapichos de sua cauda e de sua bela crina. Por fim, preparava-se para escova-lo, quando um barulho de uma motocicleta que se aproximava veloz do local a fez entrar em alerta.

_____Uma moto? Aqui neste terreno difícil, onde somente havia acesso por trilhas íngremes?

A resposta veio como um raio. Uma potente moto tipo cross, avançou sobre ela e em um último instante mudou seu rumo, lançando sobre a jovem amazona e Vulcano, uma onda de barro, terra fofa e capim. O riso cristalino, denunciou quem era o piloto, vestido de macacão de couro que habilmente conduzia a moto, agora em fuga.

_____Esse demônio ! Eu já devia saber que ela pretenderia se vingar...

De volta para a ala das cavalariças na propriedade, depois de lavar a si e ao Vulcano novamente, Isabelle remoia seu projeto de vingança.

_____Essa eu vou revidar ! Não vou sossegar enquanto não conseguir acertar nossos ponteiros e vou esperar e apanha-la desprevenida !

A semana transcorreu sem maiores percalços e a cada vez que Isa, se deparava com Alexa e seu risinho debochado, mais se solidificava dentro de si , a determinação de lhe dar o troco. Certa tarde, porém, após a aula de solfejos e leitura do pentagrama, Isabelle permaneceu na sala de música, após a saída da professora e seus colegas, a fim de estudar mais. Sabia que estava atrasada em relação aos demais, pois, mesmo que aquela turma houvesse iniciado os estudos naquele ano, já sabia ler partituras, o contrário de Isa que tudo que sabia , fora retirado de “ouvido” e ainda era uma analfabeta na leitura dos pentagramas. Mestre Novaweva já a ameaçara:

_____A senhorita Zimmerman, tem mais um mês para aprender a ler as pautas, ou poderá ser desligada do curso.

Isa sabia de sua facilidade em aprender, mas sentia que precisava fazer algumas horas de leitura adicionais para poder adquirir velocidade e traquejo na leitura. Todos já haviam ido para a folga vespertina, pouco antes do lanche da tarde e ela insistia em estudar. Procurou alguma partitura nova, mas Noraweva havia recolhido todas que estavam no local.

_____Deve haver uma, desgarrada em algum lugar! – pensou.

Procurou, procurou em vão, até que, já quase desistindo, vislumbrou, no imenso armário de livros velhos e empoeirados, algumas folhas amarelas que sobressaiam de um livro, colocado de forma semi oculta há 3 metros de altura.
A moça não pensou duas vezes e começou a escalar as prateleiras até alcançar tal livro, de onde, pôde retirar, uma amarelada e mofada partitura com a inscrição manuscrita em francês: “Concerto Pour Elle”. Isa reconheceu naquele manuscrito um achado. O se era achado , não parecia haver problema algum de guarda-lo consigo pois o livrara de acabar no bucho de uma grande e voraz família de traças.

Desceu cuidadosamente e por fim, entregou-se ao estudo detalhado daquele pentagrama traçado por finas e elegantes linhas com a cor esmaecida pelo tempo.

Os primeiros acordes que retirou ao piano, foram um tanto desconexos, mas aos pouco foi progredindo até que a melodia apaixonada e efervescente começou a penetrar-lhe o corpo e invadir-lhe a alma. Parou em certo momento, pois seus dedos já não a obedeciam mais.

Guardou as partituras dentro de seu livro, e voltando furtivamente ao alojamento, as escondeu. Estava loucamente embriagada pela canção. Seu corpo parecia que se desprenderia do solo e flutuaria pelo vale abaixo.
No dia seguinte, Eduardo vendo-a profundamente introspectiva, aproximou-se sorrindo:

_____Me parece que a luz de minhas manhãs, está semi-oculta por nuvens nebulosas...

Isabelle sorriu com aquela elegante abordagem matutina.

____As nuvens nebulosas já estão se dissipando ! – afirmou a moça.

_____Então aceitará ser minha modelo hoje !

_____Como assim?

_____Ora? Sabe que faço pintura e escultura no bloco das artes plásticas...
_____Ah! Sim, você já me mostrou o atelliê...

_____Mas não te mostrei o meu atelliê particular. É na propriedade dos Além Tejo...

_____Não posso ir lá ! Mestre Noraweva já fez questão absoluta de avisar.

_____Nora é uma mulher rigorosa e governa sob o mando de minha mãe. Não pode impedir que eu leve uma convidada até a ala reservada...

_____Então não vamos até o “ninho”?

_____Não, A menos que a Senhora de Além Tejo nos chame...

Isabelle achou esquisito os filhos morarem na Quinta das Artes e não no “ninho”, porém era prudente não perguntar mais.

_____Acha que vou encontrar com Alexa pelos corredores?

_____Difícil ! tomaremos uma espécie de caminho secundário, onde poderemos passar pelos aposentos próximos aos dela e de Nora, sem sermos vistos...

_____Tudo bem ! já estou curiosa para conhecer seu atelliê particular. – Concluiu Isa, pensando que até que seria bom dar de “caras” com Alexa que certamente acharia um absurdo ter seu espaço invadido pela adversária. Além do mais, não poderia perder de jeito algum a oportunidade de conhecer a “toca da serpente”, assim quem sabe, poderia surpreende-la quando aparecesse sua oportunidade de lhe dar o troco.

Caminharam silenciosamente por infindáveis e estreitos corredores subterrâneos até que submergiram em outro corredor, agora certamente ao nível do solo, onde suavemente podia-se ouvir uma deliciosa melodia interpretada no violoncelo.

_____Fique atenta agora ! Alexa está em seu quarto de estudo...

Passaram se esgueirando pelas sombras da parede, até que a melodia se distanciou. Isa estranhou que aqueles acordes melodiosos poderiam estar emanando de um violoncelo tangido por Alexa de Além Tejo. Havia muita talento e sentimento na interpretação.
No ateliê de Eduardo, este acendeu algumas luzes que pendiam em candelabros do teto muito alto.

O local era como um paraíso para qualquer artista plástico. Havia esculturas de todo tamanho, do mármore ao bronze, telas semi-pintadas e outras já prontas estavam montadas sobre cavaletes e bem ao meio do extenso salão, uma espécie de mesa, redonda, coberta com veludo carmim.

Alguns papéis riscados em crayon, denunciaram o mais recente projeto de Eduardo: Retratar Isabelle.

_____Vais pousar para mim !

_____Só bêbada! Não tiro a roupa nem na frente de minha mãe desde que completei 10 anos...

_____Quero pinta-la apenas. Sou um artista e sua nudez será profissionalmente ignorada e artisticamente retratada.

Os olhos rasos indígenas de Isabelle, cerraram-se mais, ocultando a ebulição de sua fúria crescente e Eduardo percebeu que estava diante de um vulcão prestes a explodir.

_____Não se ofenda comigo, caríssima! Não precisamos que pouse nua. Gosto de vê-la com seu Jeans desbotado e justo e esta camisetinha branca. Emana muita sensualidade. Sente-se naquela mesa forrada em carmim.

Isabelle se acalmou ao ver a expressão aflita do rapaz.

_____Tudo bem ! posso até pousar para um retrato, mas quero estar ao piano. Sou tímida demais para fazer pose. Ao piano consigo me descontrair.

_____Como quiser ! – assentiu Eduardo, reanimando-se e apontando-lhe um velho piano no canto da sala.

Isabelle, sentou-se cuidadosamente diante do intrumento, admirando-lhe as teclas de marfim amareladas pelo tempo. Dedilhou algo a esmo para aquecer os dedos. Depois, vendo que Eduardo já arranjara o cavalete mais próximo de si, distraiu-se tocando as melodias que conhecia . Em certo momento, já se passando muitos minutos, percebeu que o rapaz parara de pintar e a olhava com o rosto pálido e contraído.

______Os acordes proibidos ! Onde os encontrou? Não acredito que em algum lugar no pantanal do seu longínquo Mato Grosso do Sul.

______Eu os encontrei aqui ! - revelou Isa, embaraçada.

______Nunca mais o toque na Quinta !!!! Todas as partituras de que tenho notícia foram destruídas.

______Não entendo!

______Não tentes entender! Estes acordes são proibidos na Quinta das Artes. Trazem sofrimento e maldição. A última vez que os ouvi, foi quando tinha quatro anos e minha irmã era um bebê. Foi um pouco antes de Nora me derrubar ao chão, e que me trouxe seqüelas irreversíveis na perna que possuo hoje.

______Nora o derrubou ao chão?

______Sim ! Quando fugia comigo e minha irmã nos braços. Nora nos salvou do incêndio que vitimou meu pai, destruiu completamente o “ninho” e marcou para sempre Lara de Além Tejo.

Eduardo falava balbuciante, como se tentasse com esforço expulsar fora o segredo que se enroscava em sua garganta, qual uma corda e o sufocava.

______Desculpe-me ! eu não podia imaginar.

______Venha ! nossa sessão de hoje terminou ! Quem sabe outro dia... Disse o rapaz que a apanhou pelo braço e a conduziu quase ao arrastão pelos corredores na penumbra.

______Há de me prometer que nunca mais tocarás estas melodias na Quinta das Artes !

______Tudo bem ! Eu, não a tocarei diante de ti ! Prometo !

______Não aqui ! pensou ela intimamente. Vou guardar a partitura e quando me formar, sairei mundo afora espalhando esta maravilhosa melodia, entre outras.

Seguindo Eduardo pela escuridão, Isa não pode deixar de sentir aquele sentimento estranho de que algo sempre os acompanhava. Uma espécie de presença invisível, que seus instintos, várias vezes ao dia denunciavam.

______É fruto de minha imaginação e do medo ! concluiu para si.


O SEGREDO DE ALEXA.


Os dias transcorreram sem crises ou novidades até aquela tarde, em que Isa entrou cansada em seu dormitório e encontrou suas colegas em certo clima de embaraço e apreensão.

_____Não sei o que aconteceu ! Isa ! – desculpou-se Letícia. ____Quando cheguei já estava tudo desse jeito.

_____Não acredito que alguém quereria roubá-la ! Emendou – Maria Clara.____Na Quinta não há ladrões... (e também és uma dura )

_____Você tem que denunciar isso para o inspetor da tarde ! Ele deve ter visto quem entrou no quarto enquanto estávamos nas aulas. – sugeriu, cautelosamente, Vera.

No chão ! as roupas e papéis de Isa estavam misturados ao estrume de cavalo. Seu bloco de pentagrama rasgado e o metrônomo partido ao meio. Quanto ao diapasão, Letícia o encontrou debaixo de um dos beliches.

_____Levaram alguma coisa? – quis saber uma colega.

Isa percebeu que aparentemente nada, a não ser...
Procurou no esconderijo pelas partituras tão preciosas. Nada. Levaram seu tesouro mais caro. No local, apenas um bilhetinho !

_____Aprenda a não se intrometer onde não deve !!! Este é o castigo por ter tocado os acordes proibidos ! Vá embora para o charco de onde viestes...

_____Alexa ! concluiu Isa em pensamento, sentindo-se sair de si de tanta ira. Suas colegas perceberam seu estado de ânimo e tinham o medo nos olhos.

_____Eu vou me vingar ! Desta noite não passa !



Escondeu-se o restante da tarde na baia do Vulcano. Não se movia nem para mudar a posição de suas pernas encolhidas. Esperou a noite cair. Lembrou-se de Alexa e seu violoncelo. Este devia valer uma pequena fortuna e talvez fosse algo que ela desse valor.

____Como será para ela encontrar aquele instrumento raro aos pedaços?
Consultou o relógio de pulso. Faltavam alguns minutos para a meia- noite. O tempo galopava de braços dados ao seu desejo de vingança e sua ira a cegava para as conseqüências de seus atos.

_____Não poderá me acusar ! ____Não deixarei pistas. ____Apenas ela saberá...
Esgueirou-se pelo arvoredo, orientando-se pelo instinto que estava aguçado, como o dos felinos predadores. Alguns vaga-lumes passavam, espalhando sua fantasmagórica luz esverdeada. Grilos, girinos e sapos bois coaxavam perto. Enfim, atravessando um arvoredo como se fosse um cinturão verde, ela encontrou o bloco onde Eduardo e sua odiosa irmã, além da Norayeva, moravam.

_____Como farei? - pensou para si, traçando um percurso na mente.
Um janelão no segundo andar se abriu e a luz escapou com intensidade na escuridão da noite. Uma silhueta sua conhecida, por alguns instantes, se desenhou na claridade. Depois afastou-se.

_____Agora sei até onde devo chegar ! ____Vou escalar a parede. Esta árvore frondosa deve servir para que alcance a sacada ao lado.

Escalou a árvore, muito alta, com habilidade e elasticidade. Do galho flexível, içou seu corpo até alcançar com os pés a sacada há apenas três janelas de distância da de onde julgava ser o quarto de Alexa. Segurando cuidadosamente pela amurada das sacadas, caminhou sobre a pequena quina que a separava de uma queda fantástica até o chão. Nem pensou na possibilidade de despencar, tal era sua sede de estraçalhar o violoncelo de Alexa. Quando já aproximava sorreteiramente a cabeça da janela, viu sua inimiga caminhando pelo imenso quarto, apenas vestida de uma minúscula calcinha de algodão e um camisetão que lhe desnudava as pernas perfeitas e longas. Havia saído do banho e seus cabelos molhados lhe aumentava a sensualidade e a beleza. Isa sentiu um misto de despeito e admiração por aquela moça tão bela.

Continuou esperando sua áurea oportunidade. Poderia esperar até o amanhecer se fosse necessário. Já chegara até ali e não recuaria. Alexa reapareceu no quarto com seu violoncelo. Sentou-se com serenidade na cadeira próxima à sua enorme cama com dossel e apanhou o arco. Antes porém de começar a tocar. Beijou apaixonadamente o braço do instrumento, como se beijasse o pescoço de uma ente invisível a quem dedicava seu amor.

Quanto mais observava, Isa se sentia embaraçada. Mas no exato momento em que Alexa tangeu o instrumento, seu coração quase parou. Era sublime, magnífico e transcendia aos limites musicais, como se as paredes se diluíssem e ambas entrassem nas nuvens mais elevadas. Isa agarrou-se melhor à sacada. Começou a desconfiar que sua aventura poderia acabar mal. Sentia suas pernas fraquejarem. Esquecera-se do que a havia levado até ali.

Mas em certo momento. a melodia se estancou abruptamente e a moça abandonou o instrumento encostando à um canto. Isa pode ver-lhe as faces e estas pareciam incandescentes e seus olhos brilhavam quais dois diamantes.

Com um movimento ligeiro e gracioso, retirou o camisetão e a calcinha e ficou por alguns momentos nua em pêlo com toda sua perfeição. O queixo de Isa saiu dos eixos. O triangulo de Vênus de Alexa, acomodado entre suas pernas eram de finos pelos cor de mel. Seus seios , como dois pêssegos, possuíam as aureolas no tom rosa-chá e a mudança da brisa noturna lhe trouxe o cheiro almiscarado de seu sexo. Mesmo em pé, Alexa começou a tocar-se. Uma mão acariciava seu seio. A outra, buscava certo ponto oculto entre suas coxas.

_____Tenho que sair daqui ! pensou Isa.____E depressa !

Mas não houve oportunidade. A filha de Além Tejo retirou de sua cama, uma pequena peça de roupa e Isa reconheceu, em pânico, ser uma de suas minúsculas camisetinhas de algodão.

_____Não ! Não ! balbuciou ! Sua voz não lhe saía na garganta.

Alexa deitou-se no imenso tapete, diante da lareira e enquanto cheirava aquela peça de roupa, tocava-se. Inicialmente,seus movimentos eram suaves, lentos. Depois aumentaram de intensidade e em certo momento, passou a se tocar com a camiseta de Isa. Seu corpo jovem entrou em êxtase. Depois o clímax lhe possuiu e ela estremeceu em espasmos intermináveis entre gemidos e choro convulsos. Era um misto de fúria e prazer.

Isa perdeu contato com suas pernas. Percebeu que ali mesmo, atingira o orgasmo sem se tocar e tudo à sua volta girava. Seu corpo parecia flutuar e pode ver a lua, o céu com as estrelas espalhadas aos jorros e milhões de garras que a arranhavam.

Teve a reação instintiva de proteger seu rosto e tentar mover o corpo no ar para não quebrar o pescoço.
Depois, um baque surdo e a sensação de que estava morrendo.

Silêncio.

Nem um fundo musical dramático, como nos filmes. Somente o silêncio intenso.

Mas, afinal não sentia dor e apenas ouviu à distância um grito agudo e sirenes ecoando, até que enfim a escuridão, misericordiosa a levou em seus braços macios.


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Capítulo 3: IMPROMPTUS DA PAIXÃO
(por LARA DE LUNNA , adicionado em 19 de Abril de 2002)


Com a dor, minando-lhe o ânimo, Isa percebeu que estava viva. Lembrava-se que caíra de uma árvore, lembrava-se que passara a tarde junto ao Vulcano, ruminando seu desejo de vingança, mas nada mais além disso.

Abriu os olhos e viu Eduardo sentado próximo, com a testa enrugada de preocupação e com os olhos contornados por olheiras azuladas. Sorriu para ele, ao que o rapaz levantou-se rapidamente e saiu para buscar o médico.

Este, um senhor muito velho de expressão aquilina, examinou os olhos de Isabelle, perguntou quantos dedos estava lhe mostrando e por fim, tocou-lhe a base do crânio, massageou-o e encerrou seu exame.

_____Felizmente, nenhum trauma que possa deixar seqüelas ! – diagnosticou.

____Ainda assim, gostaria que ficasse em observação para evitar que lesões internas que não pude perceber nos surpreendam.

O velho senhor já ia saindo, quando parou e perguntou para Eduardo.

_____De onde ela despencou mesmo?

_____Do velho Jequitibá Rosa, ao lado da ala Noroeste...

_____Inacreditável como não tenha morrido! Certamente as árvores menores lhe apanharam a queda, como podemos perceber pelos vergalhões que tem em todo corpo. Bem, preciso ir embora. Ainda tenho que fazer um parto.

Eduardo aproximou-se do leito e olhou Isabelle com uma expressão tão intensa de amor e aflição que a comoveu.

_____O que fazia no Jequitibá, Isabelle?

_____Eu , eu não me lembro ! – confessou a moça, sinceramente.

_____Quase a perdemos! - lastimou-se Eduardo.

_____Mas o Doutor Ernesto assegurou que melhorará! - Mestra Nora, rompeu a tranqüilidade do quarto com sua voz cortante._____é preciso que se explique, senhorita ! Esta instituição é tradicional e respeitada e não podemos jogar seu nome aos ares pelas peripécias de uma aventureira sem juízo.

_____Nora! – exclamou Eduardo indignado, enquanto Isa, sentia suas faces arderem em brasa.

Por sobre os ombros de Nora, Isa percebeu quando Alexa entrou no quarto silenciosamente. Em seu rosto, comumente cínico e zombeteiro, uma expressão nova, desconhecida. Era como estivesse presente somente seu corpo, vazio de alma. As faces estavam pálidas e seus enormes olhos cinzas, se ocultavam parcialmente sob a espessa linha de seus cílios.

_____Sei o que você pretendia, mocinha! - continuou, Norayeva._____ Queria alcançar o quarto de Eduardo. Outras antes de ti, já tentaram seduzir um Além Tejo, mas eu não permiti!

_____Chega ! Nora ! Eu não admito que a ofenda. Naquele outro dia, eu a levei para conhecer a ala residencial por motivos puramente artísticos. Não acredito que tenha se aventurado por lá para me assediar. ..

A expressão de Eduardo agora, denunciava bem que pela sua vontade, gostaria de acreditar piamente na possibilidade de que Isabelle o procurava em seu quarto.

_____Bom! Ainda quero descobrir o que a Zimmerman fazia, bisbilhotando a ala? Responda menina. Só assim vou saber que providências tomar...

_____Eu não me lembro! Só me lembro que passei a tarde junto ao Vulcano, esperando anoitecer e que... estava com fome !!!

A franqueza e sinceridade da resposta singela de Isa eram irrefutáveis. Todos que ali estavam puderam perceber. Inclusive Alexa.

_____Ora! Então está explicado! – Eduardo concluiu com alívio e desejando botar um ponto final no assunto.

____Estamos matando nossa Sul-mato-grossense de fome! Já li sobre a dieta pantaneira, regada por muita carne, arroz carreteiro e variedade de peixes...

Alexa virou as costas e saiu do quarto tão silenciosamente quanto entrara.

Mestre Norayeva, abriu a boca várias vezes e não conseguiu dizer palavra, nem contra argumentar. Por fim, achou até plausível a conclusão de Eduardo, pois, exatamente no 3o andar da ala, havia uma grande e suntuosa cozinha, com suas despensas carregadas de iguarias e muita e variada comida. Deu de ombros.

Não tolerava intrusos na ala residencial e muito menos pantaneiras esfomeadas, porém, tinha ordens expressas de Madame de Além Tejo para manter aquela rapariga na Quinta.

_____Ela ainda causará nossa perdição ! – pensou amargamente a Governanta, que saiu do quarto, com seu andar rígido, quase marcial.

_____Então minha querida! Estava com fome? ____Não se assuste com a severidade de Nora. Ë apenas fachada. Tem um coração amoroso e sensível. Não tiveste a sorte de vê-la em melhores dias.

_____Será que já houvera melhores dias, para Norayeva? – pensou Isa.____Difícil de acreditar...




E O RIO SEGUE SEU CURSO.



O carinho e ternura de Eduardo distraiam a dor física que Isabelle sentia naqueles três dias que ficou acamada, até que o Doutor Ernesto lhe deu alta.
Após, a acomodaram em um quarto só para si na ala feminina do bloco 09. Em sua mesa de cabeceira, sempre que acordava do sono induzido por analgésico e antiinflamatório, encontrava um ou vários presentinhos. Alguns tinham bilhetes. Outros provinham de fontes misteriosas que não desejavam se manifestar.
Tânia, uma estudante do 3o ano de Poesia e Literatura , agora aparecia todos os dias para fazer companhia à convalescente.

_____Querem que eu fique ao seu lado até que você se recupere ! Acham que tenho mais juízo ! – riu-se a paulista, de aspecto muito sério e rosto comum.
Isabelle gostou de sua nova companhia, pois a moça, além de possuir um bom humor constante, era dotada de grande conhecimento e inteligência.

Conversavam muito e Tânia lhe revelou muitas facetas da Quinta das Artes que Isa nem imaginava. Por exemplo: o Bloco nove, na verdade era o “Arco de Euterpe”, a musa inspiradora da música. Os outros oito blocos, tinham cada um seu nome e significado. Chamavam-se Clio, Talia, Melpômene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia, e Calíope (ou Caliopéia), esta a líder das musas .

Isa bebia as palavras de Tânia, pois tinha sede de aprender . Toda forma de expressão artística a interessava.

Os presentes, eram abertos um a um, enquanto a companheira narrava as estórias da Quinta. Tânia pertencia ao “Arco de Clio” a musa da História, literatura e poesia e seu projeto futuro era escrever a história da família de Além Tejo.

_____Ah! Uma partitura do Sonho de Olwen ! é uma melodia deliciosa! Comentou.

_____Quem a deu? – quis saber Isa.

_____Aqui diz: Espero melhoras em breve ! E.A.T.
Tânia franziu a testa.

_____E. A. T?

____Ora ! Quem mais poderia se dar ao luxo de usar estas iniciais?É o Eduardo ! Então não sabia? – perguntou Tânia, incrédula, para Isabelle.

____Não atinei ! Ainda estou com cérebro meio parado !

Silêncio embaraçoso. Por fim, Tânia adquire coragem e pergunta:

____Você e Eduardo namoram? – Quis saber, com voz baixa e de forma um tanto prudente.

____Não ! Somos amigos, ainda, Acho! ... Até há alguns dias, ele andava distante. Eu lhe atingi em cheio, uma ferida . Toquei Concerto Pour Elle ao piano! - segredou, baixando a voz.

____Ah! Então descobriu da pior forma um dos tabus da Quinta das Artes? - riu-se Tânia.____É, acho mesmo que você o espantou em cheio. Os Além Tejo possuem um trauma misterioso a respeito desta bela melodia. Uma bela melodia, mas nem tão rara assim. Existem outras mais complexas e preciosas, mas quando o assunto é o “Pour Elle”, o céu desaba....

Isa reclinou-se melhor em sua cama.

_____conte mais!

Tânia não se fez de rogada.

_____Você tocou na Síndrome dos Além Tejos.! este tabu, vem da época do grande incêndio que destruiu a casa no alto da rocha mestra, batizada como Hélicon. Mestra Norayeva salvou a si e aos pupilos. O Eduardo III, pai de Eduardo e Alexa, morreu queimado. Madame Lara de Além Tejo, escapou como por milagre, mas ficou irreversivelmente mutilada.

____Que tipo de mutilação?

____Ninguém sabe. E se sabem, não dizem. Desde então, ela se fez reclusa no Ninho, depois que o mandou reconstruir. Governa através da fiel Norayeva. Acho que não deve ter sido uma mutilação qualquer. Imagine você que uma mulher de beleza fantástica, como contam os mais antigos moradores da cidadela no sopé do Vale Dourado, ter seu corpo submetido ao fogo? Mas não é preciso ter muita imaginação para saber no que se tornou !!!

_____Decerto, um monstro!

_____É, e este monstro, dizem que anda sorrateiramente pela escuridão da Quinta.

Os pelos do braço de Isabelle se arrepiaram.

_____E a verdade é que nem mais aos filhos, ela se apresenta. Quando aparece, está sempre totalmente coberta com uma capa e capuz. Dizem que Alexa é o que é pois não teve o amor de pai nem o da mãe. Foi uma criança solitária, sem parâmetros e com uma mágoa intensa no peito. Já Eduardo, este é sensível e adorado por todos.

Tânia, enquanto relatava as lendas que pairavam sobre a Quinta, mostrava à Isabelle os objetos sobre a mesa.

____Um metrônomo novo ! – presente da Maria Clara, sua colega de quarto.

____Várias partituras. São de seus colegas das aulas de piano. Algumas parecem ser velhas relíquias. Aqui tem um grande envelope lacrado.____Olhe ! o Concerto para uma só voz !. É uma melodia muito semelhante ao acorde proibido. Podes praticar, se gostas tanto do estilo.

____É ! vou praticar, quando puder._____Mas e este envelope lacrado aí? Abra para mim...

Tânia abriu e deparou-se com outra partitura, porém, esta era manuscrita e tinha um título, feito em belos grafismos.

____Impromptu ! Que relíquia! O Impromptu de Saint-Preux manuscrito !

____Quem o remeteu?

____Não tem nada no envelope ou dentro dele. Misterioso.

____E este tal , Impromptu é assim tão importante?

____Pra dizer a verdade, caríssima, sei de poucas pessoas capazes de executa-lo com arte e maestria. Os musicistas, em sua maioria, se possuem talento, ou se tornam magníficos técnicos, como Franz Liszt, ou em apaixonados intérpretes, tal como Frederic Chopin. As duas correntes, são muito bem aceitas entre os músicos, porém, se alguém, desenvolver, simetricamente, tanto a técnica complexa e a interpretação apaixonada, este é considerado o melhor de todos. Esta peça, o Impromptu exige muita técnica e interpretação. Portanto é considerada um grande desafio .

Isabelle reclinou-se para frente e apanhou o Impromptus.

_____Quem sabe se eu praticar bastante.

Tânia sorriu. Achou que Isa não fazia idéia do desafio. Era apenas uma primeiro anista que tinha o hábito de tocar músicas, de ouvido.

____Tudo bem!, você poderá tentar.

_____Quem o deu para você, ou acredita muito em seu talento, ou quer ridiculariza-la. – concluiu para si, Tânia.



A MUSA DE PEDRA


No pátio interno do Bloco 09 ( todos eram edificados como se fossem um gigantesco triângulo, onde ao centro, o imenso pátio interno possuía uma fonte, vários bancos e jardins com o calçamento de pedra, formando desenhos geométricos). Isabelle e Tânia, aproximaram-se para que Isa pudesse tomar seu salutar banho de sol matutino.

Escolheram um banco, de onde poderiam tomar sol e conversar sem serem incomodadas.

_____Não me disse se tem namorado ! – inquiriu, Tânia.____Você e Eduardo estão namorando?

Isabelle pensou rápido. Tivera muitos namoricos. Coisa de mãozinha dada e só. Possuía tamanha obsessão pela música que nunca permitiu realmente que os rapazes se aproximassem.

_____Não ! não namoramos. Apenas trocamos idéias e ele, como você, é um excelente parceiro de prosa...

Silêncio denso entre as duas.

_____Ai se ela descobre que estou há semanas de completar 18 anos e sou totalmente virgem, certamente contará para todo o colégio. – pensou Isa, preocupada. E havia ainda, a ser considerado que, determinantemente, Tânia era perdidamente apaixonada por Eduardo. Estava lhe escrito na testa. Isa não desejava magoá-la. Esta demonstrara ser uma excelente companheira e Eduardo, nunca significara para Isa, algo mais do que um amigo atencioso e protetor.

Mudaram o assunto. Tânia, certamente mais aliviada, narrava eloqüentemente tudo que sabia sobre o local e suas peculiaridades. Enquanto conversavam, a companheira examinou-lhe os ombros e costas lanhadas, qual um jogo de xadrez.

____Tem um cravo aqui ! Posso tirá-lo?

_____Vai em frente! Não gosto de nenhum hóspede aproveitador de peles desavisadas.

Tânia cutucou cuidadosamente com a unha a pele lisa e dourada de Isabelle, cuidando para não deixar nenhuma lesão, apesar dos arranhões por toda sua extensão.

Um barulho seco, chamou atenção das duas à tempo de verem Alexa que no segundo piso, mantinha os olhos fixos nelas e depois, percebendo que fora vista, desceu furiosamente as escadarias, açoitando com seu chicotinho de montaria os pilares e paredes.

Já no pátio, encarou as duas com sua conhecida expressão de desprezo. Tchay, seu cão Labrador caramelo, aproximou-se da dona, abanando a cauda contentíssimo. Alexa virou-lhe o chicote no focinho e este ganiu magoado, fugindo, sendo prontamente seguida pela moça, que estava vestida para montaria.

_____Isso é um absurdo! Ela bateu no animal sem motivo algum! – indignou-se Isabelle.

_____Acho estranho ! As únicas criaturas viventes que Alexa parece gostar e respeitar são os animais.

_____Uma forma de amar muito incomum.

_____Nunca a vi maltratando os animais. Vou anotar isso no meu caderno para utiliza-lo em meu projeto.

_____Parece conhecer bem a família Além Tejo.

_____É que estou aqui há mais tempo do que você e como já disse, estou escrevendo sobre eles.

_____Conte-me algo sobre seu projeto ! Estou curiosa.

_____Bom, À respeito de Alexandra de Além Tejo, eu a chamo pelo pseudômino, de A Musa de Pedra. Ela é o sonho dourado da maioria dos rapazes daqui. É bela e rica e até namorou alguns.

_____Alexa namorando?

_____Se bem que não dá para chamar de namoro o que ela aprontava com seus ardorosos pretendentes. Dizem as fofoqueiras de plantão, que a um ela o fez tirar toda a roupa, na promessa de que faria amor com ele. Isso lá no vale, onde existem várias cachoeiras maravilhosas. Foi só o rapaz ficar nuzinho em pêlo e ela lançou-o e o amarrou a uma arvore. Ele ficou por lá metade de um dia.

_____Outro, ela o atacou de unhas e dentes como um tigre. Marcou seu pescoço com seus lábios. O rapaz ficou com marcas roxas dos chupões que ela lhe deu por várias de semanas.

_____Isto é obsceno.

Tânia riu.

_____Tem mais outros “causos” que a turma conta, mas o que eu mais aprecio é o que lhe justifica o apelido.

_____Estou ouvindo!

_____Vou começar pelo chavão mais conhecido. ____Conta a Lenda, que nos primórdios desta escola de arte, um jovem e talentoso escultor, idealizou o que era para si, a mulher ideal. Trabalhou, como Miguelangelo, por anos a fio em sua obra, até que a terminou. Ele a esculpiu no mais fino mármore de Carrara. Como foi bem à noitinha que deu a última cinzelada, esperou que amanhecesse e a luz mágica da manhã entrasse no estúdio e desnudasse as formas harmônicas de sua obra. E assim fez, até que ao amanhecer, ele a viu em toda sua grandeza e beleza e apaixonou-se perdidamente, como na estória do Narciso. Bom, o certo é que ele, desesperado, implorou às supremas forças do universo que lhe retirassem a vida e a desse à sua musa de pedra e foi atendido. Daí, nasceu Alexa, que passa boa parte de seu tempo em algum estúdio de escultura, esculpindo na argila e esmiuçando em pedaços as obras que já fez, ao menor arroubo de ira. É claro que esta último parte não é lenda.

______Um relato tocante... – confessou Isabelle, a contragosto.

______E quanto à Misteriosa Lara? Sabe que o Concerto Pour Elle é uma obra para piano e voz? Há 20 anos atrás, a Senhora de Além Tejo, viajava o mundo com sua orquestra. Foi uma cantora lírica das mais famosas e consagradas. Sua obra que mais a eternizou foi a interpretação do tal Concerto que hoje é tabu aqui na Quinta. Dizem os velhos da cidadela, que com o incêndio, Lara, além de mutilada, danificou suas cordas vocais.

_____Isso também é lenda?

_____Não ! isso foi verdade ! Tem até discos dela, uma raridade na praça pois os que haviam na região, ela os fez comprar e os queimou.

____Talvez esteja aí, o início do tabu contra o tal Acorde proibido!

____É bem possível! – concordou Tânia, que pareceu lembrar-se de algo muito importante:

_____Sabia que Eduardo herdou o talento vocal da mãe?

_____Não !

_____Você nunca o ouviu cantar? – perguntou Tânia, enrugando novamente a testa.

_____Não tive a oportunidade...

_____Se o ouvisses cantar, o que é muito raro, certamente estarias hoje, loucamente apaixonada por ele. Admira-me que ele já não o tivesse feito.

_____E porque ele desejaria seduzir uma moça modesta e caipira como eu?

_____ora, pequena, certamente os Além Tejos, artistas fervorosos como são, reconheceram em você um grande potencial artístico. Eles não são generosos ao ponto de te manter aqui, apenas pelo seu charme pantaneiro e sua beleza exótica.

O sol se pôs completamente.

_____Tchau ! preciso ir até a biblioteca fazer uma pesquisa. Volte para seu quarto e descanse ! – despediu-se Tânia.

_____Tudo bem ! ____Cuide-se ! Tome cuidado para não dar de cara com a Musa de Pedra.

_____Alexa? Ora, já me acostumei com o temperamento dela. É só não enfrenta-la ou desafia-la e tudo bem. Até hoje nunca tive problemas.


Naquela noite, não se ocasionado por tudo que Tânia lhe contara, Isabelle foi se deitar com o coração opresso. Algo martelava dentro de si. Dormiu imediatamente, tão logo se acomodou, nua sob os lençóis. Os janelões de seu quarto, estavam abertos, e a luz do luar se infiltrava. Isabelle, a certo momento da noite, acordou abruptamente. Sentia todo seu corpo vibrar. O luar lhe incidia em cheio sobre a cadeira, no meio do quarto. Sentada nela, a imagem de Alexa foi se materializando. Tinha os olhos fechados, como se em êxtase. Os lábios entreabertos se moviam como a recitar um poema. Em sua mão, o arco, e entre suas pernas, o belo violoncelo. Isabelle já estava para lá de perturbada. Até o som do instrumento, agora podia ouvir.

Levantou-se e caminhou em direção àquela miragem. Tentou em vão toca-la e seu movimento se estacou quando esta, abriu seus enormes olhos. Não havia neles mais o cinismo o desprezo, tão seus conhecidos. Havia uma expressão de dor contida. Um quase desespero. A aparição levantou-se e estendeu-lhe a mão: ____Ressuscita-me ! Isa... Pediu. Isabelle afastou-se emocionada.

_____Beije-me ! Isa...

_____Não ! não! Não ! Isabelle, gritou sem que a voz lhe saísse da garganta.

Alexa desapareceu, tão rapidamente quanto se materializou. Isa despencou sobre si, a um canto escuro do quarto e ali ficou, com o peito cheio de sentimentos ambíguos e desconhecidos. Sentia uma angústia intensa, ao mesmo tempo que era como se todos os sinos do universo badalassem nos arrufos da mais intensa felicidade.

Amanheceu, e ela, ainda encolhida a um canto, não conseguia se livrar do seu torpor. Até que...

______Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Um berro de horror ecoou pelos corredores.

Isa, ainda teve a sensatez de apanhar um lençol, onde enrolando-se, saiu apressada pelos corredores em busca da origem do grito. Encontrou Tânia, fora de seu quarto, colada na parede oposta à porta.

Outras meninas apareciam, vestidas em seus roupões.

_____Tem uma serpente na minha cama! Ela se enrolou nas minhas pernas...
-soluçou Tânia.

Ninguém ousava enfrentar o bicho, até que apareceu Sara, a inspetora das moças.

_____É a jibóia de senhorita Alexa.

_____Um bichinho tão encantador, tinha que ser da senhorita Alexa ! - ironizou uma das alunas.

E por falar nela, esta entra em seus passos aristocráticos e postura soberana. Já estava vestida em sua roupa de montaria, com botas até os joelhos.

_____Venha Zimmer ! Aqui não tem nenhum ratinho para você ! Talvez algumas ratinhas, de pelo dourado !!! Mas estas não. Estas, deves evitar... Causam indigestão.

Isabela entendeu cada palavra, cada insinuação de Alexa e sentiu desejo de joga-la, juntamente com sua serpente, janelão abaixo. Conteve-se.
C
ertamente esta era mais uma provocação. Imagine ! Chamar o serpente de Zimmer. E comparar a si, como uma ratinha de pelo dourado.

_____Esta mulher me odeia ! – pensou, enquanto esta se retirava com a serpente no colo. Ao passar por Isabelle, Alexa parou e olhou-a nos olhos. A ultima provocação. Isabelle tentava conter-se. Já fora avisada por Mestra Norayeva de que estava em convalescença e também em suspensão, por castigo da última proeza que fizera. Se Isa se metesse em encrencas por aqueles dias, poderia ser expulsa.

Mas o olhar de Alexa, não era o mesmo. Tinha algo misterioso e profundo. Já não conseguia mais arquear seus lábios sensuais e semelhantes à cerejas, no esgar de desprezo, costumeiro. As asas muito delicadas de suas narinas, se dilataram como se pudessem sentir no ar, algo especial, como o “Bouquet” de uma bebida rara e preciosa.

Sem saber como, Isabelle entendeu o que acontecia. Alexa aspirava no ar, o cheiro almiscarado de seu sexo, que de tão imerso em seus fluidos de mulher, molhava-lhe as faces internas das coxas. Ao mesmo tempo em que se sentia nua e a descoberto, Isa entendeu finalmente a razão particular de tanta animosidade que a Além Tejo lhe dedicava: _____Desejava-a...

Os olhos de Alexa abriram-se como duas intensas luzes em ebulição. Percebera tarde que fora descoberta. Voltou-se para a porta e desapareceu a um piscar de olhos.

Imagens começaram a desfilar diante de Isa. A imagem de um quarto à meia-luz e Alexa nua, linda, enlouquecida, tremendo convulsivamente, enquanto o prazer lhe sacudia o corpo como se fosse parti-lo. Lembrou-se de sua queda. Viu diante de si o rosto crispado de sofrimento de Alexa que lhe sussurava:____Meu amor, meu amor, não me deixe, não me abandone. .. Enquanto soluçava.

Tânia interrompeu o enleio de Isa.

____Ela nunca me molestou! Ela deve estar louca ! Colocar uma Jibóia na minha cama! Queria vingar-se. O que fiz para merecer isso?

____Nada ! apenas tocou-me ontem no pátio e ela não poderia perdoa-la por isso. Ela, até hoje nunca havia te molestado porque não te ama! – pensou Isa, com o coração mergulhando em um estado embriagues. Determinantemente, para ela, nada mais seria como antes.

Depois daquela manhã, as horas passavam, os dias transformavam-se em noites e Isabelle somente tinha um desejo: Ver Alexa. Encontra-la...Mas esta desapareceu como mágica. Isa, tentava manter a lucidez e estando impedida de assistir as aulas, passou a praticar febrilmente suas partituras, nos pianos que encontrava em salas vazias. Eduardo procurou-a e ao vê-lo diante de si, ela baixou os olhos e se esquivou silenciosa. O rapaz não quis importuna-la e se afastou acabrunhado.
E assim ficou Isa. Dias esperando. Dias sem se alimentar de forma adequada, banhar-se ou mesmo, noites inteiras sem dormir. O piano velho que encontrara em um canto esquecido de um velho depósito, lhe era o único companheiro, a quem derramava suas lágrimas e dedilhava-lhe seus lamentos. Sabia que não poderia mais ser feliz enquanto não a encontrasse, enquanto não lhe falasse. Havia tantas perguntas sem respostas...
Estacou. Decidiu-se que não poderia mais ficar naquela angústia, naquela dor e prazer que a consumia aos poucos e estava roubando-lhe suas forças.
Saiu e foi até onde Vulcano descansava. Montou-o no pelo e o conduziu através de sinuosas alamedas e arvoredos até que encontrou aquele bloco monumental, austero que ela sabia ser a Ala dos Escultores.
Era período do almoço e Isa pode caminhar pelos extensos corredores sem ser importunada. Guiava-se naquele labirinto por instinto. Subiu uma gigantesca escadaria em caracol e deparou-se na entrada de um imenso estúdio, onde inúmeras estátuas se enfileiravam como se fossem convivas em um salão de festa. Isabelle percebeu o talento apurado e a beleza harmônica dos corpos semi-nus. Todos eram imagens de heróis mitológicos e estranhamente não se podia encontrar uma só imagem que retratasse uma mulher. Isa avistou, enfim a silhueta de Alexa, que vestida em um roupão de seda carmim, jazia adormecida, com o corpo languidamente debruçado em uma cama romana revestida de veludo. Ao seu lado, um enorme pedaço de mármore rosado de aproximadamente 3 metros de altura.
Aproximou-se silenciosamente e pode ver na mesa ao seu lado, vários desenhos e esboços do que a jovem escultora estava idealizando. Eram a silhueta de uma mulher nua, em pé, que amparava ao encontro de si, outra que se encontrava aos seus pés, abraçada com ânsia às suas coxas. Reconheceu a si, naquela que soberana recebia o abraço sensual e em Alexa, a que estava a seus pés. O esboço estava quase pronto. Haviam centenas de pequenos detalhes. Havia muita paixão e ardor na imagem retratada.
Isa não ousava mover-se com medo de romper aquele momento único em sua vida. Alexa despertou e a olhou com o rosto contraído. Parecia prestes a fugir e Isa decidiu-se que não mais a deixaria antes que pudesse ao menos lhe falar o que sentia.
_____Esperei a luz da manhã! É necessário que, esta ao se filtrarem na rocha, desnudem as pequenas bolhas e fissuras internas que são pequenas armadilhas que podem destruir uma obra semi-acabada. – Disse Alexa, com os olhos fixos em um ponto imaginário.
_____Preciso lhe falar ! – começou, Isa...
_____É muito difícil retratar o corpo feminino na rocha ! É necessário que não se perca a rota das linhas da graça e beleza – continuou Alexa.
_____Eu não posso mais levar dentro do peito o que estou sentindo ! preciso lhe falar ! há dias que a procuro em vão...
Alexa levantou-se e abraçou febrilmente a rocha, acariciando-a.
Isabelle sentiu seu distanciamento e não suportou ser desprezada. Não depois que descobrira tudo...
Retirou sua camiseta e aproximou-se lentamente até tocar-lhe as costas com os seios pequenos e firmes.
Alexa tremeu e voltando-se para Isa, mantinha-se ainda encostada no bloco de mármore como um animal encurralado.
Isa apanhou-lhe a mão, de dedos longos e macios e a conduziu até seu seio. Ao toque, não conteve um suspiro longo e profundo. Alexa cerrou os olhos e passou a percorrer a silhueta de Isabelle com suas mãos habilidosas. Sentia cada ponto, com intensidade e paixão. Isabelle desabotoou suas calças. Tirou-as a um movimento. Seu sexo já estava inundado com seu desejo.
Novamente as narinas de Alexa reagiram ao cheiro de seu sexo e ela finalmente abriu seus olhos, que antes eram detentores de tanta frieza e agora estavam mareados de paixão e desejo. Isabelle sentiu-se recuar, ao constatar o quanto Alexa era atraente e bela. Sentiu-se como se não lhe merecesse nem ao menos seu olhar sedento de amor. Sim, ela reconheceu que Alexa precisava desesperadamente de seu amor.
Tocou-lhe , com as duas mãos, a face de maçãs proeminentes e coradas. Tocou-lhe o “v” mágico que lhe ornava, qual tiara, a fronte altiva.
_____O que deseja de mim? – perguntou com a voz enrouquecida pela emoção.
_____ Quero a tua primeira vez, de mulher !
Isabelle enrusbeceu-se.
_____Quero seu primeiro beijo. Quero que gozes em meus lábios, quero que se tornes mulher, por meu intermédio. Em meus braços...
Como Alexa podia saber tanto? Como podia saber que nunca fora tocada de forma íntima por ninguém, antes? Que nunca fizera amor ou ao menos beijara com paixão?
Sim ! Se ela era capaz de sentir os eflúvios de seu corpo quando transbordava, também poderia lhe desnudar seu segredo !
Isa colou seu corpo nu em Alexa, já enlouquecida pelo desejo e querendo dar a ela o que desejava. Segurou-lhe o rosto magnífico em suas mãos e passou a sugar-lhe os lábios com sofreguidão. Não podia deixar de sentir-lhe o sabor delicioso da boca, as sensações novas e mágicas que tê-la presa a si, lhe proporcionava. Em êxtase, conduziu o rosto de sua jovem amante para seu pescoço desnudo, até que lhe alcançando a base, entregou-se e deitou-se ao chão, agoniada em seu desejo, forçando o corpo de Alexa, até que este desabasse sobre o seu. Esta se deixou ficar sobre Isabelle por um momento. Seu roupão abrira-se na altura dos seus seios, e estes se uniram .
Mas algo aconteceu. Alexa levantou-se em um movimento felino e desapareceu nas sombras do estúdio.
Isa não acreditava que ela tivera a coragem de a abandonar. Não naquele momento em que se entregara totalmente.
Sentou-se, perdida, a cabeça em maresia. Seu tesão consumindo-a internamente. Sentiu-se traída, enganada. Alexa brincara com seu amor, desdenhara de seu sentimento. Nunca poderia compreender-lhe o gesto. Nada mais fazia o menor sentido.
Sua dor lhe sobreveio forte, como garras rasgando a carne. Havia sido rejeitada e não tinha forças para enfrentar isso.
Saiu em desespero, vagando nua pelos corredores.

Dentro de si a convicção: Seu desejo e seu amor estancaram-se e ela jamais permitiria que a tocassem.


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