"Ela era selvagem sem deixar de ser feminina e bela. Ela estava sempre em evidência apesar de sempre inatingível.
Capítulo I
SANTA FÉ
A Serra do Urucum fica fincada no coração de uma planície com 15 km de extensão e ótima vista para a flora. É composta de diversos tipos de árvores que formam um tapete verde sobre o morro.
Olhando de cima obtém-se um mapa da planície que encanta pela beleza dos rios, das baías e das lagoas...
O rebanho seguia em perfeita ordem, acompanhando o alinhamento da cerca
de arame farpado. As aves partiam assustadas driblando as folhas que
se desprendiam das árvores e que voavam em todas as direções.
Um redemoinho se formou no ar, levando para o centro do conei ciscos,
gravetos e areia...
O céu foi cortado por um enorme raio. O vento soprava com fúria se tornando visível através da folhagem que deixava se levar por ele. O horizonte era de um azul arroxeado escuro que teimava em passar para o negro. A tempestade que se formava era assustadora.
Uma rajada de vento bateu no rosto da moça enchendo-lhe os olhos de terra e de fagulhas e lhe impedindo de enxergar. Os longos cabelos acobreados voavam tal como as folhas das palmeiras enquanto o chapéu era carregado não se sabe para onde.
Quando o aguaceiro começou a cair Laura sentiu que a camisa lhe grudava na pele e percebeu que o fato de dispensar o adereço que tanto odiava naquele instante lhe seria útil. O tecido branco revelou as duas amoras maduras e rijas que brotavam afoitas sobre os bronzeados cumes. A moça cruzou os braços tentando ocultar os seios e então pensou em Zara.
Zara... A bela Zara... Ela estava sempre em seu pensamento a qualquer
hora ou em qualquer lugar onde ela se encontrasse.
Fechou os olhou e deixou a linda imagem de Zara invadir seu pensamento:
Sua boca se abriu num sorriso safado e em seguida ela sentiu um calor
repentino entre as pernas, apesar da água fria que lhe escorria
pela pele.
Laura rolou no chão como fêmea no cio. Pensava em Zara ignorando a chuva e a lama. Suas mãos abriram com pressa e fúria a calça jeans suja e desbotada e seus dedos cuidaram de providenciar que seu corpo fosse saciado.
3 ANOS ANTES...
Mestre Josias sabia que a coisa não ia ficar boa por aquelas bandas. Precisava reunir os animais e voltar rápido. Do contrário poderia ser tarde demais. Qualquer nego que vivia naquela região, sabia que quando vinha uma tempestade, muitas vezes não se conseguia voltar para casa. E dependendo o volume das águas os rios enchiam e então se ficava ilhado e aí só Deus sabia quanto tempo duraria até a estiagem.
Montou rapidamente no Valente, estalou seu chicote no ar e partiu em disparada para procurar o restante do gado que estava logo adiante. Gritou por Juca e Procópio. Onde será que aqueles malditos estavam? Será que estavam cegos? Não viam que São Pedro naquele dia estava realmente furioso?
Avistou os dois rapazes que vinham a galope. Os cascos dos animais arrancando
lascas do chão pantanoso.
Mestre Josias então disse:
- Que diabos! Onde é que os dois moleques se meteram?
- Carma Mestre sabe o que é: Encontramos um novo ponto de seva aqui pertinho. Veja só que dois lindos tucunarés nóis pecamo?
- Vocês não tem juízo mesmo! Bem que meu pai sempre dizia que trazer moleques em trabalho só pode dá nisso. - E então gritou:
- Agora voem e me ajudem a reunir os animais. Vamos tentá chegá pelo menos no abrigo mais próximo.
Mestre Josias era brilhante com o berrante, tocou o instrumento com toda a força do peito, arrancando aquele som maravilhoso que só um perfeito e nato pantaneiro era capaz de fazer. Os bois foram se agrupando rapidamente, guiados pela música que enfeitiçava, seduzia e tocava fundo o coração. Era hora de partir.
Percorreram dez quilômetros... Vez ou outra atravessaram lagoas aonde à água chegava até a barriga dos animais. Os cavalos iam abrindo caminho, enquanto os jacarés fugiam ariscos tentando se ocultar entre o arquipélago de igarapés.
Chegaram ao Monjolo Velho as 17:00 horas. A chuva caia sem trégua. Procuraram deixar os animais no curral da pequena parada mesmo percebendo que algumas cabeças haviam se alongado. Não tinham outra alternativa a não ser deixar nas mãos de Deus.
Mestre Josias entrou no botequim que ficava a beira da estrada e falou:
- Jeremias você viu que pé-d´água está desabando?
O moço então respondeu:
- Se vi? O vento foi tão forte que arrancou parte do telhado da venda do Zacarias. Ouvi dize que lá pras bandas de Vila Noé - a coisa foi feia. Teve até caso de uma tar di chuva de gelo.
Então alguém falou:
- É verdade. Dizem que os telhados das casas ficaram furados tar como penera.
Mestre Josias coçou a cabeça branca preocupado. Lembrou que a esposa estava sozinha com as duas crianças. Então pensou: Se Deus quisesse não ia de ser nada.
Dona Palmira estava pressentindo que aquela tempestade não prometia
coisa boa. Por isso tratou logo de recolher a roupa que estava no quaradouro
e no varal enquanto as galinhas voavam apressadas para o poleiro.
Corisco o cachorro vira-lata da família, permanecia em baixo da mesa da cozinha. O animal mantinha a cabeça enrolada junto do corpo e tremia feito vara verde. Um trovão forte foi ouvido o que fez o coitado latir assustado e fugir para debaixo da cama. Dona Palmira estava começando a ficar preocupada. O marido estava em viagem e os dois filhos estavam na escola. Então pensou: Tomara Deus que a professora os segurem por lá.
A professora havia insistido para que os meninos esperassem a chuva passar. Mas Laura era teimosa e foi logo dizendo:
- Tia Mazé, minha mãe está sozinha em casa e vai ficar preocupada se a gente não aparecer. Eu e o Toninho não temos medo de chuva. Além do mais a senhora sabe que sou rápida como ninguém no lombo do meu Cristóvão.
Laura então juntou seus materiais e colocou no embornal, montou em seu cavalo levando o irmão na garupa e partiu em disparada pelas trilhas de Santa Fé.
Quando os dois meninos chegaram ao primeiro rio, levaram um susto. Toninho gritou:
- Laura o rio cobriu a ponte. Como vamos passar agora?
Então Laura pensou e disse: - Calma Toninho! Com jeitinho tenho certeza que conseguiremos passar.
- Estou com medo maninha. Vamos voltar.
- De jeito nenhum. Maninha jamais desiste de qualquer coisa, não sabe?
Laura
esporeou Cristóvão na tentativa de que o animal atravessasse
a ponte mesmo esta estando parte submersa. O animal pressentindo o perigo
deu um salto no ar, parando na beira do abismo somente sobre as duas
patas traseiras. O garoto não suportando o movimento brusco do
cavalo, caiu nas águas caudalosas do rio.
Laura desesperada gritava pelo irmão enquanto as águas
escuras e lamacentas corriam a uma velocidade assustadora... Levando
tudo que ia encontrando pela frente.
Laura descobriu então que o pior havia acontecido. Desesperada estalou o chicote no ar e fincou as esporas nas ancas de Cristóvão. Desejava ter o triste fim do irmão. Mas o cavalo disparou atravessando a fúria das águas levando a garota desesperada em sua sela. A ponte desabou dentro das águas furiosas do Rio das Piranhas tão logo Cristóvão chegou à margem.
Quando Laura chegou em casa encontrou a mãe desesperada:
- Laura minha filha que loucura se meter numa tempestade como essa! Onde está o seu irmão?
Então Laura que já estava chorando, se jogou nos braços da mãe e falou:
- Mãe eu sou a culpada por tudo. Eu matei o Toninho. Me perdoe.
Mãe e filha se abraçaram e juntas choraram lágrimas de perda e de morte.
No dia seguinte o corpo do irmão foi encontrado. Só restara o esqueleto. O rio das Piranhas como o próprio nome dizia era infestado do pequeno peixe.
Mestre Josias chegou e entrou na pequena sala de pau a pique. As duas mãos cobriam o rosto. Não era fácil um pai perder um filho de 10 anos de uma forma trágica como aquela. O filho sempre fora o orgulho daquele homem. Ali naquela região homem para ser macho, precisava ter um filho do lado para ajudá-lo nos trabalhos com o gado e com a terra. Eram os filhos que levavam o nome da família por gerações.
O pequeno caixão construído com tábuas e pregos que compadre Zezito havia feito jazia em cima da mesa da sala. O pai então olhando para a urna que estava lacrada gritou:
- Abram por favor. Eu preciso ver meu Toninho. Ele não gostava de escuro. Eu preciso falar com ele. - Então a mulher veio ao seu encontro e segurando os ombros do marido disse:
- Pelo amor de Deus Josias, não faça isso. O pai do céu levou o nosso filho para junto dele e nós temo que aceitá. Ainda temos nossa filha Laura aqui conosco. - Então o homem com os olhos de terror gritou para que todos ouvissem:
- Deus foi injusto conosco Palmira.
E apontando o dedo para Laura que chorava num canto da sala disse:
- Antes ele tivesse levado essa teimosa com ele. Mas foi levar justo o meu filho querido.
Laura ouviu tudo em silêncio. Apesar de possuir somente 15 anos, sabia que o pai tinha razão. E pela fisionomia dos vizinhos e conhecidos que ali estavam, a opinião de todos era a mesma do pai.
O pequeno corpo foi sepultado no cemitério do povoado de Santa Fé. As conhecidas da mãe levaram cravos e dálias para colocarem em cima da pequena cova junto com uma cruzinha feita por compradre Zezito onde estava escrito com carvão AQUI JAZ TONINHO.
DIAS DEPOIS
Mestre Josias continuava inconsolável. Passava grande parte do dia de cara amarrada e não falava mais com Laura.
Certa manhã ele chamou a esposa e disse:
- Mulher, amanhã parto para Monte Cristo, vou buscar um gado do Senhor Hortêncio Munhoz, e levarei Laura comigo. - E continuando disse:
- Trate de preparar as coisas de Laura.
A esposa olhando assustada para o marido disse:
- Mas Josias, Laura é uma menina . Não tem cabimento levar ela numa viagem onde só tem homem. È perigoso e além do mais ela é nova demais para isso.
- Não discuta comigo Mazé. Faça o que estou mandando. Ela fez eu perder meu filho, portanto agora terá que fazer o serviço que seria dele.
Naquela tarde quando Laura chegou da escola recebeu a notícia da viagem. Dona Palmira lhe disse:
- Filha amanhã você partirá para uma viagem com seu pai.
Laura olhou pensativa para a mãe e respondeu:
- Não se preocupe mãe, eu irei e farei de tudo para ajudar meu pai.
Após o jantar Laura correu para a cama. Precisava dormir cedo partiria dali a poucas horas na comitiva de Mestre Josias.
Estava muito ansiosa e o sono estava demorando vir. Aprendera muito cedo a fazer carícias no próprio corpo, isso sempre lhe acalmava. Adorava fantasiar... Sonhava de olhos abertos... Mas em seus pensamentos sempre via a imagem da bela mulher. Ela se chavama Zara. Sua foto estava numa revista que Laura guardava na gaveta de sua velha cômoda.
Laura achava Zara linda. A mais bela mulher que já tinha visto.
Laura não entendia porque Zara não lhe saia da cabeça e nem porque ela lhe provocava calafrios. Dormia toda noite com o pensamento nela. Passava os dias sonhando com ela.
Começou a pensar em Zara. Gostava dela porque com ela não havia pecado. Com ela Laura se sentia livre... Com ela seus pensamentos e gestos não tinham limites...
Laura fechou os olhos e viu Zara. Ela estava na beira do rio. Laura se aproximou de mansinho. Sentiu a garganta seca diante do atrevimento de Zara.
Zara estava maravilhosa. Sentava sobre uma pedra tendo ao seu lado um cesto com frutos amarelos. Os cabelos longos e dourados formavam um manto que caia sobre os seios nus. As pernas estavam cruzadas uma sobre a outra ocultando o sexo. Ela olhava as estrelas e quando viu Laura começou a se insinuar:
Primeiro fixou os olhos em Laura e levando a mão em formado de concha até os lábios lhe assoprou um beijo. Zara afastou os cabelos revelando os belos e fartos seios. Em seguida segurou as belas mamas e chamou Laura dizendo:
- Você gostaria de provar?
Então Laura caminhou até ela e quando estava bem próxima Zara apanhou um fruto do cesto dizendo:
- Bobinha, te enganei... Eu disse provar a manga!
Laura já não se contendo sentiu que seus mamilos enrijeciam e que seu corpo arfava de desejo. Fechou os olhos tentando dissipar a imagem da mulher que agora descascou o fruto com os dentes e este revelou uma polpa de aparência firme, macia e avermelhada.
Zara descruzou as pernas devagarzinho e sem deixar de olhar para Laura. Então se deitou sobre a rocha, massageando a pele com o fruto como se este fosse um sabonete.
Tratou de lubrificar o corpo todo com capricho, sem esquecer milímetro. Espalhando a polpa que se transformava em pasta e lhe hidratava a pele. Zara se deitou sobre a pedra e abriu as pernas. Então massageou o sexo com movimentos circulares até que em determinado instante os dedos atrevidos de Zara guiou o caroço do fruto até o sexo, penetrando com fúria enquanto soltava gemidos de prazer.
Laura enlouquecida de desejo repetiu os gestos de Zara enquanto rolava
na cama e chorava de prazer.
II CAPÍTULO - A PARTIDA
Na escuridão da planície um casal de lobos ergue a cabeça. Os olhos parecem iluminados. Pássaros. Tamanduás. Jacarés. Uma luz própria, às vezes verde, azul ou vermelha, parece brilhar no meio da mata, quando os predadores partem para uma caçada silenciosa tendo como teto o céu de janeiro.
Quando o galo cantou naquela madrugada, os cavalos começaram a ser encilhados. E não demorou para que a tropa estivesse formada no terreiro de Mestre Josias. Juca e Procópio vestiam camisas xadrezes, calças jeans desbotadas, botas de cano longo e cinturões com grandes fivelas ovaladas. Os chapéus eram de palha. Juca se destacava de Procópio pelo lenço vermelho amarrado ao pescoço.
Os moços olhavam assustados não conseguiam acreditar que Laura partiria com eles. A menina usava uma calça colada ao corpo que revelava as formas bem desenhadas da mulher que estava desabrochando. A camisa de mangas longas tinha detalhes de couro que a madrinha Suleica que residia em São Paulo havia enviado como presente no último natal. As botas de couro traziam presas o par de esporas. O chapéu naquele instante estava caído nas costas preso pelo rabicho.
Laura se despediu de Dona Palmira com um beijo dizendo:
- Fique com Deus mãe. Não se preocupe comigo. Parto feliz deixando meu coração em Santa Fé.
Cristóvão estava perfeitamente arreado. Era um puro sangue de pelo totalmente negro, lustroso e escovado. Era um excelente cavalo de corrida e Laura tinha orgulho da agilidade e destreza do animal. Laura havia ganhado o belo exemplar quarto de milha do padrinho. No momento ele aguardava sua amazona que olhou para ele dizendo:
- E aí meu nego, hoje vamos ter muito trabalho pela frente. Mas tenho certeza que será uma bela viagem!
Quando Laura se acomodou na sela, lançou um olhar de menina sapeca para os tropeiros. De cabeça erguida partia orgulhosa. Sabia que era um privilégio uma mulher sair em comitiva. Ali em Santa Fé mulher jamais saia da cozinha ou do tanque. A mãe então chegou próxima à filha e disse:
- Laura vá com Deus. Não se esqueça de fazer as orações antes de dormir. Não esqueça também que entre os mantimentos eu coloquei uma latinha com carne frita somente para você. É que nas outras tem miúdos de porco e eu sei que você não gosta. Não esqueça de quando passar por algum sítio e tiver oportunidade, tomar um pouco de leite. Você está em fase de crescimento.
- Então Mestre Josias disse:
- Para com essa conversa mole mulher. Estamos atrasados, precisamos partir, senão daqui a pouco o sol vai nascé. Além do mais precisamos aproveita a fresca da madrugada para não cansá tanto os animais.
E assim partiram deixando lágrimas nos olhos de Dona Palmira que ficou olhando o marido e a filha que afastavam e que sumiam deixando uma nuvem de poeira na estrada.
Papagaios e araras azuis produziam os primeiros sons de uma manhã colorida. O Morro do Urucum naquele instante era iluminado pela lua cheia. Cortar aquelas terras no lombo de um cavalo não era tarefa fácil. O desafio de cavalgar enfrentando a poeira, as áreas alagadas que às vezes obrigava até nadar com o animal eram apenas alguns itens na vida de um tropeiro.
As longas estradas que rasgavam a planície eram atalhos para um mundo selvagem que Laura ia descobrindo aos poucos. No alto das árvores, flagrantes de um namoro barulhento: Araras Azuis... E em seguida um borrão verde no céu: Uma revoada de periquitos, uma espécie que vive no campo, em bandos animados e livres.
Quando perderam Santa Fé de vista e já estavam bem longe de casa. Mestre Josias resolveu chamar a atenção de Laura pedindo que a garota procurasse não se afastar da comitiva. Mas Laura era tinhosa e não perdia a oportunidade de estar sempre à frente da equipe. Desfilava orgulhosa graças à resistência de Cristóvão que possuía um extraordinário arranque e a capacidade de parar quase instantaneamente o que fazia dele um craque na lida com o gado.
Eram 6:00 horas da manhã quando fizeram a primeira parada. Era hora do almoço. Escolheram um lugar onde havia árvores frondosas e um rio que auxiliaria nos preparativos. Juca e Procópio que já estavam acostumados a armar acampamentos arrumaram com rapidez as traias da cozinha: Estenderam uma toalha estampada que Dona Palmira costumava mandar junto com os mantimentos, pegaram os pratos de alumínios e as colheres de metal que estavam guardadas na bruaca e finalmente fizeram com a ajuda de algumas pedras e gravetos uma bela fogueira e em cima dela fixaram a trempe que serviu de base para aquecer a panela com o arroz carreteiro que Dona Palmira havia preparado.
Mestre Josias então disse:
- Laura hoje o almoço está pronto porque é o primeiro dia e sua mãe já mandou arrumado. Os demais você terá que fazer, você sabe que comida pronta sempre azeda.
Mestre Josias tirou a garrafa de cachaça que trazia envolta em uma proteção de couro dependurada junto ao arreio do cavalo. Encheu o coiote e tomou um trago, deu um estalo com a língua e gritou:
- Eta pinga boa. Querem prová também? - E então deixou que cada um dos rapazes tomassem também um gole. - Disse em seguida:
- Isto é bom para afastá os borrachudos que tenta si achegá.
Devoraram com apetite a comida temperada da panela que exalava o cheiro da pimenta bode combinado com o alho e a cebola colhidos na horta de Dona Palmira. O arroz carreteiro era preparado com carne de sol feita em casa. A carne era salgada e seca em varal. Era necessário cuidados especiais neste processo do contrário as moscas varejeiras atacavam e deterioravam o alimento.
Após o almoço, Mestre Josias coou o café forte que era um de seus vícios. Então disse a Laura:
- Filha, vá lavar os pratos no rio enquanto tiramos uma soneca.
Laura pegou os utensílios e desceu até o riacho. Levou uma bucha caseira e uma barra de sabão de soda que a mãe havia mandado. Era bom para tirar a gordura dos pratos e das panelas. Em determinado instante apanhou água com o guampo que estava preso a cintura e saboreou o líquido cristalino que matou a sede e umedeceu seus lábios.
Ficou encantada com a beleza das águas do Rio dos Segredos. A correnteza era forte apesar do rio ser estreito. Os barrancos eram arrematados por pedras de vários tamanhos que bordado por avencas e samambaias protegiam e mantinham a água sempre limpa e livre do barro. Vários cipós desprendiam das árvores e permaneciam pendentes sobre o lugar Laura se utilizou de um em formato de balanço, onde ficou sentada somente com os pés dentro da água enquanto cantarolava uma canção e ia executando a tarefa de lavar as panelas. O frescor da água e a areia cristalina do fundo do rio, massageavam e descansavam os pés que as botas esquentaram na viagem.
Laura já havia organizado todo material da cozinha quando Mestre Josias acordou e disse:
- Vamos embora moçada. Senão não chegaremos antes do anoitecer a Fazenda Santa Rita de Cássia.
Os tropeiros partiram por estreitos corredores, corixos e alagados. O sinueiro seguia na frente comandando o restante da boiada. Laura cavalgava firme sobre o arreio que descasava sobre o baixeiro multicolorido. Ela desfilava em seu puro sangue como uma deusa, sem perder a sua essência selvagem.
Chegaram à fazenda do Senhor Hortêncio Munhoz quando à tarde já havia caído por completo. Avistaram a sede que ficava próxima a uma pequena área de mata preservada. Passaram pela porteira de aroeira e em seguida marcharam entre uma alameda de palmeiras imperiais.
Laura fascinada com a beleza do lugar comentou:
- Pai que coqueiros enormes e lindos! - O pai então respondeu:
- Não vai chega lá e começa a pergunta tudo menina. Você é muito tagarela, vê se não me faz passá vergonha!
E Laura agindo como se não fosse com ela, saiu trotando no lombo de Cristóvão levando no rosto a alegria e o brilho da juventude.
Quando apearam em frente à casa, o Senhor Hortêncio já os aguardava. Então o anfitrião acenou dizendo:
- Vamos apiá gente. Vocês devem de estar cansados depois duma viagem maldita como essa! Amarem os animais no galpão e entrem para tomar uma boa cachaça que é bom para lavar a poeira da goela.
A CASA DE FAZENDA
Em estilo colonial, conservava a estrutura toda em taipa de pilão. Era branca tendo as portas e janelas pintadas de azul. O piso era de assoalho sendo que o da varanda era de pedra. Laura que estava encantada andava de um lado para o outro. Agitava os braços e logo disse:
- Eu nunca tinha visto uma casa tão bonita! Deve ser a casa mais luxuosa da região!
A esposa do Senhor Hortêncio que estava saindo da cozinha neste instante, ouviu as palavras de Laura e disse:
- Mais que menina bonita. Qual é o seu nome?
- Laura, e o da senhora?
- Noemia.
Dona Noemia então convidou:
- Venham se sentar aqui na varanda. Eu vou servir um bolo para vocês.
Sentaram nos bancos de madeira que ficava um de cada lado da mesa que media mais ou menos 2 metros de comprimento e que fora construída toda em peroba rosa. Dona Noemia serviu bolo de milho quentinho que havia acabado de sair do forno de barro. Havia também um refresco de cor maravilhosa e sabor diferente que Laura jurou nunca ter tomado em sua vida, e então a Dona da casa explicou:
- É de acerola com laranja, e é rico em vitamina C, excelente para prevenir a gripe.
O Senhor Hortêncio buscou o corote de aguardente e serviu o líquido amarelo e de cheiro forte para os rapazes e Mestre Josias.
Dona Noemia perguntou:
- Vocês aceitam um pedaço de bolo?
O esposo respondeu:
- Imagina mulher. Pinga com bolo não combina! Eu vou é cortar um bom pedaço daquele salame caseiro que está para lá de bom.
E dizendo isso foi até a cozinha e voltou com uma tábua, um facão e um salame. Fatiou o tira-gosto em rodelas finas. Em seguida apanhou uns limões galegos que estavam na fruteira e cortando os frutos ao meio falou:
- Experimentem está uma delícia!
Laura que estava atenta à conversa do Senhor Hortêncio perguntou:
- Senhor Hortêncio, o que é salame? É uma lingüiça gigante?
O anfitrião deu uma gargalhada e disse explicando:
- Experimente menina você vai gostar! É feito com carne assim como a lingüiça, a única diferença é que é defumado. Isto é depois de pronto deve permanecer um tempo dependurado em cima do fogão. A fumaça serve para defumar o salame evitando assim que tenha que ser frito para ser consumido. Entendeu?
- Mais ou menos. Mais é gostoso é?
- Claro que sim.
Mestre Josias, estava até bufando de raiva enquanto pensava: Esta menina é mesmo uma especula. Ela ia ver só quando estivessem sozinhos.
Dona Noemia então disse a Laura:
- Como é que uma menina tão novinha como você consegue viajar para tão longe no lombo de um cavalo?
Então Laura piscando os olhos e acenando com o dedo disse:
- Acontece que eu não sou tão novinha assim, já tenho quase 16 anos e meu corcel negro voa como uma pluma. E além do mais eu preciso ajudar meu pai com o trabalho.
Todos riram muito, inclusive o pai que já estava meio zonzo com o efeito da aguardente.
Os homens foram dormir em um galpão que ficava próximo da casa. Era tudo muito organizado, havia até um banheiro para visitantes. Dona Noemia fez questão que Laura dormisse na casa da sede apesar de Mestre Josias ter dito que não queria incomodar e que Laura estava acostumada com qualquer coisa. Dona Noemia havia insistido tanto que o tropeiro não teve outro jeito a não ser concordar.
O quarto onde Laura ficou era amplo. Na parede havia uma quadro cuja pintura era a de dois cavalos que pastavam num campo verde. A roupa da cama era toda bordada a mão e cheirando a limpeza. Havia uma cama de solteiro e sobre ela pendia um enorme mosqueteiro branco que caía do teto feito um enorme ciclone. No canto direito existia uma penteadeira repleta de maquiagem que encantou a menina e que segundo Dona Noemia ela tinha permissão para usar tudo que desejasse. A frente do leito ficava uma cômoda e sobre esta uma imagem de Santa Rita de Cássia. O aposento era protegido por cortinas confeccionadas com chita que espalhava flores vermelhas e amarelas pelo ambiente.
Laura que ficara um tempo parada admirando tudo, então disse:
- Dona Noêmia, a senhora é muito bondosa. Muito obrigada por tudo. A casa da senhora é muito bonita. Nunca tinha visto outra igual, nem pela revista.
Então Dona Noemia deu um beijo na testa de Laura e disse:
- Tá certo! Agora durma, que amanhã seu pai disse que vocês sairão bem cedinho.
Na manhã seguinte, quanto todos levantaram, a mesa já estava posta. Dona Noemia havia acordado Laura que estava afundada nos lençóis. O café fora servido com todo capricho, havia curral quente e broa de fubá. Laura devorou tudo com gosto e então dona Noemia falou:
- Laura, eu arrumei um pacotinho com merenda para você comer mais adiante. - Mestre Josias então disse:
- Imagina só esta menina tá dando trabalho. Não precisava se incomodá Dona Noemia. - A mulher então respondeu:
- Eu gostei muito da sua filha, Mestre Josias. Além do mais sinto falta de crianças, é muito difícil aparecer alguma por aqui. - Laura que estava com a boca cheia de broa foi logo falando:
- Na verdade Dona Noemia eu já não sou mais uma criança. Mas se a senhora gosta tanto delas, porque então não arranja uma? - A mulher então com os olhos cheios de tristeza disse a Laura:
- É Laura bem que eu quis, mas Deus não me concedeu essa graça. - E mudando de fisionomia rapidamente disse:
- Mas deixa isso para lá. Eu me divirto muito com os animais aqui da fazenda, e eles acabam me fazendo companhia.
Chegaram a Cachoeira dos Boitatás, onde Mestre Josias deveria
entregar as 200 cabeças de gado que estavam levando. Deveria
chegar antes do anoitecer pois o Sr. Messias, comprador do gado, estava
esperando o rebanho. Laura estava faceira, se sentindo importante naquela
aventura. O rosto estava um pouco vermelho e esfolado, devido ao vento
e ao sol forte do mês de janeiro. Mesmo assim cantarolava satisfeita,
sabia que assim que chegasse em casa, a mãe untaria com sebo
derretido toda a sua pele, era bom para deixar tudo macio novamente.
Mestre Josias vez ou outra tocava o berrante chamando os animais mais ariscos que se atreviam a procurar abrigo na vegetação às margens da estrada. Laura adorava o som do instrumento, pensou consigo mesma: É melhor eu começar a treinar logo a tocar esse troço, para ser uma tropeira de verdade. Preciso dominar bem esse instrumento.
Procópio ia à frente. Levava uma vara com uma bandeira vermelha na ponta, que era para avisar a quem vinha de encontro que havia boiada na estrada. Juca ficava bem atrás do rebanho, repetindo o aviso.
Mestre Josias e Laura comandavam os animais. Quando o pai estalava o reio no ar, produzindo o som que se fazia ouvir e respeitar, a menina sorria satisfeita e pensava: Como eu tenho um pai forte e poderoso.
Após três dias de viagem, retornaram a Santa Fé. Chegaram em casa já era tarde, a mãe veio correndo recebe-los. Foi logo perguntando:
- Laura você está bem? Fizeram boa viagem?
Mestre Josias então disse com sua voz mal humorada?
- Mulher, não vê que assim estraga a menina com tanto mimo! Ela está inteirinha como você mesma está vendo com esses olhos que a terra há de cume. Além do mais meu pai sempre dizia: Vaso ruim não quebra!
Dona Palmira abraçou a filha carinhosamente. Em seguida preparou o banho com a água quente que já estava fervendo em cima do fogão. Levou ao banheiro que ficava pelo lado de fora da casa. Encheu o balde que fazia o papel de chuveiro e gritou:
- Venham tomar logo o banho, senão a água esfria!
Mestre Josias tomou primeiro, e em seguida foi Laura, que adorava ficar cantando em baixo da ducha quentinha. Laura ensaboava todo o corpo, e ficava brincando com as gotas que caiam do balde acima de sua cabeça. Quando a água acabava ela sempre dizia:
- Há que pena! Um dia ainda quero ter um chuveiro gigante, para que eu possa ficar tomando banho quentinho um tempão.
O jantar aguardava aquecido em cima do fogão a lenha. Na pequena casa a família tinha energia a motor, mas para economizar o óleo que alimentava a máquina, mestre Josias e a esposa, improvisavam o máximo que podiam para economizar.
Estavam famintos e Dona Palmira serviu o jantar: Arroz, feijão, mandioca e carne de porco frita. Laura adorava o tempero da mãe e disse orgulhosa:
- Sabe mãe, apesar da comida aqui de casa ser sempre a mesma, ainda prefiro a sua. Na viagem comi muita coisa diferente e de sabor estranho. Depois vou contar tudinho para senhora viu. - Então a mãe comentou:
- Muito bonito né dona Laura! Eu preocupada com você e você comendo do bom e do melhor por aí. Agora trata logo de terminar e ir para cama, pois amanhã eu quero que você levante cedo para procura uns ninhos de galinha da angola que devem estar perdidos por aí. Já faz um tempão que eu não recolho ovos daquelas danadas que sempre cismam em botar longe do terreiro, isto é no meio do mato. - Então a menina disse:
- Pode
deixar que eu sou boa nisso mãe. Não há nada que
eu não encontre no meio do mato.
NAQUELA NOITE
Apesar do cansaço Laura fechou os olhos e pensou em Zara... Conseguia sentir o perfume da mulher que sempre atormentava suas noites. Já estava adormecendo quando sentiu a mulher entrando em seu quarto. Ela chegou e devagarinho apagou a lamparina. Em seguida foi até a cama de Laura e pegando em sua mão, fez sinal para que a menina a seguisse.
Laura tentou falar, mas Zara levou os dedos aos lábios pedindo silêncio.
Passaram pela porta do quarto onde dormiam Mestre Josias e Dona Palmira. Laura teve receio que fosse vista ou ouvida pelos pais. Abriram à porta da cozinha e saíram para varanda e em seguida chegaram ao quintal.
A lua brilhava enorme no céu e Laura pode ver que Zara usava uma camisola de renda transparente que revelava a nudez da mulher perfeita e bela que havia em baixo dela.
Zara guiou Laura pelo pasto e tomaram a direção do celeiro. Quando entraram Laura observou que Zara acendeu o candeeiro que perfumou o barracão com um cheiro forte e adocicado de madeira. Em seguida Zara pediu que Laura se sentasse sobre um pelego que havia num canto. Laura se acomodou sobre o tecido fofo que cheirava a cavalo e depois de algum tempo observou que a porta do recinto se abria e que duas visitantes entraram.
Duas belas índias Xavantes... . Uma se chamava Aritana e a outra Janaína.
A primeira trazia nos braços um cesto feito com fibra de camalote que estava cheio de flores e a segunda trazia uma garrafa azul com bebida.
As duas moças eram extremamente belas: Aritana possuía os cabelos longos e negros que desciam soltos até a cintura enquanto Janaína tinha a boca em formato de flor aberta num sorriso, trazendo nos lábios úmidos o néctar do pecado.
Zara sorriu para elas e então acenou para que as moças se aproximassem. Zara em seguida libertou seu corpo da camisola. Estendeu a renda sobre o feno e se sentou sobre ela. Aritana espalhou flores ao redor do tecido enquanto Janaína serviu Zara: Encheu uma taça com o líquido que trazia dentro da garrafa. Zara bebeu o elixir num só gole.
As duas ninfas brilharam nuas diante da chama do candeeiro. Janaína chegou primeiro e olhando para Zara abriu as pernas e sentou em seu colo. Seus ventres permaneceram juntos enquanto seus corações batiam acelerados. Zara então beijou os lábios da índia, extraindo deles o sabor e a essência da paixão enquanto Aritana lhe beijava o pescoço e lhe massageava as costas.
Zara começou a acariciar o corpo de Janaína. Primeiro sugou os dois mamilos que se exibiam dourados e atrevidos bem diante de seus olhos, enquanto a sua presa gemia de prazer. Em seguida com movimentos firmes segurou a índia e a sentou sobre uma sela que estava disposta sobre o feno. Janaína não controlando o desejo e implorando ser possuída cavalgou a sela arrancando dela movimentos. Zara então olhou para Aritana e vendo que esta também estava com os olhos e o corpo arfando de desejo, tratou de providenciar que ela também não permanecesse sem atendimento. Mas antes mesmo que Zara tomasse uma atitude, Aritana resolveu imitar Janaína: Pegou uma outra sela e colocando ao lado da primeira se acomodou sobre ela.
Então Zara se deitou sobre o feno, deixando que seu ventre pulsasse sobre o capim. As duas índias já consumidas pela cavalgada deixaram que suas pernas se abrissem e seus corpos desabassem sobre o areio. No mesmo instante Zara sugou o sexo de Janaína, deixando sua língua penetrar o túnel de prazer enquanto suas mãos acariciavam e traziam para si o corpo quente de Aritana. Zara pode sentir ao mesmo tempo o sabor do mel de Janaína enquanto seus dedos exploravam o pulsar das entranhas de Aritana. Então num mesmo instante Zara saciou as duas Xavantes. Janaína e Aritana gemiam enquanto se abraçavam e seus lábios se perdiam num beijo tendo Zara ao centro saciando seus desejos e derramando seu mel e manchando a renda.
Laura que estava assistindo tudo encolhida num canto do celeiro, tentava fugir mas suas pernas estavam paralisadas. No ar pairava um cheiro forte de animais no cio. Cheiro de suor de cavalo, misturado ao dos corpos das mulheres.
Naquela noite um triângulo luminoso foi visto por alguns habitantes de Santa Fé. Ele brilhou e depois explodiu no céu.
III
CAPÍTULO
ELA FOI DORMIR MENINA E ACORDOU MULHER
Ao amanhecer os tico-ticos e muitos beija-flores, abandonavam seus ninhos
e partiam para um novo dia de aventuras. Borboletas sobrevoavam afoitas
em busca de néctar e pólen o verde exuberante e farto
das pastagens onde o rebanho tingia o pasto feito um enorme borrão
branco.
Laura acordou naquela manhã assustada. Seus lençóis estavam machados de sangue. A menarca havia encerrado a fase de menina dando as boas-vindas à mulher que acabava de despertar.
A temporada de chuvas havia contribuído para presentear os pomares que estavam carregados de flores e não tardaria para que ganhassem frutos. Agora quem fazia a festa eram as abelhas. Mais tarde seriam os pássaros que desfrutariam das mangas, goiabas e pitangas que se exibiriam maduras. O povoado de Santa Fé receberia visitantes que brindariam junto com eles o espetáculo da produção de geléias e doces caseiros.
Trechos de florestas, cerrados, campinas permeiam-se pela planície afora, tudo em equilíbrio dinâmico. Nos terrenos permanentemente alagados, nos lagos, nas baías e nos corixos é possível encontrar espécies flutuantes como os aguapés e as vitórias-régias, com os diversos matizes de branco, azul e roxo de suas flores que formavam ilhotas de vegetação.
Laura após tomar café saiu em busca dos ovos. Percebe que deve aprimorar suas técnicas para encontrar os ninhos. Então reproduz o som que atrai as aves. Aos poucos, as galinhas-d´angola se aproximam... Mesmo desconfiadas, andam mais um pouco. As barulhentas percebem o truque e voam, fogem assustadas para mata cacarejando tô-fraco.
A vegetação em determinado lugar cede lugar a um tapete de gramíneas... Que conduz a matas densas e grupos de carandazais. As palmeiras medindo em torno de 10 metros de altura, faz companhia ao angico-vermelho, as aroeiras, as figueiras e ao ipê-roxo que durante os meses de julho e agosto tingirão a paisagem da planície com os mais variados tons de rosa, lilás e roxo de suas flores.
Após caminhar por um longo trecho, Laura resolve penetrar na mata, ainda tentando descobrir os ovos de galinha-d`angola, ocultos pela vegetação. Era difícil criar galinhas por ali. A presença constante de predadores como as raposas, lobos e gaviões tornava quase nula as chances de sobrevivência das aves que eram ameaçadas mesmo antes do nascimento. Ovos era o prato predileto dos lagartos.
Laura continuava procurando... Ia beirando o mato e abrindo as tocheiras de capim, que era o local preferido para os ninhos. Encontrou depois de muita procura, 15 ovos depositados em uma só ninhada. Feliz, foi colocando no chapéu um a um com todo o cuidado. Pretendia surpreender a mãe com a bela colheita.
Assim que chegou em casa toda satisfeita disse:
- Aqui está mãe! Não disse que ia ser moleza!
A mãe então respondeu:
- Você
é mesmo danada Laura. É pior que moleque.
-
O TEMPO PASSA
Laura cresceu. Continuava ajudando o pai com a lida do gado e participando
das viagens pela região. Apesar das dificuldades ela tinha orgulho
daquela vida. Na época das chuvas, os rios transbordavam e o
rebanho tinha que ser tirado as pressas para ser levado para as partes
mais altas. A planície ficava completamente alagada. O sítio
onde viviam ficava completamente ilhado, e a família, tinha que
sobreviver por semanas sem contato com as outras fazendas.
Aos 17 anos Laura perdeu o pai que morreu vítima de enfarto. Nesta época ela já havia se tornado uma valente tropeira. Conhecia bem a região de Santa Fé, seus perigos e suas armadilhas. Ela amava as belezas daquela terra.
Laura assumiu o lugar de Mestre Josias. Ela continuou percorrendo a planície buscando e levando gado. O pessoal daquele lugar já estava acostumado com Laura no lombo de um cavalo e isto não causava mais nenhum espanto. Ela dominava o berrante e o laço com perfeição.
Dona Palmira permanecia em casa com o terço entre as mãos e com o coração apertado enquanto a filha saía tomando a frente da comitiva. Viajava sempre na companhia de Juca, Procópio e Bruno. Bruno era um jovem negro que Laura havia arranjado para ajudar nas viagens.
LAURA MULHERHaviam se passado 8 anos desde a morte de Mestre Josias. Laura havia acabado de chegar em casa quando Procópio chegou trazendo um recado do Senhor Nicolau Procópio:
- Laura ele mandou dizer que é para você ir até a casa dele para acertar um serviço.
Laura se vestiu apressada, sabia que aquele fazendeiro era um bom e antigo cliente do pai.
Voou feito fecha no lombo de Cristóvão. Chegou arfando e com as bochechas vermelhas na fazenda do vizinho. Entrou na sala do Senhor Nicolau e este lhe disse:
- Laura, eu tenho um trabalho para você. Preciso buscar 300 cabeças de gado que comprei e que tenho que entregar numa fazenda próxima daqui. - E continuando disse: - O problema é que o lugar é um bocado longe. Você topa?
Laura olhou séria ajeitou o chapéu e perguntou:
- Onde está o gado Senhor Nicolau?
- Está na fazenda Ribeirão do Norte, perto da Vila Colibri. Você terá que levar seus homens. Penso que vocês gastarão 7 dias de viagem entre ida e volta.
- E quanto é que o Senhor pretende pagar por isso Senhor Nicolau?
- Na verdade não sou eu que vai pagar pelo serviço. Esse gado é do Doutor Túlio de Medeiros. Você deverá trazer o rebanho e entregar direto na fazenda dele.
- Na fazenda Berrante de Ouro?
- Sim. Porque o espanto?
- É que sempre tive curiosidade de conhecer por aquelas bandas. Fica tão próxima de Santa Fé e dizem que aquela fazenda é coisa de cinema.
Então o Senhor Nicolau aproveitando que Laura estava entusiasmada com a possibilidade de conhecer a Berrante de Ouro, disse:
- Realmente é uma propriedade digna de tirar o chapéu. O Doutor Túlio pagará R$ 2.000,00 reais pelo serviço. O que você acha?
Laura pensou por alguns segundos e respondeu:
- R$ 2.500,00 e eu já estou providenciando tudo. O Senhor sabe que serviço que eu pego eu não entrego pela metade.
- O homem então coçou a barba branca e rala e falou:
- Você é mais difícil de negócio que o finado seu pai menina. Mas tudo bem, falarei com o Doutor Túlio sobre o valor. Mas desde que você não me deixe sumir e nem perder uma cabeça de gado. Combinado?
- Sim combinado. Quando devo partir?
- Na quinta-feira próxima.
- Tudo certo. Partirei na madrugada de quinta-feira, sem falta.
Dona Palmira estava muito preocupada com a decisão da filha. Mas não adiantava dar conselhos. A criatura era teimosa como uma mula. Tinha dito que ia e assim foi mesmo.
Juca, Procópio e Bruno foram convocados. A comitiva levou 4 dias para percorrer os caminhos que levava a Colibri. Reuniram o gado e tomaram o caminho de volta. A viagem seguia tranqüila, o tempo ajudava, não chovia aqueles dias e nenhuma cabeça havia se perdido.
Os tropeiros estavam ansiosos com o regresso. Chegariam à tão famosa Berrante de Ouro, entregariam o gado e retornariam a Santa Fé.
A comitiva parou para descansar quando avistaram o Morro do Urucum. O belo pico anunciava que estavam próximos de casa. Tomaram o caminho da direita que levava as terras da Fazenda do Doutor Medeiros.
Multicolorido, como um arco íris permanente, o céu da planície parece proteger todas as fases da natureza mutante. A frente surgiram serras gigantescas. Verdadeiras esculturas de pedra que arranham os céus. Águas são arremessadas por quedas e cachoeiras que vão revelando um sábio percurso da natureza que esculpi formas e deixa marcas no tempo, enquanto encontram o caminho que as levem para as piscinas naturais ou para as correntezas dos rios. Quilômetros de veludo verde forram parte dessas montanhas, pinceladas de cores por suas flora em uma fascinante tela surrealista.
A energia e o magnetismo do lugar surpreendem os tropeiros. Laura estava ansiosa por explorar cada pedaço deste santuário. Os cavalos partem galopando. Atravessam um enorme tapete de flores que desabrocha sobre o chão.
Seguiram um caminho onde a estrada passava por uma curva perigosa, ao lado de um canyon com mais de 60 metros de altura. Logo adiante, depois da curva dos Labirintos avistaram lá embaixo um cenário que não era ficção cenográfica, mas que se traduzia no mais puro colírio da natureza.
O grupo parou no Mirante da Neblina. Uma plataforma natural projetada em cima de um dos paredões de pedra. O lugar era ideal para ter uma visão panorâmica da planície que se estende até o infinito exposto num visual que se traduz em esperança.
Debruçada nas bordas da planície, vislumbraram a fazenda Berrante de Ouro que abriga cenários que parecem ter saído de um filme. Protegida por paredões de pedra e acolhida por árvores centenárias exploradas por orquídeas e bromélias a casa desabrocha entre flores e borboletas. Um lago azul brilhava entre a casa e as montanhas e era o elo entre a planície e o penhasco. As águas do lago seguiam para uma queda d água alimentando e levando vida ao rio dos Mistérios.
Quando a comitiva chegou, foram recebidos por um homem que se apresentou como Geraldo. Então Laura cumprimentou:
- Boa tarde Senhor Geraldo. Eu gostaria de falar com o Doutor Túlio, proprietário da fazenda.
- O patrão está ocupado resolvendo uns problemas, mas mandou dizer que a vocês podem aguardar que ele logo vem para receber o gado. - E prosseguindo o homem disse: - Agora só estou achando estranho, pois eu não estou acostumado e tratar negócio com mulher.
Laura então fechou a cara e lançando seu olhar frio de serpente respondeu:
- Eu não sei qual o problema e a diferença Senhor Geraldo. Eu vim aqui para entregar os bois e a única coisa que o Senhor terá que fazer é receber o gado e me pagar pelo serviço, e para isso não interessa se sou homem ou mulher. Agora se o Senhor realmente fizer questão, eu posso provar que sou mulher fêmea tanto quanto qualquer homem macho. - E dizendo isso tocou de leve no cabo da arma presa à cintura.
O homem então se assustando disse:
- Calma moça! Eu só achei esquisito. Mas tudo bem.
- Esquisito é filhote de rato que nasce pelado.
Laura saiu apressada cuspindo fogo enquanto Juca e Bruno caíam na risada diante da cara de otário do Senhor Geraldo.
Então Procópio disse:
- Não liga não Senhor Geraldo, ela é braba, mais e gente boa. É só a gente sabe lida com ela. O Senhor vai vê.
O homem então respondeu e saiu em seguida:
- Pelo que vi basta. Vou é procura ficar longe dela.
Estavam cansados de esperar, e nada do Doutor Túlio aparecer. A noite caiu e a comitiva resolveu armar as redes em um galpão feito com tábuas onde havia um monte de tralha. Era o local ideal para um grupo de tropeiros cansados e suados descansar após uma viagem por quilômetros de poeira. O barracão era espaçoso, porém tinha o cheiro peculiar de pelego misturado com pesticida.
Laura trazia ao alcance das mãos o facão e o velho 38 que herdara de Mestre Josias. Com o primeiro tinha habilidade invejável, com o segundo mira para acertar até um mosquito. Para viver segura ali na região dominar esses objetos, era questão de segurança e sobrevivência.
Laura dormiu na rede que havia armado próxima a de Juca e Procópio. Já passava da meia noite quando Laura acordou com um clarão que foi seguido por um estrondo.
Levantou assustada olhando pelas frestas das paredes do galpão e percebeu que ventava forte e que provavelmente uma tempestade estava se formando.
- Calçou as botas, pegou o revólver e o facão e abriu a porta do galpão. Resolveu sair para dar uma olhada no rebanho que ficara preso.
Caminhou em direção a casa do Doutor Túlio, mas foi impedida de passar quando viu que o lago havia transbordado, inundando a passagem que dava acesso ao curral. Olhando melhor observou que havia um barco a margem do lago.
A canoa começou a deslizar sobre o tapete de água cintilante parando diante de Laura. A tropeira olhou assustada e avistou um vulto que lhe convidou a entrar na embarcação.
A mulher estendeu a mão a Laura que aceitou o convite. Zara remou com firmeza a pequena embarcação que driblava as ondas formadas pelo vento e que ia rasgando as águas e a paisagem que encantava. A chuva caia lavando seus corpos. O cheiro da noite era perfumado pelo frescor dos jasmins.
Laura sentiu um frio no estômago quando percebeu que o barco seguia direto para o precipício. Como num passe de mágica desceram pelo véu da noiva e foram acolhidas pelas águas do Rio dos Mistérios.
Agora o barco navegava tranqüilo. À noite as envolviam com seu manto negro enquanto a lua jogava jatos de luz sobre o espelho d água.
Zara estava nua. Seus cabelos voavam ao vento e sua boca se perdia num sorriso. Em determinado instante ela interrompe os movimentos. Deposita os remos suavemente dentro do barco e começa a assobiar uma melodia de encantamento. Um barulho rasga a água e dele surge um rabo prateado que se agita dando saltos em torno do barco.
A bela sereia aparece afoita. Ela tem os cabelos longos e dourados. Na cabeça traz uma flor de lótus. Os braços e as mãos possuem aparência frágil apesar de se mover com agilidade dentro da água.
A lua ilumina o ser mágico e Laura pode vislumbrar a beleza da mulher que possuí um rosto de princesa. Seu nome é Lígia. Sua boca é vermelha e sensual. Os seios são fartos e firmes.
Ligia se aproxima e com as duas mãos segura nas bordas do barco. Zara beija-lhe os lábios. A sereia canta tentando enfeitiçar e seduzir Zara. O canto é levado pelo vento e traz para flor da água uma porção de botos cor de rosa que brincam e dançam em torno da sereia.
Os botos fazem acrobacias e executam um balé, enquanto Zara perfuma e penteia os cabelos de Ligia. Zara namora a sereia por horas. Fricciona seus mamilos com mel até deixá-los rosados e eriçados. Então Zara ignorando o rabo de peixe, envolve com seus braços a cintura perfeita do ser mágico. Suas mãos massageiam a pele branca e lisa da sereia enquanto sua boca vai ao encontro do beijo e sua língua afoita sente o gosto salgado da fêmea presente.
Então Zara entra em sintonia com aquele corpo, acredita que a sereia como qualquer fêmea tem desejo de sexo. Com certeza uma criatura tão bela tinha seus segredos e feliz de quem fosse capaz de desvendá-los.
Ela sorri para Zara que perde a cabeça por ela. Zara puxa Ligia para dentro do barco e então se deita sobre ela. As duas rolam pelo fundo do barco numa luta de corpo a corpo.
Zara pega uma rede e alguns agasalhos que estavam no barco e improvisa uma almofada para que a bela sereia possa descansar seu lindo quadril. As mãos de Zara percorrem a pele macia da mulher peixe que cisma fugir da sua algoz. Zara beija-lhe os seios e provoca suspiros enquanto acaricia Ligia que se debate no fundo do barco. Zara explora cada centímetro daquele ser misterioso e descobre que em determinado ponto daquela maravilhosa cauda existe algo que nenhum pescador fora capaz de desvendar: O ponto "G" tão familiar às mulheres. Então Zara não perde tempo quando introduz suavemente os dedos e estimula profundamente o ponto mágico e juntas tremem de prazer. Zara vira a sereia de bruços, provoca nela movimentos mais bruscos e arranca dela gemidos e um néctar que se perde e se vai nas águas junto com a bela sereia.
Lígia iria ensinar a todas as outras sereias do mundo o que havia aprendido naquela noite. Com certeza os pescadores nunca mais teriam seus barcos atraídos por elas. Agora elas tinham coisas mais interessantes a fazer do que ficar cantando para eles.
Quando a noite encontrou o dia uma outra sereia renascia em cores e movimento no coração do Lago Encantado.
CAPÍTULO IV
KENIA E TÚLIO
Existem pessoas que marcam por sua história e beleza. Laura com seu jeito exuberante e selvagem, havia marcado o coração de Kenia como uma tatuagem exótica.
Na noite anterior Kenia havia se trancado no quarto. Pretendia não encarar o marido quando este retornasse do trabalho de apagar o incêndio. Túlio conhecendo o gênio de Kenia deixou que a conversa ficasse para o dia seguinte.
Kenia acordou tarde como de costume. No momento tomava chá de alfazema na ampla cozinha da fazenda.
Túlio entra na cozinha e diz:
- Sua maluca! Onde já se viu botar fogo no mato!
Kenia então retruca:
- Eu avisei que não queria vir para este fim de mundo. Eu ia adivinhar que uma pequena ponta de cigarro seria suficiente para provocar um inferno como aquele?
Túlio então tenta manter a calma, passa a mão na cabeça e diz:
- Kenia eu preciso da sua ajuda. As coisas por aqui estão ficando cada dia mais difíceis.
Kenia aumenta o timbre da voz e fala:
- Eu não agüento mais fazer parte desta sua vida de crimes.
Túlio então puxa a toalha da mesa e derruba todo o desjejum e grita:
- Cala a boca sua cretina! Ou você me ajuda ou eu mato você. Aqui neste fim de mundo ninguém vai sentir a sua falta.
A TRISTE VIDA DE KENIA
Kenia estava casada com Túlio há dez anos. Nos primeiros anos de casados reinou um clima de paz entre o casal. Túlio viajava muito além de passar dias enfurnado na fazenda. Kenia dedicava seu tempo com roupas, jóias e no Haras Alpes Verdes, em São Paulo, onde praticava equitação. Ela tinha verdadeira paixão por cavalos.
Cansada de passar a maior parte do tempo mergulhada na solidão do casamento, Kenia resolveu acompanhar o marido nas suas viagens. Ela não conseguia entender que tipo de negócio poderia ter o esposo com homens tão estranhos que ligavam com certa freqüência para sua casa sem jamais se identificarem de forma clara. Ela era sensível o suficiente para perceber que o trabalho do esposo era envolvido por um clima de mistério.
Kenia começou a ficar desconfiada a ponto de prestar mais atenção aos telefonemas de Túlio, descobrindo então que ele era um poderoso traficante de drogas. Então o chamou e disse:
- Túlio, eu estou muito preocupada com você. Não tente esconder nada sobre os seus negócios. Eu já descobri tudo.
Túlio ficou muito nervoso e tentando se justificar falou:
- Kenia é o meu negócio. É assim que eu ganho nossa vida. O que você quer que eu faça?
Kenia então ordenou:
- Túlio eu quero que você largue tudo isso. Eu juro que ajudo você. Eu trabalho no que for preciso, mas eu não aceito o que você está fazendo!
- O homem então olhou para Kenia como nunca havia olhado antes e disse:
- Kenia você não sabe o que está falando! Não conhece esse mundo. Quando se entra nele, jamais se consegue sair. Além do mais eu não pretendo deixar o que demorei muito para conseguir conquistar. Eu nunca neguei nada a você. Você tem uma vida de rainha, não tem nada que interferir em meus negócios. Não é problema seu como eu ganho o dinheiro que sustenta a nossa casa e os seus luxos.
Kenia então perguntou:
- E se eu não aceitar?
- Você não tem escolha Kenia. Neste mundo quem não colabora ou entra no esquema, não tem vida longa.
- Kenia então olhou assustada para o marido e perguntou:
- Você está me ameaçando Túlio?
- Ele respondeu:
- Não minha querida, eu só estou avisando você. É que te amo muito e não quero que o pior aconteça.
Os anos se passaram e Kenia procurou seguir os conselhos do marido.
Mulher requintada e de personalidade forte, gostava da vida que levava.
Rodeada de gente rica e importante, participava de muitas festas o que
a levou a conhecer pessoas interessantes, com quem mantinha flertes,
namoricos e vez ou outra não tardando a viver paixões
arrebatadoras que lhe renderam muita dor de cabeça.
NOS PRÓXIMOS DIAS
Uma semana havia se passado desde que Laura chegara da Berrante de Ouro. Naqueles dias a tropeira tinha concentrado sua energia em cuidar de vários afazeres em Santa Fé. Tentava esquecer a imagem de Kenia, mas infelizmente não conseguia. Até Zara havia lhe abandonado. Sua mente estava totalmente ocupada pela bela fazendeira.
Dona Palmira estava um tanto doente. Passava a maior parte do tempo acamada e Laura estava vivendo momentos difíceis. O médico não havia alimentado esperanças quanto à saúde da mãe, dando-lhe poucos meses de vida.
A região estava agitada naquela semana. Todos se preparavam para a Festa do Laço que animaria o domingo dos moradores de Santa Fé e imediações.
Laura mesmo abalada com a doença da mãe resolveu comparecer a festa após insistência de Procópio que lhe disse:
- Laura
você precisa se distrair um pouco. Além do mais será
uma beleza de festa onde você poderá mostrar a todos o
quanto é boa no laço.
A FESTA DO LAÇO
Desde muito cedo o espaço foi se animando... Espetinhos assando em braseiros, tachos com garrafas de cerveja mergulhadas em gelo e palha de arroz, tábuas apoiadas em cavaletes serviam de mesas onde se acomodavam doces caramelados que atraiam abelhas afoitas... Tudo isso abrigado na sombra de árvores ou embaixo de encerados.
Moças e rapazes desfilavam cinturões e fivelas que seguravam calças justas. Chapéus e botas de couro completavam o traje dos peões e fazendeiros que iam chegando e se acomodando para assistir as apresentações que aconteceriam ao longo do dia.
Várias atrações aconteciam: Montaria em touro, mesa da amargura, pau de sebo, bingo... Crianças montadas em pôneis encenavam uma história de faroeste com direito a cawboys e índios.
No momento, competidores e espectadores se preparavam para assistir à bela apresentação que aconteceria dentro de poucos minutos "a prova do laço". Laura estava apoiada na cerca de proteção do recinto quando o dono da famosa Berrante de Ouro chegou acompanhado da esposa.
Laura agradeceu a Deus por contar com o apoio da cerca, do contrário teria desabado diante da fraqueza que tomou conta das suas pernas. O casal passou por ela e Laura observou que Kenia não a viu.
Laura sentiu-se insegura. Sabia que dali a instantes seria a próxima escalada para participar da prova do laço. Estava incomodada com a presença de Kenia na festa. Começou a ficar preocupada... E se de repente ela desabasse no meio do recinto?
Estava nervosa quando Procópio chegou por trás bateu em seu ombro fazendo com que ela levasse um tremendo susto.
- Credo Procópio, tá a fim de me matar é?
- Imagina Laura eu só vim lhe dizer que é melhor você se preparar. Daqui a pouco é a sua vez.
O laço é um dos instrumentos mais úteis para o tropeiro, tanto nas comitivas de gado como nos trabalhos rotineiros de campo. Serve para laçar bois e cavalos, quando estes fogem ao controle ou precisa ser curado ou marcado. Ter domínio do laço é considerado uma habilidade importante, digna de status na vida de um tropeiro.
Laura entra no recinto entre gritos e palmas. A bela amazona não se intimida com os adversários e com a presença de Kenia. Disputa a prova com cerca de dez cavaleiros e vence em primeiro lugar. A talentosa tropeira monta o cavalo Cristóvão. Sob sol forte, prova que sabe dosar o ritmo de sua montaria e a precisão na laçada, quando persegue o boi em disparada pela cancha. A platéia entra em delírio quando com um único e perfeito lançamento ela arremessa o laço envolvendo apenas os chifres do animal, deixando o pescoço do ágil touro Demônio livre. Ela foi ovacionada e coroada a atração especial da festa.
FORA DO RECINTO
Laura se encontrou com Juca e Procópio que lhe cumprimentaram. Procópio então fala:
- Meu Deus Laura, hoje você está com o Demônio no corpo!
- Imagina! O Demônio eu acabei de derrubar na raia agorinha!
Procópio então riu e gabou:
- Pois é... Isso tudo foi graças ao belo laço que eu fiz para você. Não é mesmo?
- Realmente. Você caprichou desta vez!
- Pois é. Você se lembra daquela vaca do Senhor Nicolau? Dela só não aproveitamos o mugido. Depois de toda aquela fartura de carne, eu imaginei que o couro daria um belo laço. Então dependurei a pele que foi descarnada pelos esfomeados carcarás. Depois de um tempo, trançado antes do sol nascer e esfregado com folhas de "fedegoso". Finalmente eu curti o danado na água de casca de angico vermelho.
- Nossa tudo isso?
- Pois é... Aprendi com o finado padrinho Zelito.