Aquela
manhã poderia ter se iniciado como todas as outras, se não
fosse a presença em minha frente daquela pequena criatura linda
como um quadro de Renoir, tão miúda que aparentava ter
apenas alguns centímetros a mais do que sua grande sacola de
material de pintura. Eu poderia compará-la, sem exageros como
um raio de luz. Os cabelos loiros de tons dourados, os enormes olhos
azuis profundos que quase lhe tomavam todo o rosto oval e a pequena
e delicada boca carmim em formato de coração e de aspecto
como o de uma pétala de rosa.
Eu
tinha acabado de completar 17 anos e já estava trabalhando
como professora de pintura em tela e desenho há um ano naquela
Galeria de Arte. Haviam muitos alunos e eles se revezavam em turmas
de seis por turno matutino e seis por turno vespertino.
Karim
entrou, com passinhos incertos e os olhinhos ainda sonolentos. Certamente
fora retirada da cama muito cedo e mal conseguia arrastar sua sacola
de material. As mãozinhas minúsculas e redondas, torciam-se
nervosamente enquanto aguardava que eu me manifestasse.
À
princípio não acreditei naquela visão. Havia
uma norma na Galeria em que eu teria que avaliar candidatos ao estudo
de pintura em tela, principalmente os muito novos pois, certamente
não possuiriam qualquer coordenação motora, o
que dificultaria a aprendizagem. Karim tinha apenas 5 anos. A dona
da Galeria apareceu exultante.
______Stelle, esta é sua nova aluna. Começa hoje!
Eu a olhei com cara de interrogação, ao que ela percebeu
o motivo do meu embaraço.
______Eu a avaliei ontem. É muito talentosa e desenha muito
bem! Aceitei a inscrição dela!
A pequena criatura, remexeu nos seus papéis dentro da sacola
e me estendeu vários desenhos, como se apresentasse um passaporte
no aeroporto. Não acreditei no que vi. Eram cavalos alados,
ninfas, fadas e sereias, perfeitamente desenhados em grafite e coloridos
no lápis de cor.
Assenti finalmente e fui arranjar o cavalete e o banco da minha nova
aluna, ainda meio insegura, pois reconheci o talento fabuloso daquele
pequeno ser, porém sabia que uma coisa era desenhar em "ponta
seca" e outra era Ter coordenação motora suficiente
para manipular o pincel.
Cavalete
a postos e aquela banqueta enorme que mais parecia a Torre Eiffel
(isso na visão da pequena). Abri os braços e tentei
apanhá-la no colo e iça-la para a banqueta. A pequena
fechou a cara e disse:
_____Não! Eu subo sozinha!
E assim fez, escalando pelas travas da perna da banqueta e se equilibrando
ali, com as perninhas suspensas no ar.
Percebi que além de talentosa, minha aluninha tinha muita personalidade
e que na cabecinha dela, ter que ser ajudada para subir no banco,
era uma espécie de humilhação. Controlei-me para
nunca mais tentar auxiliá-la naquilo.
Ao longo da aula, eu explicava como ela deveria esboçar o desenho
na tela e o passo a passo para se iniciar um quadro.
_____Precisa pintar o que há mais distante e ir se aproximando.
Tipo: ____Nesta paisagem, pintará primeiro o céu, depois
evoluirá para as montanhas lá no horizonte e assim virá
se aproximando até chegar na figura do primeiro plano, ok?
_____Sim! - respondeu ela, muito séria e compenetrada.
No
primeiro dia teve muita dificuldade para controlar o pincel. Sua mãozinha
miúda tremia pois não tinha onde se apoiar e o pêlo
macio do pincel se vergava. Seus olhos azuis estavam cheios de medo,
ansiedade e expectativa. Percebi que temia fracassar em seu sonho
e sabia também que eu a estava avaliando, pois se percebesse
que não poderia continuar, eu aconselharia à mãe
dela, trazê-la só dali há um ano, ou mais.
_____Apoie a mão na tela com o dedo mindinho... verá
que vai melhorar! - sugeri.
Ao fim da aula, lá estava ela toda contente pois conseguira
pintar um céu muito azul com nuvens muito brancas. Eu a olhava
ainda muito impressionada pelo talento trasbordante daquele pequenino
ser.
Acomodei a tela dela em um pequeno quarto de pinturas e fui recolhendo
os cavaletes e banquetas da galeria e guardando-os. Um a um os outros
alunos foram se despedindo e saindo. Apenas aquele raio de luz foi
ficando, sentadinha em um desnível de uma ala da galeria para
a outra, enquanto esperava que sua mão aparecesse para buscá-la.
Continuei atarefada, desmontando o estúdio pois tinha pressa
para almoçar e quando passei apressada perto dela, saí
tropeçando e quase caí. Motivo? O anjinho havia estendido
o pezinho, na minha frente e quase me derruba. Nesse exato momento
a mãe dela entra e vê a cena. Mãe e filha se encaram
e Karim sai arrastando sua sacola com a cabeça baixa. A mãe,
sem graça, desculpa-se:
______Ela tem essa mania! Se gosta de você, fica assim, meio
que te dando rasteiras, machucando! Não faz por mal...
______Ah! Entendi! Isso quer dizer que ela gostou de mim?
______É... pelo jeito dela, acho que gostou! - respondeu a
mulher, enquanto acomodava a filha no banco de trás do carro,
junto à calçada.
______Então tá! - Respondi e dei tchauzinho para a peralta.
Ela continuou com os olhos baixos até o carro sumir na esquina.
As
aulas que se seguiram foram deliciosas manhãs, onde a cada
passo, minha aluninha se revelava um gênio e me surpreendia
com sua capacidade de "ver" as cores e decodificá-las
na tela. Às vezes, ao ver aquela criatura tão bonita
e de olhos muitos meigos em minha frente, não me continha e
lhe acariciava os cabelos, o que era recebida com um ar feroz, pois
acabei descobrindo, por intuição, que ela não
admitia ser tratada como criança e sim de igual para igual
.
Os
dias foram passando e minha aluna, muito séria e tímida,
aos poucos foi se soltando. Agora sorria, cantarolava músicas
e até aceitava que eu lhe fizesse um carinho, pois não
havia uma viva alma na galeria que não passasse por ela e quisesse
lhe afagar os cabelos ou o rosto. Eu a acompanhava nos minutos que
tinha que ficar esperando pela mãe e conversávamos sentadas
no desnível do piso, sobre arte, luz, sombra e cor. Tudo que
ela ouvia, assimilava e aprendia rapidez . Estava encantada com minha
aluna e ela fascinada por mim. Sua mãe comentou que a pequena
havia até mudado de comportamento. Estava se alimentando melhor
(ela tinha aquela idade em que criança não gosta de
comer) e se aplicando mais na escola, pois essa foi a condição
exigida pelos pais, para que ela pudesse continuar a estudar pintura.
E haviam também as tardes passadas nas exposições
de arte, onde ela se sentava ao meu lado e se aninhava junto ao meu
corpo, enlaçada no meu braço. Tornou-se a mascote da
turma de artistas plásticos e tinha consciência de seu
talento e importância no grupo.
Porém, ao fim do ano, veio me avisar que iria entrar em férias
com a família e viajaria para o Paraná, mas que voltaria
para as aulas no início do próximo ano. No fim da aula,
despedimo-nos e ela deixou finalmente que eu a apanhasse no colo e
a beijasse. Foi a última vez que a vi, com 5 anos. Eu, naquele
período, recebi uma proposta irrecusável para trabalhar
em um estúdio de artes em uma agência publicitária
e aceitei. Outro professor foi contratado para me substituir. Soube
que Karim, ao voltar das férias, não aceitou o outro
professor e simplesmente parou de estudar desenho e pintura.
Descobri isso, três anos mais tarde, quando em certo dia, fui
ao teatro Municipal assistir a um recital do conservatório
de música onde uma amiga minha estudava piano.
Procurei um lugar para me sentar e para minha surpresa havia um ao
lado dos pais da Karim. A mãe, de aparência muito pomposa,
me olhou com um certo ar de reprovação e não
perdeu tempo em me contar detalhadamente que a filha caçula,
quando soube que eu havia saído da galeria de arte, não
só não quis voltar a estudar pintura, como passou uma
semana ardendo em febre e chorando. Meu coração ficou
opresso. Não imaginava que aquela criança estivesse
tão apegada a mim. Ao ver minha expressão, a mãe
de certa forma tentou amenizar o impacto, dizendo que a filha era
muito sensível e de algum modo havia se sentido abandonada,
mas que agora ela estava bem melhor e estudando música, tanto
que ali estavam para ouvi-la tocar o piano. Eu me sentia tão
acabrunhada e atordoada que nada mais fiz, além de cumprimentar
os pais, pela filha talentosa que eles tinham e ficar silenciosa,
esperando que os alunos do conservatório de música,
um a um apresentasse suas peças. Então eu a vi, bem
mais crescida e rosada, entrar no palco e sentar-se séria ao
piano , tocando uma singela valsa. Fiquei emocionada, afinal ela havia
direcionado o seu talento para outro curso, mas não o tinha
abandonado. No fim do evento, saí no meio da multidão
e em dado momento, um esbarrão. Depois uma cotovelada. Olhei
ao lado, para o meio de tanta gente fluindo nos corredores e pude
ver uma cabecinha loura com olhos azuis desafiadores. Continuei a
andar. Na escadaria, ela me esbarrou novamente com força e
eu quase rolei escada abaixo, pois estava de salto alto. Agarrei-me
como pude no corrimão e apenas a vi, correndo no meio de vários
coleguinhas da sua idade.
Mas a flagelação não parou por aí. Toda
oportunidade que eu ia no teatro assistir a um recital, podia saber
que seria atacada por uma capeta loira que insistia em me arranhar,
abalroar e dar rasteiras, aproveitando-se da multidão.
Passaram-se
mais dois anos e certo dia, eu estava no casamento desta minha amiga
que estudava no conservatório, quando vejo a peralta loira
se aproximando de mim. Vestia um vestido com detalhes rosa e azul
e nos cabelos lisos, havia uma tiara . Preparei-me para o ataque feroz
e agora mais perigoso pois ela já estava bem crescidinha.
______Vai me derrubar andar abaixo ! - pensei, já me agarrando
no parapeito da galeria na igreja.
Aproximou-se andando com firmeza. Parou muito quieta na minha frente
e me cravou aqueles olhos azuis intensos. Continuava linda e agora
tinha algumas sardas no rosto, que quebravam um pouco sua expressão
muito séria. Não disse nada. Apenas estendeu-me a mão.
Eu a tomei, meio desconfiada, pensando ser algum truque, mas percebi
que ela a dera, com sinceridade.
Apertou-me a mão e foi-se embora sem olhar para trás.
Na hora eu não entendi ao certo o significado de tudo aquilo,
mas depois em casa, refletindo, percebi que naquele gesto, ela queria
dizer que finalmente conseguira me perdoar por tê-la abandonado
e sagrava daquela forma nosso acordo de paz.
E assim foi. Não mais me perturbou ou molestou, e eu por conta
do trabalho, também parei de freqüentar os concertos por
um período de sete anos.
Mas
o que eu não poderia jamais imaginar é que o destino
me reservava uma grande surpresa.
Certa tarde de domingo, fui convidada para um churrasco de confraternização
do pessoal da escola de música em uma chácara. Cheguei
pelo meio dia, pois demorei a encontrar o caminho de tal lugar. Já
estavam servindo o churrasco e uma garotada muito jovem e bonita,
jogava voley na quadra próxima. Sentei-me, toda de short e
camiseta, na mureta próxima e comecei a assistir ao jogo com
interesse.
Ao meu lado, havia um grande tambor com gelo, onde as latinhas de
refrigerantes e copos d'água mineral, ficavam imersas e os
atletas e convivas, volta e meia vinham ali apanhar uma. Reparei que
certa jogadora, muito bonita e alta, me cravava os olhos azuis intensos,
toda vez que vinha apanhar um refrigerante. Fiquei um tanto embaraçada,
pois na época já me relacionava com garotas e não
conseguia ficar indiferente à beleza e juventude daquela atleta
loira. Em dado momento, ela demorou-se mexendo no tambor, me encarando
com aqueles olhos adornados de cílios dourados.
______Karim! Pára de beber água e vem jogar! - gritou
um colega do time!
Meu coração disparou. Reconheci minha pequena Karim,
transformada naquela jovem alta, esguia e de pele dourada de sol.
Todo o passado desfilou em meus olhos, desde o primeiro dia de aula,
quando a vi, tão pequenina, quase sem forças para falar,
de tão franzina.
Ela percebeu que eu a reconheci enfim e voltou para a quadra com um
sorriso enigmático. Dalí em diante, jogava com energia,
não perdendo uma só oportunidade de mostrar-se. Fazia
pose, jogava-se sobre a bola como uma pantera e subia na rede com
um impulso fantástico, mostrando-me toda a pujança de
seus dezoito anos. Eu não conseguia tirar os olhos dela e ela
percebeu isso. Saí do local e fui espairecer na beira da piscina.
Minha cabeça girava. Tudo me parecia improvável e absurdo.
Um barulho de alguém caindo na água. Era ela. Agora
vestia um biquíni minúsculo e nadava graciosamente.
Um rapaz pulou logo em seguida e tentava abraçá-la e
beijá-la na piscina. Meu coração se encheu de
ciúmes e saí dali e para caminhar por entre o arvoredo
da chácara, tentando assim, infrutiferamente ordenar meus pensamentos.
Entrei em um arvoredo denso de antigos eucaliptos. Sentei-me na raiz
enorme de uma árvore e fiquei ali, não sei quanto tempo,
perdida em meus pensamentos. Um certo estalido de folhas secas se
partindo me chamou a atenção. Karim estava na minha
frente, me olhando meticulosamente com os olhos perscrutadores. Ali
naquele local, ela se parecia com uma ninfa ou mesmo uma fada saída
dos contos...
_____Você não mudou nada! Stelle! - disse-me ela.
_____E você, mudou tanto que não a reconheci! - afirmei.
_____Tenho 18 anos. Sou moça feita!
_____Eu percebi!
_____Agora podemos ser amigas?
_____Claro! Sempre poderemos ser amigas. Eu te estimo e considero
muito!
Ela me fixou o olhar, com uma expressão de dor.
_____Não! Você nunca gostou de mim. Se gostasse não
me abandonaria!
_____Está enganada! Eu não sabia que você se magoaria
tanto, era tão pequena... não pensei que fosse assim
tão importante para você...
_____Você não sabe o quanto!
Sua voz estava rouca e dos seus olhos escorriam lágrimas.
Levantei-me e a abracei.
_____Perdoa-me! Eu não sabia que tinha te magoado...eu juro
que se pudesse voltar o tempo, ao menos esperaria que você retornasse
das férias e conversaríamos.
_____Você foi embora! Nem ao menos se despediu de mim! - gritou.
Depois, me abraçou forte e chorou convulsamente. Parecia querer
derramar doze anos de mágoa e dor. Eu não sabia o que
fazer ou dizer. Para mim o que estava acontecendo era tudo muito estranho
e inusitado. Não estava preparada para aquele encontro com
o passado.
_____Eu lamento que tenha abandonado o desenho e a pintura... é
muito talentosa...
_____Estou estudando piano! Tenho me saído bem. No ano que
vem vou estudar música na França! Ganhei uma bolsa de
estudos.
_____Parabéns! - disse, embaraçada porque ela insistia
em continuar me abraçando e naquele exato momento, passou a
beijar carinhosamente meu pescoço.
_____Não faça isso , Karim... nós não
podemos!
_____Vai me rejeitar novamente? Esperei anos por esse momento... Agora
não sou mais uma criança...
_____Eu tenho trinta anos! - argumentei.
_____E eu te amo!... amo! Nunca esqueci de ti, nunca! Esperei tanto
por esse dia e não vou deixá-la me escapar novamente!
Ela me abraçou com mais força, enquanto suas mãos
longas me acariciavam as costas e a nuca e enfim, calou-me com seus
lábios úmidos e macios.
Sim, eu pude perceber que alí na minha frente, nada mais havia
daquele pequeno raio de luz, que certa manhã entrou na galeria.
Agora havia uma jovem fêmea e sua saliva, seu hálito
e suas carícias, revelavam que além de ter alcançado
o pleno desenvolvimento físico, já estava pronta para
o amor.
______Eu sou virgem! Quero que me torne mulher!
______Está louca?
______Não! Eu sei o que quero e sinto que também quer!
Posso sentir isso!
Minha cabeça girou. Aquela menina parecia conhecer-me intimamente
e não estava errada sobre os desejos que afloraram em mim naquele
instante mágico.
______Sei que sentiu ciúmes quando viu meu namorado tentando
me beijar!
Tentei me desvencilhar dos braços dela, mas já era tarde.
Ela tornou a beijar meus lábios e suas mãos atrevidas
desciam para o interior das minhas coxas.
______Faça amor comigo! Daqui a dois meses embarco para a Europa!
Quero me tornar mulher em seus braços. Eu quero ser sua...
sempre sonhei por esse dia. Depois não te pedirei mais nada...
Naquele momento, qualquer resquício de juízo que ainda
me acompanhava, desapareceu e eu a deitei na grama macia. Minhas mãos,
já habilidosas e habituadas ao amor, exploraram aquele corpo
belo e fogoso, enquanto ela suspirava e se contorcia de tesão.
Beijei-lhe os seios, o corpo, as coxas, e quando toquei suavemente
com os dedos seu sexo, ela gemeu forte. Acariciei-a ali, até
sentir que alcançou o êxtase. Deitei-me sobre seu corpo
macio e enquanto lhe beijava os lábios, continuava a estimulá-la.
Em dado momento, de surpresa, Karim apanhou-me a mão com força
e me fez penetrá-la a um só movimento. Soltou um gemido
de dor mas moveu o quadril, fazendo-me tocá-la mais e mais
a fundo. Então, senti os espasmos do gozo dela, que veio intenso,
enquanto ela me mordia os lábios e me arranhava os ombros.
Eu fiquei atônita. Tudo o que acontecera alí, parecia
descolado da linha da realidade. Era improvável e imprevisível.
Karim pareceu adormecer. Esperei ansiosa, já me sentindo vergar
sob o peso da minha culpa.
Eu devia tê-la impedido e não o fiz. E ainda havia gostado.
Senti-me como uma depravada sedutora. Ela abriu os olhos. Havia tanta
ternura e amor neles, que meu coração bateu forte, emocionado.
Levantou-se e tornou a vestir-se, beijando-me ainda mais uma vez.
Um longo e suave beijo. Senti que se despedia. Por fim, foi embora
caminhando suave e altivamente, sem olhar para trás.
Tempos depois, vi um retrato seu, no mural do conservatório
de música. Estava fazendo sucesso na França e em alguns
países da Europa. Ao seu lado, sua professora de piano. Ambas
estavam abraçadas e pude sentir que havia algo intimo entre
elas. A gente tem esse tipo de percepção. A mulher,
era miúda, branca de cabelos e olhos muito negros. O rosto
oval e a boca pequena. Saí dali impressionada. Aquela professora
de piano era tão parecida fisicamente comigo que naquele momento
entendi que de certa forma, Karim finalmente encontrara o amor e que
o rio seguiu seu curso e fluía serenamente para o mar.