Alessandra, naquela tarde de sábado, observava distraída a uma vitrine. Vestia uma calça jeans surrada e um pequeno top, que lhe valorizava os contornos sutis e deliciosamente femininos do corpo. Os cabelos molhados, exalavam um suave perfume.

Suspirou ao ver aquela pequena peça da vitrine da joalheria, que tanto a atraía. Uma jóia que consistia em um pequeno e delicado coração dourado, cravejado de brilhantes, preso a um cordão, também de ouro. Mudou de vitrine.

Não podia cobiçar uma jóia como aquela, ela bem sabia. Olhou alguns modelos de sapatos e bolsas e já se encontrava totalmente distraída quando alguém lhe toca suavemente o braço.

Virou-se e se deparou com os olhos mais verdes que já conhecera em seus 23 anos. O sorriso enigmático daquela mulher que estava à sua frente, a fez tremer. Era de uma beleza clássica, como se tivesse saído de um filme de época. Devia ter trinta e cinco anos ou mais, mas isso lhe emprestava mais glamour e uma melancolia langorosa no olhar que a deixava enfeitiçada. Suas roupas também, eram no estilo antigo.

- Quero fazer amor com você! - lhe disse a desconhecida.


Alessandra quase desfaleceu. O inusitado acontecera. Nunca poderia imaginar ouvir algo assim de um homem desconhecido, muito menos de uma mulher. Afastou-se do toque dela como se a estivesse queimando.


- Não! - tentou balbuciar, mas sua voz lhe prendeu na garganta, enquanto aquela mulher lhe apanhava a mão e a conduzia atrás de si, como se hipnotizada.


Andaram duas quadras e entraram em uma espécie de hotel de estilo muito antigo. Tudo era em madeira com detalhes esculpidos. Haviam luminárias em forma de flores, candelábros de cristal e maçanetas e corrimões em estilo Art Noveau. Um quarto fracamente iluminado, no andar superior, foi aberto e no ar, um perfume inebriante. A grande cama de casal, estava forrada em cetim cor de vinho.


Alessandra sentiu-se ser lançada na cama com paixão, enquanto aquela mulher lhe tirava a roupa com urgência. Seus beijos queimavam a pele e ela sentia-se arrepiar e um calor lhe invadir o corpo.


- Isso não pode estar acontecendo comigo! - pensou.


Seus lábios incharam, ante a fúria dos beijos daquela mulher que agora tinha seus longos e perfumados cabelos soltos, que desciam sobre Alessandra como cortinas macias. Ela lhe fez amor, como aquela garota nunca havia experimentado em sua curta experiência sexual com o único namorado. Seus gemidos pareciam o ronronar de uma pantera no cio e o quarto de perfumou com o cheiro de seus sexos.


Quando finalmente, esta lhe alcançou com os lábios o centro de seu prazer e a sorveu com angústia e paixão, enquanto as unhas de Alessandra lhe arranhava os ombros e ela lhe feria os flancos... o prazer veio em uma erupção poderosa e a jovem amante desmaiou exaurida.

Quando acordou estava sozinha.A tarde já declinara e o quarto estava mais escuro. No princípio pensou se tratar de uma espécie de delírio, mas ainda havia no ar o cheiro "dela".


Ligou um pequeno abajour, e viu ao seu lado, nos lençóis, aquele cordão de ouro com o pingente em forma de coração que ela tanto desejara possuir. Era realmente uma jóia cara e para ela muito valiosa.

Percebeu que sua amante desconhecida lhe dera aquele presente. Ficou momentos perdida em sua confusão mental, sem saber como agir. Não poderia aceitar uma jóia daquele valor, como se fosse o pagamento por ter lhe cedido aos desejos? Não! não poderia nem ao menos aceitar que fizera amor com uma mulher e...fora maravilhoso.


Vestiu-se rapidamente e... apanhou a jóia e a botou na bolsa. Estava decidida a encontrar com a estranha e devolver-lhe a peça. Desceu as escadarias com o rosto ruborizado. O atendente certamente teria estranhado duas mulheres indo para um quarto naquele horário, mas o desejo de saber mais sobre a hóspede do quarto 33 foi mais forte.

- Por favor meu senhor, minha amiga, do quarto 33 esqueceu um objeto dela comigo e eu gostaria de saber quando poderei encontrá-la para devolvê-lo...

- Desculpe senhorita! ma isso é impossível. O quarto 33 é reservado. Pertence à família da dona desse hotel.

- Então ela era a dona daquele hotel antigo e luxuoso? - pensou Alessandra, imaginando que agora ficaria mais fácil encontrar com a desconhecida que lhe abordara na rua.

Dentro de si, o desejo de vê-la, mais uma vez explodia intenso. Olhou a sua volta e foi então que viu no requintado hall do hotel o retrato "dela"... Voltou-se para o recepcionista, meio sem graça, e algo dentro de si, lhe induziu a perguntar com cautela.

- Quem é aquela senhora alí?

- É a famosa fundadora do hotel. Uma mulher muito bonita e inteligente.

- E como posso encontrá-la?

O homem riu com a pergunta.


- Ela viveu no século XIX, garota e o quarto 33, este que você disse que esteve, esse quarto, ninguém entra lá, além das camareiras. É um dos últimos desejos que ela manifestou em seu testamento. Nem os netos delas ousam ficar naquele quarto. É dela... tem as coisas que pertenceram a ela.Acho com certeza que você se enganou de número. Mas não se preocupe. Você não foi a primeira a ter esse tipo de alucinação com o quarto 33. Essa moçada hoje em dia...
Você usa alguma droga?