Ivy continuou ao lado de Victória mesmo com esta insistindo em despacha-la.

-Estou preocupada com você. Com a cabeça quente é capaz de praticar um deslize e isso em caso de seqüestro pode ser desastroso.

Victória considerou as palavras da ucraniana e acedeu porque ela estava certa.

Antes de entrar em Campinas, ligou para Edgar. Surpreendeu-o com a má noticia e o velho policial pediu alguns minutos para agir e se organizar.

-Leandro já está a par do ocorrido?

-não sei. É possível que não houve tempo da equipe de resgate ter avisado a família.

-cuidarei disso também. Agora procure descansar enquanto vou tratar de acionar os policiais e toda o aparato que conseguir.

-quero estar junto com a força tarefa do resgate de Louise e...

-Descanse Di Angelis. Vai precisar de toda sua energia quando chegar o momento da ação. Não vou deixá-la fora disso, confie em mim, mas por enquanto o plano é montar uma central eletrônica na casa de Louise para interceptar chamadas e o pedido de resgate. Antes disso nada podemos fazer além de esperar.

-certo. Eu vou tentar descansar. - balbuciou Victória.

Ivy olhava-a intensamente.

-não estou certa de que possa deixa-la sozinha, senhorita Angel.

-não inverta os papéis. Ainda sou a guarda-costas.

-pode ser, mas no momento sei que está exausta física e emocionalmente. Precisa tentar dormir.

-impossível.

-pelo menos pode me acompanhar com um licor?

A loira fitou-a com os olhos cinzas cintilantes. Estavam no condomínio residencial onde a filha do diplomata alugara um amplo apartamento. Os demais guarda-costas mantinham-se no apartamento defronte.

Victória assentiu e Ivy foi até o elegante móvel de canto e despejou um líquido esverdeado de cheiro forte e encorpado em dois pequenos cálices.

-beba. Vai sentir-se melhor.

A ex-policial não retrucou e bebeu, mesmo percebendo que o que ingeria estava longe de ser uma bebida comum. A euforia e uma espécie de estado de êxtase desceu sobre si e ela sorriu pela primeira vez no dia que amanhecia.

-um licor exótico. - concluiu.

-Absinto.

-você me deu absinto?

-sim.

-eu não tenho qualquer resistência ao abssssintttt...

-Foi o que pensei. Poucos possuem. -informou Ivy com um meio sorriso, iniciando mentalmente uma contagem regressiva.

Victória observou o cálice na sua mão e a névoa diáfana do sono afagou-a, abrandando seu coração atribulado até que adormeceu tão rapidamente que Ivy adiantou-se presta para amparar-lhe o corpo.

-durma, senhorita Angel. - ela lhe sussurrou com ternura. -pode ser que quando acordar se zangue comigo mas sei que o sono lhe fará melhor.


TARDE DO PRIMEIRO DIA


Quando Victória acordou o display do celular assinalava 14 horas e havia dois recados de Edgar na secretária. Retornou a ligação.

-eles ligaram. Pediram uma quantia exorbitante a ser angariada em um período irrizório.

-qual?

-setenta e duas horas cravadas. Nenhum minuto a menos ou a mais.

-e se não for possível obter o dinheiro?

-eles garantiram que a liquidarão.

-acredita que o motivo do seqüestro é puramente para extorquir a fortuna da família?

-não estou certo.

Victória temia que ele lhe dissesse aquilo.

-estou indo aí.

15:30 horas


O grupo inicial estava reunido na grande sala de estar da residência de Louise.

Além da antiga equipe dos homens da Neblina, havia ali vários veteranos policiais, alguns aposentados. O olhar de ave de rapina de Enrico Campos fixou-se em Victória como se inquirisse a razão da ex-policial estar no local. Moveu os lábios finos em um ricto nervoso mas nada disse.

Leandro e Júlia estavam sentados próximos à lareira, ladeados por dois homens de cabelos encanecidos que mais tarde se apresentariam como dois dos administradores do Grupo Soleil. Leandro ostentava grandes olheiras. Na face de Julia, expressão vazia, hirta sem aparentar perceber qualquer objeto ou pessoa que ali estivesse. Ainda vestia um grande roupão diáfano de dormir coberto por uma blusa de manga longa.

Edgar mostrou para Victória alguns homens desconhecidos vestidos de terno.

-policiais Federais, Delegados seccionais e alguns juristas e advogados influentes. - informou.- todos estão aqui para oferecer alguma ajuda, mesmo que não possam agir direta e oficialmente no caso.

A reunião foi liderada por Edgar com seu jeito costumeiro de lançar o problema na mesa e aparentar hibernar enquanto o grupo discutia as possibilidades e estratégias.

Victória não conseguia arquitetar uma idéia inteira ou frase coerente. A língua lhe pesava na boca. Em toda sua existência extrovertida, nenhuma tramóia do destino conseguira desarticula-la àquele modo, somando ao efeito "nevoeiro" do absinto.

-o pedido de resgate é fachada para um objetivo maior...não contataram o tempo suficiente para rastrear a chamada...serviço de profissionais...estão blefando...

Fragmentos da conversa afluíam na mente semi atordoada de Victória e ela voltou o rosto para alguém ao seu lado que lhe tocava o ombro. Ivy. Não lembrava de a ter convidado para a acompanhar até alí. Aliás, não se lembrava de como entrou e saiu da residência da ucraniana.

-você não está bem.

-talvez o veneno que você me fez ingerir não tenha ainda se retirado do meu organismo. - respondeu irritada consigo mesma por ter caído na artimanha da loira.

Caminhou trôpega para um canto não conseguindo controle sobre suas longas pernas como um potro recém-nascido lutando para manter-se em pé e a passo.

Lizandra surgiu ao lado de Victória e a amparou. Ivy acudiu para ajudar e ambas retiraram Vick da sala, levando-a para a copa.

-Liz? Eu não a vi quando entrei.

-acalme-se. Você está pálida e talvez esteja perto de um choque nervoso.

-trate de Leandro e Julia. Eles precisam mais dos seus préstimos.

-ambos estão sob efeito de fortes sedativos. Edgar me encarregou disso.

-eu amo Louise, Lizandra. Não sei como será para mim se ela se perder.

A voz da Di Angelis soava embargada pela dor. As lágrimas despejavam-se no tecido alvo da toalha na mesa diante de si. Tereza a contemplava condoída. Na mão enrugada, um copo dágua.

-ama quem?

Lizandra perguntou com a face afogueada, incrédula. Em sua mão habilidosa, agora trêmula, um pequeno frasco com comprimidos.

-eu amo Louise Bittencourt como jamais conseguiria amar alguém em toda minha vida. Sei que parece um velho clichê de apaixonados, mas é a realidade - Victória confessou.-se ela desaparece, meu coração estará estéril, morto.

A médica entregou uma cápsula branca para Vick enquanto Tereza apresentava um copo dágua.Surpreenderam-se pela reação passiva da Di Angelis que engoliu o tranqüilizante sem qualquer reação agressiva.

A governanta indicou o quarto onde Lizandra e Ivy deveriam ajudar a jovem sedada a se instalar para um descanso. Minutos após, Edgar apareceu na copa e inquiriu Lizandra sobre Victória.

-Ela agora está repousando. - informou a médica, com os olhos verdes líquidos pelas lágrimas contidas. O velho policial saiu do recinto e Ivy avaliou.

-você ainda a ama. É por isso que conhecer a paixão dela a feriu tanto.

A legista passou a arranjar frascos, ampolas e seringas em uma pequena valise médica, exibindo concentração enquanto as lágrimas que antes represara escorriam-lhe finalmente pela face. Percebera que a ucraniana era perceptiva o suficiente para ler-lhe no rosto todo a paixão ardente e sem vazão que ainda a atormentava.

-eu e Adriana chamamos isso de "Efeito Di Angelis". É como o "efeito flash-back" de quem já utilizou LSD. Por mais que se pense que se está livre dela, um momento sem aviso, tudo retorna com intensidade poderosa. A saída é aprender a conviver com isso. Conselho de uma competente terapeuta.

Fechou a valise e fitou Ivy.

-e a saída para quem ainda não "provou" a poção Di Angelis é... manter-se longe em segurança. Caso contrário, fará parte de uma legião que cresce a cada dia, pelo que ando constatando, vencendo até muralhas que eu antes julguei inexpugnáveis.

Neste momento, referia-se claramente à Louise Bittencourt.

Ivy observou o maxilar poderoso e bem talhado da médica mover-se tenso quando ela lhe falava e teve uma nítida visão do seu desespero ante a súbita revelação da paixão de Victória pela Delegada.
Certamente a médica legista e a ex-policial mantiveram um caso ardente e que por algum motivo desconhecido acabara (se é que alguma relação se encerra por um motivo conhecido), entretanto era simples constatar que intimamente, a Doutora Lizandra nunca perdera a esperança de reconquistar o coração selvagem da Di Angelis.

Tereza retornou à copa e pediu que Lizandra voltasse a tratar de Julia. A moça resistira ferozmente à força dos sedativos, mas seu olhar vítreo estava preocupando Leandro e os outros que tentavam se ocupar dela.

Acompanhando o grupo que conduzia Julia quase à força para seu quarto, a médica refletia cabisbaixa. Louise era um obstáculo poderoso. Algum tempo antes, desconfiara que Vick estava se envolvendo emocionalmente com a Delegada mas apostara na fortaleza inatacável onde parecia habitar o coração da Bittencourt. Agora não possuía dúvidas que Victória galgara há tempo as tais muralhas intransponíveis e a cama da poderosa Delegada. E Louise envolvera-se também.
A revelação fluiu naquele instante para Lizandra com a lembrança de pequenas cenas de olhares de safira enigmáticos velados vertidos sobre Victória em tantos momentos em que a equipe dos Neblinas se encontravam para tratar dos crimes do "Devorador de Almas".

Com Júlia instalada no seu quarto e ressonando adormecida, Lizandra procurou pelo quarto da Di Angelis. Dentro, encontrou Ivy sentada em uma cadeira de espaldar alto ao lado da adormecida, segurando-lhe a mão nas suas.

Aproximou-se sem pudor para tocar os cabelos negros densos da jovem inerte empapados pelo suor, afastando-os da face amada.

-Eu pensei que Victória fosse incapaz de amar alguém exclusivamente. Eu estava enganada.- sussurrou.-Sempre desejei que o amor um dia a visitasse, mas no meu egoísmo eu queria que acontecesse e o nome desse amor fosse o meu.

-não fale sobre egoísmo. Sua atitude é compreensível e o esperado de um ser humano, assim como é humano querer ser feliz ao lado de quem se ama.
Colocando-me no seu lugar, agiria da mesma coisa. Talvez sem tanto estoicismo. Eu possuo uma forma agressiva de reivindicar o que desejo.

Lizandra fitou-a inquisitiva, mas o olhar não era hostil.

-você também a quer?

Ivy sorriu.

- sinceramente, a um gesto de consentimento dela, eu a esperaria nua em sua cama. Talvez seja efeito de curiosidade ou mesmo atração física crua. Senhorita Di Angelis é essencialmente sedutora. Não age deliberadamente. Ela apenas é assim.

- Algo de essência. Eu a compreendo. - completou Lizandra.-mais do que compreendo. Eu a sinto e ela me subjuga a vontade.

-ainda não a perdeu totalmente.

-está enganada. Pessoas de coração emperdenido como o de Victória só possuem energia vital para amar genuinamente uma ou duas vezes em toda uma vida. Como os cisnes. Ela quer Louise e ela a terá.

Quando o assunto retornou para a atual situação da Bittencourt, Ivy tornou a preocupar-se.

-Os seqüestradores. Eles podem mata-la. Se forem inexperientes acabam matando o refém por acidente ou mesmo um momento de ira. Já vi isso nos noticiários. Se forem especialistas... mesmo assim estão agindo de forma temerária. Ouvi boa parte da discussão dos policiais e peritos. - completou a ucraniana.

-se eles a matarem, Victória encontrará o corpo e a vingará. Eu a conheço o suficiente para saber que após este sono restaurador ela se embrenhará em um combate implacável para resgatar Louise Bittencourt.

-não temos muito em mãos.

-ela achará um liame, uma pista, um modo qualquer. Ela sempre encontra.

Lizandra beijou a face de Vick, apagou a luz e conduziu Ivy fora do quarto. Havia agora alguma cumplicidade entre elas.

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