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"TOQUE-ME A FACE AMOR, VEJA NO MEU OLHAR QUE EU SEMPRE A AMAREI, SEMPRE, SEMPRE E PARA SEMPRE"

O jardim de Asrael naquela tarde, com seus contornos diáfanos, improváveis, apresentava um fulgor diferente. Aurora poderia até sentir o cheiro delicioso dos pequenos lírios do campo que pisava.

Asrael, ela o sentiu e agora conhecia a função de suas mãos, do seu abraço e temeu a proximidade daquele anjo. A pele de cetim cintilante como bronze dourado dele irradiava sua energia poderosa.

__não tema minha companhia, Aurora. Eu não a arrebataria sem que este fosse o propósito deste jardim. Ela já a está esperando.

A voz dele fluia com o silvo do vento e confundia-se nele.

__Carla? - Aurora chamou, sentindo seu corpo todo contrair-se de ansiedade.

__Sim?

__Sempre esteve aqui?

__Sempre te esperando.

Batidas fortes na porta do ateliê arrancaram Madame Mei de sua meditação. Ao retornar a si, ela sentiu as palmas de suas mãos e pés com uma sensação de formigamento.

__Abra, Aurora. Nós precisamos conversar.

Ela levantou-se do seu divã e desligou o delicioso som ambiente. Nunca em tanto tempo sentira uma ira latejar-lhe na fronte. Quem teria direito de arrebatá-la de sua experiência sagrada? Quem poderia romper o doce contato que ela estabelecera com Carla no jardim, aos brados? Sim, ela sabia. Eduardo. Apenas ele teria a arrogância necessária para julgar que poderia irromper novamente na vida a escultora com aquela autoridade.

__O que está fazendo aqui? - ela o atacou com as palavras ao abrir a porta.

__Eu precisava vê-la ainda hoje, Mei!

__O que quer?

Ele pareceu atordoado com a recepção fria dela mas estava decidido a ser firme.

__Estive atordoado e perdido ultimamente, Mei. Fui egoísta e não suportei à visão da deformidade que aquele monstro lhe causou. Quero me redimir com você.

Aurora sentou-se em sua berger e indicou um outro lugar para o visitante inesperado.

__Não é necessário que se desculpe. Eu tive que passar por tamanha dor para estar pronta e aceitar o meu caminho. Aquele monstro foi meu irmão em outra vida. Agora sei onde está a origem de seu ódio. É antigo e parece que ainda não se exauriu.

Eduardo bambeou um pouco, coçando a costeleta com seu dedo indicador. Conhecia a natureza agnóstica de sua antiga namorada e aquela afirmação o deixou intrigado. Ele, muitas vezes tentara convencê-la com argumentos variados sobre a imortalidade da alma e o propósito maior do simples fato de existir. Pertencia a uma família de fervorosos espíritas.

Sentou-se.

__Conte-me sobre esta sua lembrança de outra vida.- pediu.

__Eu fui um pescador na região fria, talvez a Finlândia. Viver em um lugar onde o sol jamais se põe por vários mêses ou que não deixa a noite cobrir totalmente a terra não é tarefa fácil para humanos. Alí a morte ronda em cada precipício ou geleira, ou mesmo no mar. Eu morri no mar e deixei em terra a mulher que amei com tanta intensidade, talvez mais do que eu poderia sequer conseguir amar qualquer outra ou a mim mesma.

__Você era um homem?

__Sim, um homem simples. Um pescador. Singelo entre outras criaturas da terra mas importante para ela. Eu fui ao mar, mesmo com a turbulência das ondas. Fui porquê no intenso inverno, os peixes são essenciais para manter a vida da aldeia. Nunca tivemos muito, eu e ela além de uma cabana de peles fria, uma fogueira e nosso amor. Eu prometi a ela que voltaria para e me perdi no mar.

Eduardo ouviu Aurora com crescente interesse e preocupação.

__Mas o que tudo isso agora repercurte na sua vida ou entre nós?

__Esta lembrança me trás de volta o amor e o desejo de retornar para aquela que deixei no cais.

__E você a encontrou?

__sim.

__E ela reencarnou em algum homem?

__Não. Ela ainda permanece uma mulher. Apenas eu mudei.

__O que tem em mente?

__Tenho firme em mim o meu querer e o propósito de estari ao lado dela até quando desejar!

O jovem impetuoso levantou-se de seu banco com um salto. Viu diante de si um obstáculo que crescia de forma quase intransponível mas não estava disposto a abrir mão de Aurora.

__Já pensou que tudo pode ser um engodo de sua mente? Você atravessou eventos traumáticos e chegou no limite de sua razão, Aurora!. Nossa mente é poderosa e pode lançar mão de inúmeros artifícios para nos ludibriar com a finalidade de fazer-nos vencer a dor. Você agora tem uma esperança mas talvez seja uma miragem. Esta moça, você a encontrou?

__Na verdade ela veio a mim e me reconheceu primeiro.

__E ela também acredita nisso?

__Sim!

A Escultora naquele momento já estava arrependida de ter aberto seu coração para Eduardo. Antes ele fora um companheiro participativo e compreensivo, entretanto, aquela inquisição e súbita falta de fé do ex-amante a estava irritando.

__E o que farão quando se encontrar? Olhe para si, Madame Mei. Você é a mulher mais feminina e bem confortável em sua feminilidade que conheço. O que fará quando intentar levá-la para a cama? Veja seu corpo, não há encaixe. Você poderia se sujeitar a vivenciar uma vida amorosa baseada no roçar de genitália, sexo oral ou qualquer outro artifício das lésbicas? Se foi realmente um homem em outra vida, neste exato momento deve estar se sentido um "castrato".

As palavras dele penetraram no peito da escultora, como setas cruéis. Tarde, Eduardo percebeu que suas palavras permeadas pelo despeito e rancor causara totalmente o efeito contrário que esperara.

__Saia daqui! - ela mandou com a voz escapando de seus lábios quase como um rugido.__Você não é mais bem-vindo na minha casa!

Ele saiu com a cabeça baixa e a escultora deitou-se no divã, chorando desconsolada. Otávio entrou no ateliê correndo como um touro furioso em uma arena espanhola.

__O que ele lhe fez, Madame Mei? por favor, diga alguma coisa?

__Nada Tato. Fique tranquilo. Minha dor é da alma.

__E dor de alma é melhor do que a física?

Aurora levantou-se com dificuldade, engolindo o soluço e secando seus olhos. Sabia exatamente o que a estava torturando. A lembrança da forma plena como ela havia tomado a mulher que Carla fôra outrora. Como faria para restaurar entre elas toda a intensidade e paixão do amor que faziam?

Torturantes imagens da mulher amada deitada em um leito feito de peles de caça, enlaçando-a na cintura com suas pernas, olhando-a com tanto amor, desejo.

Ela concluiu que em parte, Eduardo estava certo. Como faria para restaurar sua vida com Carla? Como poderia oferecer a ela o prazer que seu corpo perdido no mar antes proporcionara? Tudo era tão novo, intenso e ela sentia-se perdida.

O telefone tocou. Ela pensou em não atender. Esperou até que tocasse até cair a ligação. Otávio adiantou-se para atender quando o aparelho tornou a toca mas a escultora adiantou-se. Seu coração disparou ao reconhecer a voz de Carla.

__Eu a senti no "jardim de Asrael" hoje, Aurora!

__Sim, eu estive lá! - sussurrou a escultora.

__E porquê foi embora tão abruptamente?

__Não foi pelo meu desejo, amada. Eu fui arrebatada do meu enleio, contra minha vontade. (Eu a chamei de amada?)

__Você me chamou de "amada".

__Sim, eu sei. É a verdade. Eu a amo. ( E não quero perdê-la).

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