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Home+ 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 Capítulo 1: O APROXIMAR DA AURORA (Primeira Parte) Ela percebeu com o aproximar da primeira luz da aurora, que chegara o momento de partir. Sorriu ao sentir a presença de seu amor ao seu lado, sussurrando-lhe palavras ternas e a pressão suave dos seus dedos em sua mão. Podia sentir o perfume de seus cabelos e o sabor de sua pele.
Otávio ao sentir que ela se movera, acordou sobressaltado. _____O remédio! _____Não! Deixe-me... quero sentir... apenas sentir algo mais infinito e intenso do que a dor e o medo! _____Mas patrô, o médico disse... A angústia daquele companheiro e amigo de anos a comoveu mais ainda. _____Vá para seu quarto, Tato... e procure dormir. Eu preciso ficar só por um instante ao menos. O moço saiu receoso mesmo compreendendo-lhe a necessidade. Aurora precisava daqueles preciosos momentos para si, como os animais, na derradeira hora. Um percurso que sempre se faz só. A vida e a morte. Mas ela sentia que era apenas por um estreito e breve caminho. Na mão, a carta que insistia em reter. Lera e relê-la as letras ali finamente grafadas e as molhara com suas lágrimas. Três dias se passaram depois que o recebera e não mais se separara dele. Em breves segundos, sua vida passou a ser repassada no quadro de sua mente. Cores nítidas , melhores do que os sonhos. Uma menina alegre. Um jardim e o arco-íris formado pelo vapor da água contra o sol. Depois as perdas, as lutas e os amores. Houveram conquistas também. Muitas principalmente em razão da dádiva que recebera ao nascer: Sabia moldar o barro com impressionante talento e beleza, talento esse rapidamente reconhecido em seu meio social e país. Mas aqueles eram outros tempos e os momentos vivenciados não mais se repetiriam. As imagens aceleraram seu curso (se possível fosse acelerar os frames fantásticos das lembranças) estacando-se e voltando ao seu ritmo sereno em certa manhã de outono. Uma manhã peculiar e inesquecível. MANHÃ Poucas noites, tantos sonhos! E na sua frente, uma imagem que ela sentia porém não conseguia ver ou tocar pois seu sonho não possuía forma ou cor. Outras noites e o mesmo sonho... Era curioso, pois Aurora pensava fazer parte de um rol de pessoas privilegiadas: As que sonham com toda cor em estado de contemplação onírica de tão perfeita e luminosa densidade que quase se pode sentir o perfume doce da vida e o som de seu caminhar, consubstanciada em músicas inebriantes. Adorava as manhãs. Era o momento em que seu sono, mesmo leve, parecia restaurar toda sua energia vital e intelectual e ela se enrolava e rolava nos lençóis perfumados de sua cama, até sentir o cheiro delicioso do café recém coado que o homem a quem amava fazia e lhe trazia na cama. ___O que me falta mais nesta vida?- Indagava para sim mesma, enquanto sorvia o líquido estimulante e contemplava o moço bonito e viril que lhe sorria, com dentes alvos e olhar ansioso, em busca de sua aprovação. ___E então, gostou? ___Hummm! Este seu café é uma obra de arte! - comentou. Ele riu. ___Sempre diz isso, Aurora! ___Ah! Já disse? Vou procurar não repetir! ___Não! Adoro ouvir... Ela terminou de beber e ele recolheu a xícara gentilmente de sua mão, enquanto a tomava em seus braços e a levava até o delicioso varandado do quarto. Sentou-se em uma namoradeira e ainda com ela em seu colo, juntos esperaram que o sol raiasse por completo em um espetáculo maravilhoso. ___Ele sempre faz isso! - comentou ela, emocionada.____e muitas vezes, na maioria, estamos dormindo! ___Pois, a partir de hoje, fica decretado que não perderemos mais nenhum desses espetáculos! - disse ele, cerimonioso. Riram e beijaram-se ternamente e Maurício, afastando com os dedos as mechas de cabelos do rosto de sua amante, informou. ___Preciso pegar o rumo do trabalho! ___Vai amor e cuide-se! ___Não se preocupe, o que poderia acontecer de errado em um dia tão luminoso como este? Mais tarde ligo, como de costume. ___Estarei esperando. - sussurrou ela, não muito contente de ter que sair do colo dele. ESTÍGMA Ainda naquela manhã, feliz e sentindo mulher plena e amada, produziu a "alma da terra". Dera este nome ao vaso que moldara com tanta paixão e que para si, era a perfeição, a obra prima de uma vida. Depois da "Alma da Terra", tudo que suas mãos gerassem, seria tido como imperfeito ou quando muito, medíocre. ___Obras-primas só devem ser geradas há um passo da morte, pois é o marco, o apogeu do trabalho de um artista. Depois dela, nada mais há que importe. - pensava. Fatalmente, a vida dela, a artista, teve seu curso sereno e feliz interrompido exatamente na manhã em que a "Alma da Terra" surgira. Um menino andrajoso apertou a campainha. Distraída, Aurora saiu do estúdio e atravessou o longo jardim até o portão. Viu a criatura faminta, quase uma criança e teve pena. Ofereceu-lhe algo. Talvez um pão recém retirado do forno que Otávio sabia preparar. Talvez um copo de leite ou refrigerante. A arma na mão a fez perceber que estava sofrendo uma invasão em seu reduto de paz. Com o garoto vieram outros três indivíduos. Homens de face crua, endurecida e olhos de brilho malévolo. Levaram o que encontraram de valor na casa, depois de prenderem Otávio em um armário. Ele ao menos teve sorte. Com ela, fizeram toda sorte de sevícias e degradação física. Por fim, lançaram-lhe ácido na face direita, deformando-lhe o belo rosto de forma irreversível. O nome do seu principal algoz, ela ouvira. José. Havia em José um ódio insano contra aquela burguesa bonita que para si, criatura degenerada, representava o espelho cristalino que refletia a grotesca imagem de suas alma escura, como buracos negros que se alimentam de astros luminosos. SOBREVIVER As manhãs, depois daquele dia, nunca mais foram as mesmas. Aurora mergulhara na escuridão de sua amargura e o desespero a atacou tão perigosamente que para que continuasse sobrevivendo, fora submetida a ano e meses de forte medicamentação e por fim terapia. E assim, diante de muita insistência de sua terapeuta, Aurora aceitou voltar a lecionar escultura e modelagem em argila. ___Pelo menos por um semestre! Carla poderá começar na próxima segunda. ___Mas o que a faz pensar que eu poderia ajudar sua sobrinha? Não me sinto em condições de ajudar nem a mim mesma! ___Você bem sabe a filosofia do meu trabalho, Aurora! O trauma que passou e as seqüelas emocionais que você carrega precisam encontrar vazão e sua luz iluminará a estrada, tanto para si, quanto para ela! ___estou em franca melhora. A terapia tem me ajudado muito! - afirmou a artista, desanimada diante daquele pedido do qual não conseguia se desvencilhar. ___Escute, você confia em mim? ___Sim, eu confio Laura, você bem sabe disso! ___Então vá e ensine-a! Diante da escuridão e o medo com quem passara a conviver, Aurora apegou-se a Laura com gana. Reconhecia nela, a lâmpada que lhe alumiava os passos desesperados diante da vida e não se sentia com forças para lhe recusar qualquer pedido. Voltou ao estúdio e pediu a Otávio que tornasse a providenciar argila e outros equipamentos necessários para a modelagem. ___Que maravilha, patrôooo! - regozijou-se o rapaz, seu empregado a quem ela considerava um fiel e dedicado companheiro e que pelo seu lado, muito se orgulhava de seu "status" de "quase-mordomo" da casa. Governanta não seria pois o "moço", apesar de se comportar como uma "moça", nascera do sexo masculino. Elucubração sobre a sexualidade de Otávio à parte, a tarde caía e sua nova aluna já se atrasara em trinta minutos. ____Não desista dela! - Ouvia ainda a voz de Laura, insistir em sua mente, quando da portaria avisaram da chegada de um enorme carro de luxo no condomínio. LEITMOTIF (Leitmotif", para os não iniciados- é uma invenção do compositor Richard Wagner. Consiste em associar um tema musical a cada personagem ou ação. Por exemplo, em sua obra "O Anel dos Nibelungos" cada personagem tem seu tema. Quando ouvimos esse tema-condutor (motivo-condutor, leitmotif em alemão) sabemos que a ação se refere ao personagem.) Ela chegou quando o dia mergulhava na escuridão e o leit-motiv que anunciou sua entrada em cena, a música "Save Your Love" cantada pelos Bad Boys Blue, tocava ao potente som blaster-booster do magnífico veículo. Sentada na rede no confortável varandado, Aurora quase não conseguia conter o aborrecimento que lhe causou o atraso e a expressão de superioridade e cinismo no rosto daquela jovem alta e bem talhada de corpo que saiu arrogantemente do carro. A artista entrou no ateliê, juntamente com a recém chegada que curiosamente, ao andar, tinha que ser amparada por seu motorista Martino. O local já estava preparado meticulosamente para a aula. No balcão, a argila vibrante, sem nódulos ou impurezas, pronta para ser moldada. No centro, o rotor e as banquetas de pernas curtas, quase a rés do chão. Aquele era seu santuário de paz e magia, no qual ela não tocara mais após a fatalidade que lhe ocorrera. Aurora estranhou que sua nova aluna passasse diante de si, sem ao menos lhe voltar o rosto e entrara no recinto, martelando os batentes, portas e colunas com uma espécie de bengala fina de metal escuro e detalhes dourados. Constatou tarde demais, após 5 objetos partidos, outros lascados ou reduzidos a cacos, que sua nova aluna tratava-se de uma cega!. E não era uma cega qualquer pois insistia em se mover pelo estúdio como se não possuísse qualquer limitação, rejeitando a mão orientadora de seu empregado. _____Um absurdo. Totalmente "non sense" . Não há como iniciar uma cega na arte de modelar! - pensou a artista, beirando à uma crise de nervos pois nunca havia se deparado com experiência semelhante e não se sentia nada capaz de enfrentar a situação, principalmente no estado delicado em que se encontrava. Diante do estado estático da "patroa", Otávio tomou a iniciativa de, auxiliado pelo motorista, acomodarem a rebelde em um macio assento no ateliê. No rosto, ela mantinha óculos escuros. Vestia-se com um conjunto de moleton negro grande que lhe ocultava totalmente a silhueta. Na cabeça, um boné, que protegia seus cabelos amarrados. Pela estatura alta e compleição física, poderia se passar por um rapaz, mas dava para perceber o nariz feminino e os lábios harmoniosos, incrustados em um rosto talhado como se no mais puro carrara. A tensão estava ali, impregnada nas mãos nervosas de Carla, que parecia espremer a empunhadura de sua bengala e no mutismo de Aurora que não sabia se passava a socar a argila ou se pedia delicadamente ao Otávio para que providenciasse a remoção dos cacos partidos, juntamente com o "terror da cerâmica" que naquele momento, aspirava o ar, como um animal selvagem pressentindo o odor do stress que causara em sua presa. Decidiu ligar o rotor e entregar à aluna a argila macia, enquanto iniciava uma pequena introdução sobre os mistérios da argila e modelagem. Ao fim apresentou-se, cautelosamente e nada recebeu como resposta a não ser um gesto que se tornaria comum: O rosto sempre voltado para o lado, tão logo detectasse onde a mestre estava postada. Uma atitude estranha e intrigante. Então, decidiu chamá-la ao rotor, postando-se atrás dela e segurou-lhe as mãos nas suas, fazendo-as aproximarem-se da massa informe, lentamente. Que coração, por mais endurecido que fosse, poderia resistir ao toque criador na argila? ____Sinta a massa. Ela gira e se alonga. Devagar e suave... é como o embrião tomando forma, crescendo...Pode senti-la pulsar entre seus dedos... A voz compassada e branda da artista, estimulava a aprendiz que tinha as mãos suadas e frias. _____ Veja! A massa está criando forma! - sussurrou-lhe. Para a mestre, aquele momento, o fazer-se da massa informe, era pleno, quase sagrado e ela nunca conseguia deixar de emocionar-se. Em um gesto brusco, como se em espasmo, a aprendiz esmiuçou e deformou toda a esguia coluna que estava se formando, levantando-se e se agarrando à sua temível bengala. ____Afaste-se de mim e nunca mais me toque. Nossa aula termina aqui!- disse Carla com voz carregada de raiva, enquanto preparava-se desajeitadamente para sair. Aurora sentiu um misto de decepção e alívio ao vê-la caminhar trôpega pelo estúdio em busca da porta. Certamente já memorizara o ambiente...mas... não os objetos. O esmiuçar do vaso que estava posto exatamente ao lado da porta de entrada deste, fez a mestre estacar paralisada com a garganta seca, enquanto sua mente e seu eu interior gritava em desespero. Ela destruíra o "Alma da Terra" e Aurora visualizou a ultima centelha de seu passado feliz, extinguir-se à sua frente. ____Patrôoooo! Ela, ela-a-a-a destruiu sua obra-prima! - uivou Otávio, com as mãos na cabeça, ao entrar na sala, atraído pelo ruído. A aluna já se acomodara silenciosa no carro, com o rosto inexpressivo, enquanto o motorista apressava-se para entregar a artista uma boa quantia em dinheiro. ____A senhorita Torres acha que dá para pagar a despesa com a aula e os objetos partidos! - informou o motorista, embaraçado. Otávio tomou o envelope com o dinheiro da mão do moço. ____Vai embora e leve a "Abominação da Desolação" para longe de minha patroa! - mandou raivoso. Aurora, diante da confusão que se instaurara, conseguiu se livrar de sua catatonia e a falar com alguma dificuldade, apanhando o envelope e tornando a entregá-lo para o Martino. ____Diga para sua patroa que não aceito o dinheiro. Quanto a continuar a lhe dar aulas, devo dizer que tenho alguns compromissos para cumprir por um longo período, o que me impossibilita de oferecê-las. Estou certa que se ela desejar aprender a modelar, encontrará outros mestres dispostos a orientá-la ____Tudo bem senhora, eu direi! - desculpou-se o moço. Saíram finalmente com o som do carro tocando a plena potência. TERAPIA ____Não posso ensiná-la Laura, ela é cega! ____Já está ensinando e aprendendo! ____Não entendo! Ela destruiu a obra-prima de minha vida com apenas um movimento daquele odioso bastão de metal e a impressão que tive era de que fazia de propósito! ____acalme-se Aurora! Lembre-se que Carla não entrou na sua vida ao acaso. Existe uma finalidade maior, não um movimento aleatório do destino! ____Ela me fez acreditar que uma crise de pânico se avizinhava. Tenho muito medo... preciso de paz... ____precisa enfrentar o medo da morte. Então encontrarás a paz e a Síndrome do Pânico não mais a torturará... ____mas eu não consigo... ____Precisa de fé, Aurora para conseguir assimilar espontaneamente o que sua mente finita não alcança. ____Eu tenho tentado, mas nada faz sentido e não possui a menor verossimilhança! Não aceito fé emprestada! ____Podes emprestar a crença, nunca a fé. Acreditar é diferente. Nós acreditamos que um raio existe pois já o vimos riscar o céu e se abater sobre a terra. A fé é a convicção de coisas que nunca vimos ou jamais veremos. É apenas sentir e ter certeza. ____Como a criança? ____Sim... como o acreditar de uma criança. Uma fé pura e singela, porém poderosa que é rompida com a maturidade. ____Então quanto mais pensamos que aprendemos, mais nos tornamos imperfeitos? ____Não! A fé é um dom sublime em seu estado puro, mas existe substratos dela, os sofismas e outras premissas enganosas que são perigosas. Em nome de uma suposta fé muito sangue inocente foi derramado! A história está cheia de relatos. Na verdade não podemos chamar este fenômeno de fé e sim fanatismo. É perigoso quando a convicção da verdade nas pessoas, assoma uma proporção incontrolável que se expande além do limite da liberdade de pensar e agir de seu semelhante, ou mesmo, contra os animais e a natureza. Aurora silenciou, refletindo sobre o que sua terapeuta acabara de lhe dizer. Eram argumentos muito complexos para si no momento e sentia-se perdida. ____Bem, o tempo está nos escapando. - disse Laura, consultando o relógio.____vamos iniciar nossa terapia de regressão de hoje. Ao fim, irá se lembrar de tudo e então, deverá fazer em casa a meditação que recomendei. Quero que reflita sobre Carla e sobre poder compartilhar com ela, a dádiva de poder gerar formas harmônicas com as mãos. MONSTRO DO LODO Aurora decidira-se a tentar. Mesmo porque a experiência que tudo aquilo lhe proporcionaria seria única, ímpar e convenceu-se que nada haveria de perder e tornar a magoá-la. Esperou pelo cair da tarde e pela aluna que novamente se atrasara ou mesmo, não viria mais. Porém, eis o som daquela música peculiar e a mesma cena da jovem cega que tornara a se personificar em seu mundo particular, invadindo-a e ameaçando-lhe o caminhar sereno e melancólico das horas. Desta vez, nada quebrara. Otávio retirara qualquer objeto sensível às estocadas do metal do percurso. Sentou-se, acionando o rotor e postando-se como de costume atrás de Carla. O telefone tocou e a artista estava com as mãos cobertas de argila e não quis atender o aparelho. Havia o viva-voz e Otávio devia estar muito concentrado em algum afazer doméstico no interior da casa pois não o atendera antes que uma voz arquejante e cruel rompesse o silêncio do ambiente. ____Atenda! - a voz desagradável e já conhecida, comandou.____Atenda, aberração! Não pode me evitar sempre! Estou lhe avisando, suma! Não queremos a presença do monstro do lodo assustando nossas crianças! Desligou. Aurora empalideceu e passou a ter dificuldade para respirar. Suas mãos, que já haviam tomado as de Carla, tremeram e um soluço de dor escapou-lhe pela garganta. Aqueles trotes estavam se tornando mais freqüentes e agressivos a cada dia. ____É assim que a chamam? Monstro do Lodo? A artista não tinha voz para responder e foi surpreendida pelo toque da aluna em seu rosto, marcando sua face intacta com a argila. Não expressou qualquer movimento para impedi-la de tatear sua pele e alcançar a borda rígida da meia-máscara que lhe ocultava a face mutilada. ____És tão imperfeita quanto eu. Agora entendo! - concluiu a aluna, levantando-se e procurando encontrar a saída, pois novamente, dera a aula por encerrada. Otávio apareceu afobado, com um espanador e balde na mão, assustando-se ao ver a palidez de Aurora. ____O que aquela mulher horrível fez desta vez, patrô! ____nada! Desta vez, nada! ____A patrô está palidezézima. Parece que viu esprito... ____Não! Eu não vi "esprito". Eu ouvi uma criatura das profundezas que insiste em tentar obrigar-me a me mudar daqui, mas esta casa foi de meus pais, e enquanto puder, eu não vou abandoná-la. ____ah! Aquele anônimo molestador de mulheres de novo? Precisamos avisar a polícia! ____Não adianta Otavio. Ele é um covarde opressor e o que quer é amedrontar-me com suas ameaças. Não vou ceder . Se alguém tem que mudar deste condomínio, este alguém é ele! GALAXIA Não sabia se sua aluna viria para a aula naquela semana e não se preocupava pois muito em seu interior, esperava que ela desistisse espontaneamente, o que não deixaria margem à Laura para contra argumentar. Apagou as luzes e colocou baixinho a doce melodia da ária 3 de Bach. Otávio não ousaria a aparecer no estúdio pois sabia que estava em meio à sua meditação. Laura a estava ensinando a meditar para que conseguisse vencer a síndrome e todas as fobias que a torturavam. Deitou-se na sua deliciosa chess-long e de olhos fechados, com a música assomando sua alma, imaginou-se mergulhando na galáxia infinita, profunda e eterna. Seu corpo pairava no vazio enquanto sua mente buscava se aproximar das estrelas de brilho intenso e magnífico. Nada mais a prendia ou oprimia. Não sentia mais angústia e sua vida, adquiria um significado maior, pleno. Encorajou seu eu a navegar primeiro à beira-mar, flutuando rente às espumas das ondas. Depois, deixou-se levar, como uma gaivota para o alto mar, vezes avançando contra o azul do céu, outras, mergulhando na imensidão das águas, coabitando com criaturas de múltiplas formas e cores. Podia respirar com prazer e deliciar-se naquele mundo especial. Aqui e ali, apareciam imagens, como retalhos. Um balão vermelho naquela praça do coreto. O choro diante da estátua do Rui Barbosa. Um cavalo magro, com a linha da coluna dorsal machucando-lhe o osso púbico. A pinguela e a estrada. Além, um pomar. Seu encantamento rompeu-se no exato momento em que explorava, em mente, uma flor de maracujá e o perfume dela...uma flagrância sofisticada... mais propriamente a usada por Carla. Despertou aturdida, imaginando quanto tempo a aluna já se encontrava sentada e silenciosa no estúdio. Nada ouvira. Nem o ronco do motor do carro, nem o Leitmotif. Sua respiração nervosa, demonstrou que tomara conhecimento da presença da invasora, ao que esta moveu sua bengala de metal, perigosamente. ____Continue! Estava meditando? ____Sim! ____Laura quer me ensinar a meditar, mas acho algo totalmente desnecessário! ____Para mim está sendo essencial. ____Onde estava "viajando" quando cheguei? ____à beira-mar, alto-mar, nas profundezas do oceano e céu. Depois, mergulhei nas lembranças de minha infância! ____E o que isso lhe trás de melhor, de novo? ____A princípio, esvaziamento da ansiedade, o que já é um bom começo! ____Cuida para que no futuro não esteja correndo em torno de fogueiras nas madrugadas, uivando como lobas no cio! - observou Carla, mordaz. ____Está se referindo aos rituais das wiccas, é isso? ____apenas dando um "toque" sobre o futuro comportamento das criaturas que seguem os ensinamentos de titia... Havia, nas palavras dela, algo entre amargura, ceticismo ou desprezo. Aurora resolveu interromper a conversa e iniciar a aula, visto que a aluna a quem não esperava mais, ali estava. Admirou-se não ter ouvido a voz esganiçada do Otávio, gritando-lhe para avisar sobre a chegada da "Criatura do Breu" (um dos inúmeros apelidos que ele lhe aplicara). Talvez estivesse na cozinha, envolto em alguma de suas mirabolantes receitas de bolo, tortas e pudins exóticos. Levantou-se e não se deu ao trabalho de acender as luzes. A tarde já caíra há muito e o céu noturno, mergulhara em um negror aveludado, tecido com pingos de diamantes cintilantes. Carla já se encontrava sentada em uma confortável poltrona perto da grande janela que dava para a varanda, esperando. Não era preciso visualizar-lhe o rosto para sentir que naquele dia, algo estava diferente. Aurora explicou-lhe que apreciava iniciar suas aulas com um poema. ____O dia Hoje é uma taça plena... ____Cheia de Cicuta e estrume! - completou Carla. Sobreveio o silêncio sinistro que antecede as terríveis tormentas. A mestra silenciou e conteve sua fúria. Não terminou de recitar, cuidando para não entrar no jogo deletério que ameaçava a se iniciar. Ligou o rotor. ______Quem escreveu a poesia? ______Nem me lembro! - retrucou a artista, amuada.____Venha até o rotor! - mandou. A escuridão estava lhe dificultando os movimento, então se decidiu por reacender as luzes. _____Não! - obstaculizou a aluna. _____Preciso da luz! Como soube que estávamos na escuridão? _____Segredos de cegos! Vamos... quero que me mostre como é moldar sem poder ver, se realmente você for capaz. _____Eu posso! _____Se mostrar que pode, assim, provará que também posso aprender! - argumentou Carla. Aurora rememorou toda sua discussão anterior com Laura, tentando lembrar algo sobre a importância de conseguir ensinar àquela cega a modelar, mesmo que fosse apenas um pequeno vaso torto. Postou-se como de costume atrás de sua aluna, avisando que desta vez, seria ela a mestra a moldar, enquanto Carla pousaria sua mão sobre a dela e sentiria seus movimentos lentos, suaves e precisos. ____Porque está de máscara? Eu não posso vê-la! - exclamou abruptamente a aluna, fazendo com que Aurora tivesse um sobressalto pois mesmo através de densa escuridão, Carla parecia poder ver além dos seus olhos sem luz. Aquela impressão do sobrenatural, dissipou-se, ao sentir o rosto dela, tocando na parte do seu, coberta pela máscara. ____Uso a máscara para não causar pavor nas pessoas! - confessou. ____Está assim tão mutilada? ____meu algoz, fez um belo trabalho! - respondeu a mestra, com um fio de voz, sentindo uma espécie de dor que iniciou-se pequena, avançando contra seu peito e ameaçando parti-la. A argila, que já estava se alongando, como muralhas circulares diante de suas mãos, partiu-se e girou informe ante as mãos, agora trêmulas que Carla tomou nas suas. ____Estão molhadas! Você está sofrendo! ____Não estou me sentindo bem. Preciso de ar, de luz... A artista levantou-se e saiu para o varandado. Sentou-se na rede e mirou a grandeza do céu estrelado, respirando com sofreguidão, até que aos poucos, a vertigem e a angústia que precediam um ataque de pânico, dissipassem. Mais uma vez conseguira se livrar de um surto, mas até quando conseguiria? Carla saiu do estúdio, sentando-se ao seu lado no banco, como se pudesse também observar a beleza tranqüilizadora da noite. ____Aurora! Belo nome. - observou Carla, baixinho. ____Minha mãe tinha fascinação por fenômenos da natureza. A sorte foi que sou filha única, senão poderia ter irmãos chamados, Tufão, Furacão, Nevasca... Riram pela primeira vez juntas, o que pareceu encorajar o pedido da aluna. ____Tire a máscara. Não há necessidade dela ao meu lado! ____Por favor! Não precisamos voltar a esse assunto. Não em uma noite tão linda como esta. ____Pode descrever ? Sinto o cheiro do orvalho, dos eucaliptos, mas não posso ver o luar, o céu... A voz emocionada dela parecia suplicar apenas uma fagulha de sua visão para vislumbrar a beleza das formas, cores e a luz das estrelas. Aurora assentiu e passou a descrever o céu estrelado, a lua crescente e a silhueta das árvores e montes margeando toda aquela beleza. Podia ouvir-lhe a respiração profunda e observou seu rosto bonito, oculto por aqueles enormes óculos escuros. ____Não precisa dos óculos! - afirmou, enquanto com as mãos, retirava-o do rosto de sua aluna, deparando-se com lágrimas represadas em seus densos cílios. ____Não precisa da máscara! - emendou Carla, percebendo que sua emoção fora desnudada, agindo em contra-ataque. Um movimento e a meia máscara fora posta ao lado enquanto as mãos leves e macias dela, percorria a face de sua mestra. ____Não faça isso, por favor! - gemeu esta, enquanto suas lágrimas molhavam os dedos intrusos que recuaram céleres. Na fração de momento que seguiu-se, a luz da varanda foi acesa e um berro de terror reboou pela tranqüila morada. _____aaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiêeeeeeeeeeeêeeê! Bule, bolo e chávenas despencaram ao chão. Era Otávio que viera servir um lanche e ao acender a luz, fora pego de surpresa ante o rosto desfigurado de Aurora. ____Desculpe patrô ! - pediu o rapaz com humildade, tentando se recuperar do susto enquanto baixava para apanhar os cacos, evitando-lhe olhar novamente seu rosto. Aurora tornou a instalar a máscara no rosto, trêmula, enquanto Carla levantou-se para ir embora, passando por Otávio, movendo seu bastão ameaçadoramente. ____Seu lagarto-do-brejo-dançarino de-can-can ! Faça mais um esparramo desses e eu lhe corto a língua! - ameaçou baixinho, sendo que a mestre, sentindo o clima de animosidade entre os dois, esperou a aluna sair para perguntar. ____O que ela lhe disse ? ____Nada Patrô! Dona Carla Torres estava apenas tecendo loas sobre meu intenso Si-sustenido-três oitavado-em falsete! Ela acha que eu poderia ser cantor de ópera! A prima-dona para ser mais preciso. ____E o que "Dona Carla" entende de música além daquele rock estrondoso, para ir lhe aconselhando? - quis saber Aurora, sentindo-se entre magoada e curiosa, desconfiando da veracidade da desculpa de Otávio. ____Ah! - respondeu ele, como se não restasse mais importância alguma no assunto tratado. - ____Dona Carla Torres já foi a melhor violinista da Orquestra Municipal de São Paulo, sabia? Chegou até a spalla! - revelou. ____Spalla? Com a idade dela? ____Pode acreditar, patrô. - continuou o rapaz, na ânsia de desviar o assunto e se redimir.____Tá tudo lá naquele Anuário da Música Erudita Brasileira que veio com os jornais. Não leu?
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