" Aut libertas, aut nihil "
Ou liberdade, ou nada.


TERCEIRO DIA.
1:30


Edgar analisou concentrado os metros de folhas de fax diante de si. Endereços, nomes e números de telefone. Rapidamente passou o material para sua equipe de analistas.


-nós os temos. Takahishi, reúna o grupo de choque. Quero todos aqui para esquematizarmos as invasões.


Voltou-se para Leandro.


-ele o "carcará", codinome do chefe dos seqüestradores, vai ligar às 5 horas em ponto conforme o combinado. Quando fizerem contato, diga que está com parte do dinheiro. Diga que conseguiu dois décimos do valor e tudo em dólares. Alegue que é só o que pode conseguir no prazo.


Leandro sentia-se inseguro.


-e se eu disser que conseguimos quase a metade? - propôs.


-soará inverossímil. Eles aceitarão a quantia oferecida. É o maior prêmio para o resgate de um seqüestro que já se tem notícia no Brasil. Eles toparão. Procure ser convincente.


Edgar instruiu as equipes com gravidade. Em poucas horas estariam a caminho dos vários pontos assinalados em um grande mapa de São Paulo e adjacências. Estavam espalhados pelo ABC, Sorocaba, Cotia e Embu. Não haveria como contatar o juiz e obter um mandado de busca, pois não poderia revelar a fonte da informação. Neste caso, optou por colocar pequenas equipes de policiais para observar cada um dos seis pontos alvos. No momento em que Leandro fosse contatado, certamente o líder do bando arranjaria para que Louise fosse retirada do esconderijo e conduzida para o local do encontro. Então, quando os seqüestradores estivessem saindo dos cativeiros a equipe de policiais os abordariam. Com sorte, Victória obteria o local exato que deveriam abordar e todos os policiais seriam direcionados para lá.


Sorriu diante da perspectiva de reaver Louise antes do meio-dia. Eles surpreenderiam a quadrilha de modo que não haveria chance para qualquer reação adversa.


Observou Julia sentada muito séria ao lado de Leandro. Havia algo novo fulgurando nela. Algo como uma ira pulsante aproximando-se do ponto de eclosão. Edgar aceitara o plano de Leandro quanto a manter Victória afastada em um posto de observação avançado e secreto, fornecendo informações privilegiadas. O velho policial soubera por intuição o que o plano dos Bittencourt ocultava: Atividades ilícitas de escuta e outros truques que só seriam possíveis à margem da lei.

Apanhou sua pistola beretta 9 milímetros e passou a carregar a munição no pente cuidadosamente. Sempre trabalhara nos moldes da lei e sua consciência, mas sabia que em certas circunstâncias especiais, a lei não abrandava a voz da moral interior que insurgia-se contra as normas rijas e impessoais. Ele não poderia jogar com a vida de Louise Bittencourt pela regra do jogo posta à mesa que lhes era totalmente desfavorável até a intervenção de Leandro, Julia e Victória. Nenhum deles poderiam ser culpados pelo amor que sentiam pois a capacidade para o amor é o que há de melhor no caráter humano.

-Entretanto... eles não são policiais e eu ainda sou. A espada de Dâmocles ainda pende sobre meu pescoço. - refletiu para si, considerando seriamente a possibilidade de se aposentar quando tudo acabasse. Caso contrário teria que denunciar a si, a Victória e aquela que se ocultava atrás da capacidade onisciente da ex-policial: Miranda Nogueira. Ele sabia, Victória não contara, mas a desconfiança inicial solidificara ante os resultados extraordinários apresentados com rapidez. Sabia também que Miranda era uma assassina foragida e potencialmente perigosa.

-para o inferno com tudo! - praguejou quando coldreou sua arma.- manterei a equipe de policiais sob meu comando dentro dos limites da lei, mas é só o que farei antes que tudo seja encerrado. Depois penso o que fazer quanto aos demais problemas. Louise me aconselhará. Ela sempre foi boa conselheira.

2:30 horas do terceiro dia.

Victória tremia nervosa. Edgar contatara e fora claro. A ex-policial deveria manter-se distante da ação e aguardando paciente até que ele tornasse a entrar em contato.

-se não agir, eu vou ter um infarto. - gemeu Di Angelis, aceitando o copo com uma aspirina oferecida por Lizandra. A médica fora liberada por Edgar e decidira tratar da saúde física e psicológica da angustiada ex-policial.

-Você já agiu até o limite do necessário e todos nós sabemos que a ação está programada para ser um embate branco, sem vítimas ou feridos para nenhum dos lados.

Sir Lancelot saltou animado do interior da caixa de onde fora transportado da chácara na serra até onde sua dona estava instalada. Victória percebeu que havia algo diferente no felino.

-ele está ferido!

-o caseiro informou que o Lancelot desapareceu por três dias atrás de uma felina no cio que andou naquelas bandas. Na verdade o caseiro até pensou que depois desta fuga ele não conseguiria voltar. Gato macho atrás de fêmeas geralmente se metem em encrencas suficientes para causar alguma mutilação ou mesmo morte.

-o que ele tem? - Victória inquiriu, apanhando o siamês no colo, acariciando-o.

- a pata traseira esquerda deslocada e cinco centímetros do rabo amputado. Ele não enxerga direito, está manco e com sérios problemas de equilíbrio.

-ah, Lance... eu andei descuidando de você. Precisa entender que estamos passando por uma fase difícil...- Di Angelis sussurrou-lhe enquanto o afagava, tentando conter as lágrimas que fluíam sob suas pálpebras inferiores.

O gato ronronou furiosamente enquanto esfregava a cara marrom chocolate no colo de sua dona.

-Adriana pensa que seria prudente mandar castrá-lo. - sugeriu Lizandra.

-O veterinário havia me aconselhado antes, mas acabei apostando que arranjando uma fêmea aqui e ali para cruzar bastaria. Estava errada.

-posso cuidar disso para você.

Victória pensou em sua ansiedade e fadiga crônica e aceitou a proposta de Liz. Antes, tratar de Lancelot era uma de suas muitas obrigações. Agora havia também, MIRAGEM e com esta, sabia que tinha que manter cuidado e vigilância plena. Arquitetara até um plano para alimenta-la.

-como soube como encontrar a chácara?

Perguntou enquanto se dirigia para a ampla cozinha da propriedade, mantendo Sir Lancelot firmemente seguro nos braços.

-Leandro indicou.

Vick não apreciou tanto a informação. Recomendara ao Bittencourt que mantivesse o local em segredo a todos, porém a presença segura e dinâmica de Lizandra a reconfortava naquele momento. A pressão de ser o eixo onde se fixavam todas as engrenagens estava consumindo gradativamente suas energias e não poderia se dar ao luxo de tentar descansar antes do resgate de Louise.

Colocou uma farta tigela de leite no chão para o felino e voltou a verificar o refrigerador em busca de montar um desjejum nutritivo para si, Miragem e Lizandra.

-Eu e Adriana tornamos a nos entender. Ela me compreende, aconselha e apóia e acredito que existe um liame sólido se formando entre nós.

-fico contente em saber. - Vick respondeu com sinceridade.

-entretanto nos falta algo: você. Sabemos que degladia solitariamente com os problemas particulares e de outros. Queremos mais proximidade e participação, afinal já fizemos parte importante de sua vida e intimidade antes e nos preocupamos. Queremos que nos deixe aproximar, oferecer ajuda, algum apoio...

Victória sorriu. Agora sabia porque Lizandra estava ali. Viera para zelar por seu bem estar. A estratégia de manter os amigos à distância era necessária porque não poderia envolve-los nas encrencas que acarretava para si e muito menos explicar as ocorrências insólitas que sempre a mantinham surpreendidas, entretanto reconhecia que a falta da proximidade de amigos a torturava.

-onde está o Agnaldo?

-em um dos grupos de assalto.

-Ação não é o forte do Gui. Ele funciona melhor na área estratégica.

-Edgar conhece isso e o colocou na turma de apoio ao grupo principal.

MIRAGEM apareceu na sala de estar. Trazia uma série de formulários contínuos preenchidos pela impressora. A aparência aniquilada dela se agravava e as olheiras escureceram suas pálpebras. Monitorara e depurara informações constantemente sem descanso.

-hora do lanche. - anunciou Victória, apesar de que ainda eram apenas 3 horas da madrugada. - venha Arianne. Quero que se alimente.

MIRAGEM observou Lizandra atentamente e franziu a testa. Não apreciara encontrar outra pessoa ali com Victória. Lizandra apanhou Lancelot e despediu-se.

-vou ver se consigo algo para comer na rua e volto daqui há duas ou três horas. Vou deixar Lancelot com Adrianna . Quando a Nicole acordar, ficará eufórica ao ver o gato.

-tudo bem! - concordou Vick, satisfeita por Lizandra perceber que era melhor deixa-la a sós com MIRAGEM. - mas volte! Ficaria satisfeita em tê-la por perto.

Lizandra sorriu amplamente.

-eu voltarei. - prometeu.

MIRAGEM aproximou-se de Victória ao ouvir a porta externa bater com a saída da médica.

-ela é médica. Não gosto de médicos.

-mas é nossa amiga e podemos confiar nela.

-eu não confio em nenhum avatar.

-exceto eu. Agora sente-se e vamos iniciar uma atividade prazerosa.

Arianne abriu os olhos amplamente. Apreciara sorver o mel dos lábios de Victória e foi exatamente isso que a ex-policial começou a fazer e a altista a participar com interesse e entusiasmo. Depois, Vick preparou um prato de banana amassada com mel, aveia e passas e apanhou uma porção na colher.

-Agora, uma forma de se alimentar rápida e eficiente. - mostrou, encaminhando a colher para os lábios da Mac kall, entretanto ela não os abriu.

Victória desfilou a colher diante das narinas de Arianne e depois voltou-a para si e deglutiu o conteúdo. Depois tornou a encher a colher e apresentar para Arianne. Desta vez ela aceitou o conteúdo e o deglutiu.

Ambas comeram três pratos de banana com mel e cereais, além de frutas, queijo, leite e pão variados. Entretanto, Arianne só aceitava o alimento se Victória a servisse na boca, como se faz com as crianças pequenas.

Em certo momento, Arianne besuntou a boca de Vick com pasta de amendoim e passou a sorve-la. Victória deixou-se ser degustada com paciência. Pouco a pouco acreditava que poderia redirecionar o estímulo oral de Arianne para os alimentos, tirando seus próprios lábios da jogada. Sim, porque a maioria dos eventos eram meros jogos estimulantes para a jovem altista.

Albano entrou na cozinha e flagrou a cena. Victória enrubesceu.

-não se acanhe. Outro assunto que teremos que tratar em breve é o "conhecimento" da própria sexualidade pela jovem Mac Kall. Estes assuntos de hormônios fogem às raias dos argumentos plausíveis.

-até onde ela conhece sobre sexo e outras atividades adultas?

-digamos que tem um conhecimento enciclopédico a respeito de sexo, todas suas variações e práticas, entretanto, detém-se apenas no campo da teoria. Porém, dias desses observei que está se sentindo "estimulada" ao presenciar cenas de sexo.

Vick apanhou um guardanapo limpo, embebeu-o com água e passou a limpar os lábios e rosto de Arianne com cuidado.

-onde Arianne assistiu cenas de sexo?

-descuidei-me e ela deve ter conseguido sintonizar a televisão em um canal pago onde passam cenas de sexo explícito. Percebi que estava se estimulando.

Victória observou a forma rija dos bicos dos seios de Arianne sob a fina malha da camiseta que vestia. Certamente os hormônios nela estavam se enfurecendo e procurando vazão. Nos tempos que teve que se manter longe, deixando a Mac Kall aos cuidados de Albano, não imaginava que teria que se confrontar com mais aquele problema. Decerto, o correto mesmo seria coloca-la em uma instituição especializada.

Albano percebeu o rumo de seus pensamentos e teve a oportunidade de abrir o jogo quando Arianne saiu para continuar a cuidar da ampla parafernália eletrônica.

-está preocupada com ela, mas acredito que não há instituição que poderia trata-la. Arianne é diferente. Conseguiu progressos e já não tem mais o perfil de uma altista clássica. Além de que, ela não é cooperativa e sabemos que pode ser letal quando livre para agir apenas pela sua própria conta. Você é esperança para ela, Victória. Ela a venera a seu modo. Fará tudo o que pedir, mas você terá que tomar muito cuidado com o que pede.
Já conseguiu que se alimente, mas terá que tratar disso pessoalmente. Em uma instituição, ou eles a aniquilarão ao peso de doses maciças de química ou ela mesmo dá conta de desaparecer e continuar a praticar crimes do alto de sua incapacidade de entender as regras de nossa sociedade.

Di Angelis meneou a cabeça concordando com o velho psiquiatra.

-eu tenho um plano. - disse ele.- quando tudo isso acabar, eu vou empenhar minha energia para erguer uma instituição para pessoas como ela. Vou erguer a estrutura em um vale, uma fazenda que tenho. Lá os pacientes viverão em um clima rural por toda sua vida, longe das pessoas comuns e dos problemas. Poderão se feliz lá. Preciso me apressar. Não tenho muito tempo.

-como?

-meu coração. Ele ainda funciona à base de muitos estímulos químicos. Não é nada mais do que um amontoado de músculos enfartados sem muita força para trabalhar.

Albano retirou de um armário um pequeno pacote com cápsulas e pílulas de tamanho e cores variados e passou a ingerir uma a uma de forma que Victória arrependeu-se de ter pedido a ele na noite anterior que quando fosse dormir, procurasse "ler" o jornal do dia seguinte. O velho aparentava estar perto de um colapso físico.

Victória levantou-se e passou a lavar a louça.

-deixe. Tenho empregados.

-preciso fazer algo com as mãos até o dia amanhecer completamente e Edgar ligar para me informar sobre o resultado da operação resgate.

O tom esperançoso na voz dela rompeu a barreira do psiquiatra.

Albano olhou-a profundamente e tocou-lhe o ombro com tristeza.

-Vai precisar ser forte, Victória, pois infelizmente o que "li" no jornal de amanhã vai partir-lhe o coração. A operação será um fracasso e não será por falta de empenho de Miragem, você ou mesmo dos policiais.

-como? Conte-me o que vai ocorrer!

-Li que encontrarão o corpo de Louise dentro de um poço seco em uma chácara. Na casa que servia de cativeiro, mais quatro corpos de homens mortos esfaqueados. Elas o matou antes de ser morta por um quinto indivíduo, decerto um que ela não sabia que estava nas proximidades. Os legistas encontraram marcas de luta pois certamente ela reagiu e apossou-se do punhal de um deles, iniciando a carnificina.

-leu sobre o local do cativeiro e há quanto tempo o corpo dela estava morto?

-O local é em Embu e o corpo dela e dos outros indivíduos estavam ainda frescos, sem ter iniciado a rigidêz cadavérica quando a equipe de policiais invadiu o lugar. Isso denota que ela reagiu quando eles se preparavam para tira-la do cativeiro e leva-la até o lugar combinado para o encontro com Leandro Bittencourt. Decerto um dos homens achou que mal não haveria de se aproveitar um pouco da atraente cativa.

Victória agarrou seu celular, digitando um número com fúria.

-preciso avisar Edgar e...

-ele não acreditará em você. Tudo que te relatei não tem apoio dentro da compreensão sã de alguém. Talvez seja melhor assim. Eu não deveria tentar interferir no curso do destino.

-o destino o colocou na minha vida, Albano e isso só pode dizer que podemos sim tentar mudar o curso dos acontecimentos. - gritou Victória, agora beirando a histeria.

Alguém do outro lado da linha atendeu.

-Quem da antiga equipe dos Neblinas está no grupo de policiais de Embu?

-Ana Beatriz.

-O cativeiro é em Embu, Edgar. Mande seus homens para lá, urgente!

-mas, Victória, eu não posso agir assim sem saber o real motivo de sua preocupação, afinal tudo está caminhando certo e...

Di Angelis desligou o celular, interrompendo Edgar.

Ligou em outro número e a voz de Ana Beatriz atendeu.

-invada a casa. Louise vai reagir e matar alguns dos homens que mantém a guarda dela no cativeiro e um outro a matará.

-como? Sabe que se estiver errada e se não encontrarmos Louise lá, poderei ter que responder a um processo disciplinar além de ser processada criminalmente?

-você a ama, Beatriz. Pense que é a única forma de salvar a vida dela e que se eu tivesse tempo de ir até aí, eu mesma o faria, mas estou há mais de 100 km distante.

A voz de Victória começou a falhar ante o choro contido e Ana Beatriz desligou o celular sem responder.

-maldita criatura! - esbravejou Victória enquanto andava pela casa apanhando alguns de seus pertences que espalhara sobre os móveis e sua jaqueta de couro. Inquiriu-se se Albano não estava mesmo certo de que o destino para Louise seria mesmo a morte prematura pois a presença da arrogante Ana Beatriz no local, poderia ser o fator decisivo do destino da Delegada e ela não se revelou cooperativa. Se Agnaldo estivesse por lá, certamente teria chances de ser ouvida, mas ele não estava.
Mesmo assim resolveu que deveria tentar tudo e ir até o fim, mesmo que amargo.
Decidiu-se fazer uma longa e desesperada viagem com a motocicleta até Embu. Olhou o relógio: 4:20. A probabilidade lhe gritava que não chegaria a tempo, mas se poria a caminho.

MIRAGEM a interceptou na porta. Vestia uma roupa de couro masculina revestida de lã em seu interior e Victória entendeu que ela não aceitaria ser posta ao lado naquela aventura, além de que, com a capacidade dela de memorizar mapas, encontrariam o local do cativeiro em Embu sem erros.

-coloque o capacete e segure firme na minha cintura. Quero ter certeza que não vai cair. Vamos viajar no limite da capacidade do motor da Harley.

-eu não vou cair. - retrucou Arianne.

4:55 do terceiro Dia.

Victória manobrou a motocicleta pelo emaranhado de estradas que se formaram quando saíram da rodovia Raposo Tavares. Tomaram um caminho que Arianne assinalava como sendo uma espécie de atalho e agora galgavam pequenas estradas mal conservadas, subindo e descendo serra. Enfim estacaram diante de uma chácara onde a entrada da porteira principal à sede era ladeada por frondosos pinheiros do brejo. Espiaram e não viram sinal das viaturas da polícia. Entraram na propriedade e na frente da casa principal avistaram vários carros com giroflex acesos.

Um policial saiu da casa com partes de sua roupa manchada de sangue fresco, o que fez com que as pernas de Victória fraquejassem.

-cheguei tarde.

A polícia Técnica e os legistas acabavam de chegar ao local.

Alguns dos policiais reconheceram Victória.

-desculpe Di Angelis mas não pode entrar lá antes da equipe da polícia técnica terminar o trabalho.

-onde está Louise?

-não sei informar. - desculpou-se o rapaz.

Victória abriu caminho entre os policiais e técnicos surpresos e avistou Ana Beatriz conduzindo Louise, quase desfalecida. O olhar da Bittencourt e de Victória se cruzaram e neste momento Di Angelis soube que todo seu esforço titânico fora válido. Louise estava viva, apesar de que algumas manchas de sangue em suas vestes armafanhadas a deixaram preocupada.

-vá embora, Victória ! - a voz dela soou autoritária apesar de um tanto fraca.

-como?

-eu não a quero aqui. Vá embora!

Ana Beatriz encarou Victória, desta vez com expressão surpresa.

-acho que ela está sendo clara, Di Angelis. Você não é mais policial e seu lugar não é aqui com a equipe. - emendou. - não gostamos que civis se intrometam em nossos assuntos.

Di Angelis fixou o olhar em Ana Beatriz.

-obrigada por acreditado e apostado sua carreira nisso. Serei sempre grata a você. - disse antes de girar o corpo e voltar-se para a porta da saída, não antes de olhar amorosamente por uma fração de segundos o rosto de Louise.

Agora, Victória estava sentindo-se intensa e irremediavelmente ferida com o gesto da Delegada, mas ainda havia o consolo supremo de a ter avistado livre e com vida.

Na área externa, avistou Arianne que a esperava na motocicleta com o rosto ainda oculto pelo capacete. Pensou que era realmente prudente não a expor mais do que o necessário e seria oportuno retira-la dali rapidamente antes que Edgar e os demais policiais chegassem.

Abotoou a jaqueta de Arianne até o pescoço, ajeitou-lhe as fivelas do capacete carinhosamente e depois de esperar que ela se acomodasse com segurança na garupa, acionou o motor potente da motocicleta.

Quando já estavam muitos metros estrada abaixo, ainda podia-se ouvir da chácara, o rugir da máquina que se afastava.

Nos jornais daquele dia noticiaram o espetacular resgate da Delegada e uma página inteira fôra dedicada à policial heroína que utilizando a intuição e coragem, agira no tempo preciso e evitou um desastre.

Para Victória, nada daquilo mais importava. Agora passou a aguardar paciente o momento em que Louise, passado o choque cruel do trauma sofrido, a chamasse para perto de si .

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