O céu escureceu subitamente e elas tiveram que retornar à casa. Otávio e o assistente de Carla, já não estavam nas imediações para ajudar. Decerto perceberam que ambas precisavam de um momento muito particular .
Logo a chuva abateu-se contra as duas mulheres e a preocupação de Aurora com Carla, diluiu-se na alegria infantil que transbordava dela.
__Salve rainha da tempestade! - ela gritava com os braços abertos e os lábios para receber cada gota da chuva.
Aurora conseguiu imobilizá-la por uns momentos até conseguir que vestisse a roupa encharcada.
__Vamos sair daqui. A rainha da tempestade logo estará lançando seus raios sobre nós. Você não imagina como pode ser um espetáculo fantástico e medonho uma tempestade elétrica no campo.
__Isso é magnífico, maravilhoso!
__Por favor, querida. Vamos embora. Seria estranho que um raio nos abatesse agora.
Ela ajudou a jovem cega a subir no cavalo e sentou-se atrás, enlaçando-a protetora com um braço, enquanto com o outro, guiava com cuidado a montaria.
Apesar do medo que sentia, os sentidos de Aurora venceram o estrondo dos raios que caiam próximos e a luz ofuscante. Estavam centrados no corpo morno, colado ao seu.
Temeu como nunca antes em sua vida, que uma daquelas descargas elétricas as atingisse. Estranhamente, quando pensava em si, logo surgia Carla e ela não conseguia mais articular idéias, pequenos planos para as horas seguintes sem que ela estivesse junto no contexto.
__Imagine que o céu, o contorno do horizonte, as curvas femininas dos montes verdes e todo o campo, estão fundidos em manchas ágeis, como uma aquarela atacada rapidamente pelo pincel do artista. O pincel são as gotas dágua que mudam de posição com o vento. - descreveu em sussurros no ouvido de Carla.
Desde menina, ela não se permitia aquela liberdade de poder andar debaixo da chuva. Não depois que um raio caiu a poucos metros de si e o assunto gerou uma crise de nervos em seus pais. No entanto, junto com Carla ela sentia-se absurdamente inatingível ou como se fizesse parte de tudo ao redor, dos elementos que ofereciam aquele espetáculo maravilhoso e que nada poderia mais machucá-las ou fazê-las perder-se uma da outra.
Apertou o braço mais forte contra Carla e a ouviu arfar.
__Não me deixe!
__Eu não vou deixá-la, Aurora. - prometeu a jovem, aconchegando-se mais contra ela.__Não agora que a encontrei. Não posso deixá-la. Você é o meu destino.
__O meu destino! - ecoou a escultora, emocionada.
__Continue descrevendo o campo para mim, amada. Onde estão os girassóis?
__Estão à sua direita.
Carla voltou a face e Aurora alcançou seus lábios e a beijou.
Um raio caiu próximo e as sobressaltou e o cavalo acelerou sua marcha. Aurora desceu do animal, encaixou os estribos com cuidado nos pés de Carla e puxou a montaria pelas rédeas. Caminhava a pé e rápido. Desta forma, chegaram mais rápido até o varandado.
Otávio recebeu-as com um enorme guarda-chuva. Já Martino, não se preocupou em se molhar e adiantou-se para ajudar sua patroa a descer do cavalo.
__Não! - disse ela, empurrando-o com a ponta do pé.
Por breve momentos, ela tornou-se a jovem voluntariosa de antes.
Desceu do animal e foi em direção à casa. Martino a seguia atordoado, temeroso que ela caísse nos degraus.
__Por favor, Martino, não fique como uma galinha choca me seguindo. Eu conheço esta casa, de olhos fechados. - disse mordaz.
Aurora adiantou-se e a prendeu pelo braço.
__Venha para o banho e depois eu te arranjarei roupas secas. - disse no ouvido dela, mordiscando seu pescoço suavemente.
__Certo! - concordou docilmente a violinista, sob o olhar espantado dos dois rapazes.
__E, Martino, acomode-se na outra casa com Otávio. Eu cuidarei de Carla. Amanhã, chamo se precisar. Já está caindo a noite e a chuva ainda está forte. Vai ficar difícil e perigoso transitar com o carro. Estou certa que talvez amanhã vocês possam retornar para suas casas.
O rapaz abriu a boca várias vezes, pensando se contestava ou não mas decidiu nada dizer. Ligaria para seus patrões e explicaria a impossibilidade de voltar naquele dia.
__Você sabe ser autoritária, Madame Mei. - brincou Carla, seguindo Aurora pelo corredor do piso superior docilmente.
__Esteja certa que sim.
__E como me tolerou todo aquele tempo?
__Eu não sei. Talvez acreditasse que havia pecado demais na vida e precisava expurgar meu erro. Carla. Não fale mais nada. Acho que estou adoecendo.
Já estavam dentro do quarto de Aurora e a violinista a tomou nos braços.
__O que foi, o que você sente? - balbuciou com medo.
__Me sinto desgovernada na vontade de tocá-la, beijá-la. Meu corpo está febril, minhas mãos, pernas e ventre estremecem. Tudo em mim clama para tê-la de novo e eu não sei como agir. Não consigo pensar em como te oferecer o prazer que tive no "Templo das Águas" e isso está me torturando.
__Não pense nada, não diga nada. Concentre-se apenas em observar, como na meditação. Observe, toque e sinta.
Carla retirou sua camiseta molhada e levou a mão de Aurora até seus seios. A outra ela a conduziu à cintura. Com suas mãos livres, tornou a retirar as calças, pisando sobre elas no chão.
Aurora, acariciou o seio de Carla, com timidêz. A outra mão, percorreu simultaneamente a barriga lisa, os quadris, parando sobre o traseiro macio e firme. Apertou.
O gemido de Carla a inebriou. Tocou-a suavemente, deixando suas mãos percorrerem seu corpo, sentindo-a devagar. Em um rompante, mordeu o ombro da companheira, deixando suas mãos invadirem cada reentrância, possessívas, despudoradas.
As mãos de Carla abriram suas calças, baixando-as pelos quadris e depois tirou o restante da roupa de Aurora. Caminharam trôpegas e enlaçadas, bebendo-se nos lábios até a cama. A escultora desabou sobre Carla, ofegando com urgência.
Os braços e pernas delas entrelaçaram-se e o fazer amor aconteceu com Aurora agindo no instinto de tocar Carla, navegando sobre o corpo ondulante dela, como um marinheiro sobre as ondas do oceano. Guiava-se pelo cintilar das duas estrelas gêmeas dos olhos , pelo rumorejar dos gemidos e sussurros da mulher aprisionada a si. Estava escuro mas ela havia acendido as velas na cabeceira. Queria ver todo o esplendor do corpo agitado pelo êxtase e o orgasmo de Carla. Assustou-se quando a ouviu chorar baixo.
__Querida, o que eu fiz? Eu a machuquei?- perguntou com voz trêmula. O peito opresso.
__Não, meu amor. É uma emoção intensa, doce, branda, vezes furiosa que me tomou por um momento. Senti como se morresse nos seus braços para ressuscitar renovada, livre de toda a amargura que me seguiu quase toda minha vida. Você é o meu destino e tivemos que desviar nossas rotas para poder nos reencontrar. Fica comigo, Mei. Não me abandone mais. Eu penso que não suportaria.
Os longos cabelos negros de Aurora formaram uma cortina sobre Carla quando ela ergueu o corpo sobre os braços, mantendo ainda as pernas e ventre unidos.
__Eu não posso mais deixá-la, amada e se algum dia eu o fizesse, estaria morta aqui dentro, muito antes de voltar-lhe as costas. - disse tomando a mão de Carla e levando ao seu peito.
A violinista apertou o seio macio dela, puxando-a contra si para o longo beijo ardente, arrebatando-a outra vez para o ciclo vertiginoso da entrega, do prazer.
Adormeceram.LUZNa vibrante manhã, elas andavam de mãos dadas pelos arredores da casa principal. A luz intensa, costumeiramente especial para a escultora, agora, ao lado de Carla, adquiriram uma tonalidade além do especial. Mágica.
Os girassóis saudavam, com as cabeças loiras voltadas para elas.
Carla riu. Um riso travesso, quase infantil e apontou.
__Eles são lindos!
Sobressaltada, Aurora olhou o rosto de Carla. Ela sorria em direção aos girassóis.
__Você pode ver?
__Sim, eu posso e...
Voltou o rosto para a atordoada escultora.
__Você é linda!
Aurora levou a mão para a face e não havia nada alí. Estava sem qualquer cicatriz, mutilação, tampouco a máscara.
Carla acercou-se de Aurora, os olhos delas muito abertos, procurando aprender cada detalhe do rosto da mulher amada.
__Agora posso ver o seu rosto. Posso ver! - repetiu com a voz vibrando com a emoção.DECISÃOAurora saiu lentamente do langor do sono. algo ou a fez despertar.
O corpo quente colado ao seu, inebriou-a novamente com todas as sensações prazeirosas de antes.
Estava escuro e a chuva, ainda forte.
Moveu-se gentilmente até ficar sobre o corpo de sua companheira, acariciando-a e maravilhando-se com os seus gemidos intensos, mesmo no sono.
Devagar, Aurora inseriu o seu quadril entre as pernas da sua amada, descendo o rosto devagar até alcançar com os lábios o sexo quente dela.
Não soube por quanto tempo a sorveu, mas lágrimas escorreram quando sentiu que havia conseguido a química mágica de dar prazer a ela. Seu corpo vibrando, os gemidos, vezes longos, profundos, outras vezes entrecortados.
Aurora sentiu que poderia viver ao lado dela, não como Rodrigo havia dito, como um homem castrado, mas como uma amante capaz de recompensar com prazer, a dádiva do amor recebido.
Afastou de si todo o seu temor, receio ou covardia. Cuidaria de Carla fervorosamente, a amaria e protegeria até o fim de suas vidas e se ela permitisse, muito além.