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ALMAS GÊMEAS

Atônita no meio de seu quarto, Aurora sentia a vertigem submeter seus sentidos e uma mão gigantesca comprimindo seu plexo solar. Cambaleou lenta para sua cama, no entanto não chegou a se deitar. O perfume de Carla denunciou sua aproximação. Voltou-se e a avistou trêmula. Na face, os olhos grandes intensamente solitários, perdidos de onde lagrimas cristalinas se represavam.

-posso entender seu medo, Aurora. Quando vislumbrei o imponderável a respeito do que une nossas vidas, ou pelo menos o que as uniu outrora, pensei que perdera o senso, a noção de tempo, espaço ou mesmo a razão.

A voz soava cansada e a fadiga física e emocional de Carla transparecia no seu rosto e corpo.
Apesar disso, os lábios tensos dela denotavam sua resolução de não se afastar ou permitir que a escultora se esquivasse novamente.

-venha e fale-me sobre nós. Quem sabe depois você poderá descansar? - Aurora capitulou trêmula, sabendo que adiar um pouco mais o confronto significava prolongar a ansiedade e angustia que as torturava.

--x--

Almoçando silenciosamente, "Madame Mei" não conseguia elevar o olhar para a face de Carla. A violinista estava sentada defronte com Martino ao seu lado auxiliando-a a cortar o alimento com o garfo e a faca.

Otavio não desviava o olhar inquisidor de sua jovem patroa. O palor da tez dela o preocupava.

Sabia que as mulheres conversaram em particular por um bom período na parte superior da casa principal e depois repousaram ambas pelo menos por duas horas.

O que o afligia era a sensação de que algo terrível ou mesmo grave acontecera ou andava iminente e sua jovem patroa o estava mantendo a margem da verdadeira situação.

Na face de Carla, a costumeira mascara inescrutável. Já Aurora mastigava o alimento com o maxilar tenso e uma ruga funda de concentração vincando-lhe o espaço entre as sobrancelhas.

Sua forma felina, macia de mover o corpo, os braços, lamber os lábios satisfeita ou cerrar os olhos amendoados com as espessas pestanas negras em um olhar furtivo, malicioso, trejeitos estes costumeiros e que causavam delicia ao jovem mordomo, desapareceram ante a tensão que lhe enrijecera momentaneamente a musculatura e estrutura esguia, incrivelmente feminina.

Terminaram a refeição e os rapazes esperaram pacientes por orientação.

-Precisamos ir, Martino!. - Carla determinou para o motorista.

O motorista aproximou-se solicito para ajuda-la.

-pode pernoitar aqui, se desejar...

Aurora convidou timidamente, ainda sem erguer os olhos de seu prato, apenas movendo as sobrancelhas negras e finas. A voz lhe escapava fraca quase sem fôlego.

-eu realmente preciso ir. Meus pais estarão retornando de uma longa viagem no fim desta tarde. - justificou a loira.

Aurora ergueu a cabeça finalmente enquanto as mãos nervosas agarraram o guardanapo do seu colo e o torceu. Pela primeira vez pensou em Carla como um ser derivado de alguém. Não sabia ao certo porque a tomara como um ente quase sobrenatural acima da qualidade telúrica dos seres que se unem para gerar outros.

Com a saída dela, o coração de Aurora escureceu. Lagrimas saltaram de seus olhos e Otavio ganiu como um filhote abandonado.

-Madame Mei, por favor...

A escultora entrou no estúdio vazio e trancou a porta atrás de si.
Otavio correu atrás e bateu estrondosamente na porta.

-eu quero ficar só. - ela pediu com suavidade.

Ele encostou a cabeça na porta e seguiu os veios da madeira com a ponta da unha do indicador.

-o que ela lhe fez? Ela a magoou?

A voz dele estava fanha com o esforço de manter-se firme sem deixar transparecer sua aflição crescente.

-não Otavio, ela não me magoou. Há pouco ainda não consegui refletir e assimilar a grandeza do que ocorreu. Seja paciente comigo. - pediu com doçura.

-poderemos conversar quando a patroinha refletir?

-claro, meu amigo. Sempre poderemos conversar. No momento preciso apenas de um pouco de solidão. - confortou-o.

Ele se afastou com passadas pesadas. Decidiu-se tentar misturar uma nova receita de bolo de laranja para exorcizar a sensação de hecatombe iminente.

Seria capaz de oferecer parte de sua vida para ela ou em razão dela. Madame Mei sofrera uma serie de perdas em um curto período e sua alma sensível já se ferira demais. Três anos antes, os avós paternos pereceram em um acidente de carro. Aurora era muito ligada ao avô. Meio ano depois, a mãe dela, Áurea Mei, apresentara um raro e agressivo câncer no pulmão que a matou em pouco mais de quatro meses. Não houve qualquer chance de rádio ou quimioterapia. O fim daquele ano fatídico trouxe mais uma baixa. O pai de Aurora sucumbira a sua dor em um enfarto fulminante. Dos avós maternos, ela perdera qualquer contato há décadas na distante China.

Sentada em sua Berger favorita, Aurora rememorava os momentos a sós com a violinista. Ela viu seu passado nos olhos de Carla. A consciência de sua vida anterior aflorou suavemente dos recônditos misteriosos da inconsciência e instalou-se diante de seus olhos como se no principio ali sempre estivera, calando os brados alucinados de razão.

Fechou os olhos e chamou baixinho o nome da violinista. Ela fora batizada Carla Torres Kronner.
Aurora naquele instante, sentiu a presença amiga do avô, presença benévola e protetora que sempre a acalmava e a fortalecia quando necessitou lutar contra a solidão e o medo.

Ele parecia sussurrar-lhe que era preciso reunir coragem e ir além.

Aurora deitou-se no macio tapete no centro da sala e fechou os olhos absorvendo com cada célula e senso de si a melodia da "Sonata ao Luar" de Beethoven enquanto buscava na sua mente a imagem da violinista. Ela nada lhe pedira, mas Aurora temia que sua indecisão pudesse afasta-la de si, magoada pela rejeição tácita, muda.
Antes do conhecimento sobre o que as unia havia o beneficio da indecisão. Agora as areias da ampulheta escoavam-se céleres e a falta da ação poderia significar a perda definitiva dos sonhos dela. Da possibilidade de tornar a ser feliz um dia.

-este outrora fora também meu sonho. Voltar para ela. - a escultora exclamou para si em voz baixa.

Aquela vida perdida em uma distante aldeia de pescadores, talvez próxima a atual Finlândia onde o sol desfilava paralelo e nunca atingia o zênite ao meio-dia, isso por diversos meses, significara tanto para ambas. O irmão do homem que Aurora um dia fôra, jovem líder espiritual dos aldeões, dissera que sonhara com um cardume de peixes, como nunca avistado antes, que se formava em algum ponto no poente em meio ao oceano que rumorejava perigoso e em ressaca.

O sucesso na pesca naquela época difícil do ano era essencial para a sobrevivência da aldeia e a caça estava escassa, ameaçando o pequeno povoado a padecer de fome.

O artifício cruel fora inventado pelo invejoso irmão para tentar apossar-se da viúva. Ele o soube tardiamente quando em alto mar, lutava ao lado de seus poucos companheiros para impedir que as vagas causadas pela tormenta esmagassem a frágil embarcação. A tradição de seu povo determinava que as jovens viúvas fossem entregues como esposas ao parente próximo do marido morto.

Aurora visualizou a si, com as mãos másculas avermelhadas pelo sal e o frio, remando em desespero enquanto uma vaga escura e monstruosa qual uma montanha, imergia diante deles, movendo-se sinistramente contra a embarcação. O ultimo pensamento do jovem pescador antes da morte foi de que jamais poderia retornar para os braços da mulher amada. Quem cuidaria dela?
O rosto do irmão, Aurora agora o reconheceu perturbada. Era o de José o homem que a estuprara, torturara e não satisfeito, mutilara.

Na prisão os policiais levantaram a ficha criminosa dele que assinalava anos de pequenos delitos entre furtos, roubos mediante ameaça com arma de fogo. Nunca antes ele progredira para algo alem do interesse patrimonial contra suas vitimas. Nunca agredira ou torturara as vitimas. Apenas movia-se pelo intuito de obter lucro com suas incursões criminosas.

Jose certamente não tinha nenhuma consciência do motivo que o levara a odiar Aurora. Preso, ele jazia atônito em uma cela lotada a espera de julgamento.

Aurora agora entendia porque ele, José, mesmo inconsciente disso, sempre a odiaria e ao seu rosto bonito, como o do homem que ela fora outrora. E isso bastou para o encher de ódio e ira bestial contra ela. O irmão fraco e invejoso que cobiçava a mulher do belo, forte e destemido pescador.

Se naquela vida ele possuísse força e coragem, certamente teria um prazer malévolo de mutilar o rosto bonito do irmão ou mesmo mata-lo a traição sem precisar utilizar a lábia enganosa e os lançar ao mar para uma expedição desastrosa. Por ter a constituição fraca e índole covarde, cedo Jose se envolvera com as artes dos elementos e o culto aos deuses do oceano, da tempestade e dos elementos. Sabia prever quando uma tempestade perigosa se formava e quando o fluxo das correntes marinhas e mares mudaria. Por esta capacidade, passara a ser o conselheiro espiritual do grupo e disso se utilizou com perfeição para ajudar os homens com a caça e a pesca e mais tarde, conseguir seu intento menos nobre: o de fazer o irmão perecer no mar.

A consciência daquela traição, perfídia abateu profundamente o espírito de Aurora. A escultora saiu do seu estúdio, cambaleando com dificuldade escadaria acima. Sentia-se terrivelmente doente, não fisicamente, mas a angustia voltou a tortura-la.

A consciência de que o usurpador sempre a acompanharia pelas vidas, traindo e mutilando se fosse preciso, lhe despertou a ira e o medo.

Avistou a silhueta de Otavio que se esgueirava ao seu encalço. O moço não se arriscava a vagar pela ala íntima da casa principal sem ser convidado, mas naquele dia, estava disposto a romper todas as regras tácitas. Ele não se importava se ela o expulsasse. Não se afastaria até certificar-se de que Madame Mei estava bem.

O olhar mortiço, perdido dela o paralisou.

-por favor me ajude, Tato. Há pouco sinto como se a vida estivesse me escapando pelas narinas...

Ele apressou-se e a amparou ajudando-a a se deitar no quarto.

-acenda uma vela. Eu preciso rezar.

Quando ela finalmente conseguiu repousar, um sono entrecortado de gemidos e pequenos sustos, a campainha do telefone tocou estrondoso.

-Carla? - Aurora pensou com o coração palpitante de esperança, mas ao alcançar o fone, ouviu a voz viril de Eduardo.

-Aurora, sinto saudades! - ele despejou em um único fôlego.

-você? - ela indagou perplexa.

-sim, sou eu.

A voz dele agora apresentava um acento ligeiramente magoado.

-ah, certo.

Otavio bateu na porta e a chamou.

-quem esta ai com você? - Eduardo perguntou ciumento.

Ela desligou o telefone. Um absurdo o ex-amante estabelecer contato após tantos meses silencioso.

O telefone tornou a tocar e ela não atendeu.

Otavio bateu na porta novamente.

-posso atender, patroa? - inquiriu.

-Não. Eu faço. - Aurora respondeu furiosa ao esticar o braço e ajustar o fone no ouvido.

-é inadmissível sua atitude possessiva e ciumenta, Eduardo. Se há um bom motivo para ligar, seja breve. Estou ocupada.

O suspiro profundo do outro lado da linha paralisou a respiração da escultora enfurecida.

-Carla ?

Um breve momento em silencio e ela respondeu com sua voz profunda e sensualmente rouca.

-sim. - uma pausa.- muito ocupada? Posso ligar amanha então.

-não. Acabo de me desocupar. Podemos conversar tranqüilamente agora. - ela riu nervosa, aborrecida consigo mesmo.

- Martino e eu acabamos de chegar em casa. - Carla informou em um tom brando, quase casual.

-e seus pais?

-cansados por causa do fuso horário. Amanha almoçaremos juntos.

-ah.

Aurora caminhou pelo quarto e saiu para a sacada fresca. Somente naquele momento percebera que a noite já se estendera pelos vales e a lua estava incrivelmente cheia, pouco acima da silhueta escarpada das serras no horizonte.

-algo a perturba?

-A lua. Esta cheia e penso que neste momento ela move as marés e... (eu preferia vê-la neste instante, ou mais tardar amanha. ) - a voz da mente de Aurora gritou enquanto seus lábios se calaram.

-sim?

Aurora não conseguiu prosseguir. Não poderia dizer que ao ouvir novamente a voz dela, sentira-se quase desfalecer para depois vibrar ao ataque intenso dos jorros fortes de sangue que a incandesciam, como o recuo das ondas que precede uma tsunami.

- e os bebês lunares esperam pacientes para nascer. - ofegou.

Carla refletiu por um momento.

- estou certa que não era exatamente sobre bebês lunares que há pouco você se referia. Está novamente jogando com as palavras, Aurora. O que deseja ocultar precisamente?

-que a lua hoje, não move apenas as marés. Move também a mim, minha libido...
Falou mansa e fervorosamente.

Otavio correu ruidoso pelo piso de madeira do corredor.

-Madame Mei, seu celular está tocando !. - Anunciou atrás da porta cerrada do quarto.

O enlevo mágico entre as duas foi momentaneamente rompido.

-um momento Carla, necessito de alguns minutos para praticar um "mordomocidio" e poderemos continuar.

Otavio continuou a bater na porta. Agora com mais intensidade.

-patroa o Eduardo está na linha. Diz que precisa conversar com...

Aurora agarrou um pé da sua bota de montaria perto de um móvel e a atirou contra a porta com estrondo.

-o que foi isso? - Carla perguntou preocupada.

-acabo de calar um "quase mordomo" histérico.

-o que fez com ele?

-não se preocupe. Ele tem coração forte. Vai resistir.

Pela primeira vez, Aurora ouviu a deliciosa risada cristalina de Carla.

Riram juntas por momentos de descontração sublime até que a violinista declarou timidamente.

- eu penso que necessito de outra massagem. Suas mãos são mágicas e meus pais afirmaram que meu humor melhorou consideravelmente.

Aurora não conseguiu responder. A voz presa na garganta enquanto refletia como agir. Naquele momento, ela finalmente tomou conhecimento que flertava com outra mulher, há pouco uma quase desconhecida.

-as mãos de "Madame Mei" estão a sua disposição.

Carla riu suavemente.

-esta tarde, depois que cheguei em casa e me deitei para descansar um pouco...eu senti sua mão acariciando meus cabelos.

-e eu sonhava que a tinha adormecida no meu peito masculino, como outrora.

Alguém perto de Carla a chamou com a voz grave carregada de sotaque.

-Meu pai esta chamando. Combinamos assistir um concerto de musica erudita hoje e eu já o estou atrasando. Eu a verei em breve, pequeno Nenúfar.
A ultima frase carregada de promessas implícitas.

Encerraram a ligação.

Aurora sentiu seu corpo vibrar em um misto de alegria, indecisão, saudade e medo. Todos sentimentos desfilando em sua pele sendo que o único que permanecia residente era o desejo ardente que iniciara pequeno como uma centelha e irradiava em um crescendo paulatino dentro de si.

Escapou do quarto e quando alcançou o pé da escadaria, encontrou com Otavio. O mordomo estava pálido e ainda mantinha o celular de Aurora na mão. O olhar perdido e desolado fixou no rosto da patroa.

-ele ligou para avisar que não desistirá de conversar com você. - o rapaz conseguiu dizer com voz baixa.

-o Eduardo?

-sim.

Aurora apanhou o aparelho celular e iniciou a discar para o ex-amante. Obteve o sinal da caixa postal.

-não adianta, patroa. Eu disse a ele que a senhora não estava receptiva, mas ele não aceitou qualquer argumento. Disse que arranjaria uma oportunidade de aparecer para vê-la e conversarem.

Aurora abandonou o celular sobre um móvel e sentou-se no sofá, abraçando a cabeça com as duas mãos.

-vou providenciar um café. - Otavio anunciou, desejoso de escapulir para seu refugio na cozinha.

-fique, Tato. Precisamos conversar. Quero que me desculpe por tê-lo tratado mal lá encima. Não queria ser interrompida em minha conversa com Carla, muito menos para atender um telefonema de Eduardo. Você sabe como meu gênio anda um tanto azedo.

Otavio sentou-se no sofá defronte Aurora.

-não precisa desculpar-se, patroa. Eu imagino o quanto Eduardo a magoou, mas vocês estiveram juntos há tanto tempo e pensei que se amassem e pudessem acabar se entendendo. Conclui mal que um telefonema dele lhe faria bem.

-Em outros tempos, talvez eu me alegrasse com a chamada dele. Não agora. Depois que Eduardo foi embora, muita coisa mudou em mim e em minha vida, Otavio. Entretanto penso que já é hora de você saber o que realmente me magoou em nosso rompimento, afinal pessoas unem e rompem relacionamentos todos os dias sem maiores seqüelas. Eu namorei muitos rapazes e nunca consegui manter uma relação alem de poucos meses ou 1 ano, até Eduardo. O fim dos outros relacionamentos nunca doeu alem do quinhão que se espera em uma tentativa fracassada. Eu me iludi quanto ao amor incondicional dele para mim. Me apeguei pois ele esteve ao meu lado quando da perda de todos os meus parentes.

-não precisa contar, patroa. Não é assunto da conta de serviçais.

-Sabe que não o considero um mero serviçal, Otavio. Você foi criado na família e é um amigo dedicado e por esse motivo quero lhe falar. Podemos conversar ?

Aurora tocou com a mão o lugar ao seu lado, indicando onde queria que ele sentasse.

Otavio sentou-se ali, obediente.

-eu sei que você e Eduardo eram bons amigos e penso que não há mal algum se vocês continuarem sendo amigos, entretanto se ele acredita que está voltando para reivindicar seu lugar ao meu lado na cama, ele fará uma viagem infrutífera. Você pode recebe-lo na sua casa, após o pomar. Não o quero aqui na casa principal.

-não sei se conseguirei detê-lo.

-nesse caso, quando ele vier, eu vou ter que sair de casa. Acho que me fará bem um passeio pelas olarias no sopé das serras.

-o que ele lhe fez que a magoou tanto, patroa?

Aurora engoliu a saliva duas vezes antes de iniciar seu relato.

Ela e Eduardo viviam um romance intenso, cheio de promessas e expectativas felizes para o futuro. Depois do evento traumático que ela atravessou e que a mutilou física e emocionalmente, ele permaneceu ao seu lado apoiando-a, mas o distanciamento iniciou por conta das crises de Pânico e a depressão que dilapidava diariamente a energia da escultora. Ela o mandava embora, mas os dias foram passando e ele permanecendo ao seu lado. Certa manhã, ela deixou-o toca-la sensualmente e depois do sexo, adormeceram abraçados. Neste período Aurora já utilizava sua permanente meia mascara de silicone. Ao despertar, ela depara-se com os olhos cheios de horror dele, fixos em sua face mutilada.

-o que aquele monstro fez com você, Aurora? - ele balbuciou.

A escultora recolocou a mascara que havia se deslocado com o sono, mas o olhar dele não se alterou. Parecia poder avistar o que a mascara tentava ocultar.

-depois deste dia, ele saiu para o trabalho e não retornou mais. Ligou algumas vezes, você sabe, com alguma desculpa. A ultima para avisar que aceitara um emprego em uma das filiais da empresa que trabalhava, localizada no interior de Minas Gerais e que teria que se mudar.

Otavio tremeu indignado.

-como ele pôde fazer isso?

-Antes fiquei intensamente ferida. Eu pensei que o amava e a rejeição foi cruel. Hoje penso que não o posso culpar. Depois do que me aconteceu eu não me tornei uma pessoa fácil de se conviver.

-mas nada justifica a atitude dele, patroa!

-Agora não importa mais.

-o que fará ?

-penso que em todo fim de relação, os companheiros precisam conversar. A nossa conversa apenas está demorando quase um ano após para ocorrer. Eu vou decidir o momento em que poderemos finalmente conversar. Não aceitarei imposição.

-mas pelo jeito, ele esta vindo para tentar recuperar o relacionamento.

-não há mais qualquer possibilidade. Principalmente depois do que aconteceu entre mim e Carla.

Otavio a olhou pensativo. Seus olhos expressivos cheios de compreensão.

-vocês duas estão se entendendo? - ele perguntou suavemente.

-Sinto que ela me quer, Otavio.

-pensou no que fará de agora em diante?

-quando horas atrás eu precisei rezar, sabia que finalmente necessitava pedir pela paz das nossas almas amarguradas. A minha e a dela. Depois da prece, meu coração conseguiu finalmente avistar paz. Eu a aceitei novamente. Aceitei o amor que ela me ofereceu e ainda oferece. Sinto-me reviver e compreendo que a solidão e melancolia que sempre carreguei comigo era a dor pela perda da mulher que amei.

Nesta minha existência, na realidade eu não consegui amar as pessoas com quem me relacionei. Mantinha longas relações por necessitar de companhia e vazão para minha energia sexual. Precisava também me sentir dentro do padrão tido como "normal".

Otavio estava ficando corado. Não esperava ser elevado tão repentinamente a confidente.

-Madame Mei está longe de qualquer padrão. - ele argumentou.

Ela sorriu.

-deve parecer absurdo, mas eu não estou enlouquecendo, Tato. Não é um delírio coletivo entre mim e Carla. Nos realmente vivenciamos uma vida e um grande amor juntas e é este amor que ela quer reaver.

-diz sempre o que ela quer, o que ela pensa, mas ainda nada diz sobre seu próprio sentimento.

Aurora o fitou intensamente. Chegara no ponto que ainda a torturava. Um obstáculo que não sabia como remover.

-vamos partir de hipóteses. - ela corou. - um homem e uma mulher se amam ardentemente em outra vida. Ele morre no mar e ela depois, desesperada atira-se de um penhasco. Outras vidas depois, ela o reencontra e...a alma dele desta vez está instalada em um corpo feminino.

-E ela o aceita ?

-penso que sim. - Aurora gemeu ao lembrar as palavras ardentes de Carla.- o obstáculo está na cabeça "dele" o jovem que morreu no mar. Até o momento de reencontra-la ele não se importava ou se preocupava em ter renascido uma mulher. Alias, ele não sabia. Agora "ele" se lembra do amor que fizeram, de como "ele" a tocava, possuía e sente-se um ente emasculado. "Ele" agora a quer com a mesma intensidade, mas não sabe como agir. Não sabe como fazer para te-la e satisfaze-la sexualmente e isso o deixa desnorteado pois agora a deseja tanto que sente cada nervo de seu corpo fremir e doer.

A face de Aurora estava tomada por um rubor intenso enquanto ela relatava sua "hipótese" com o olhar fixo nos anéis de seus dedos longos. No instante em que revelou sobre seu desejo, fechou os olhos e deixou escapar um gemido dorido. O querer dela a fazia sentir uma dor quase física e seu corpo pulsar sedento.

Otavio ainda pálido, a olhava agora com novo interesse.

-sabe Madame Mei que minha formação é católica, mas eu sei o quanto a senhora agora acredita em imortalidade da alma e reencarnação e andei lendo muito sobre isso.

-nem sempre acreditei, Tato. Até há pouco era uma agnóstica teimosa. A fé na imortalidade da alma e reencarnação simplesmente me cercou e meteu-se dentro da minha cabeça a custo de fórceps. - ela sorriu suavemente.

-Bem, eu não sou mesmo um bom conselheiro, mas voltando as hipóteses, li algo sobre almas gêmeas que me deixou muito emocionado, pois o amor que há entre elas, permanece perpetuamente e supera os obstáculos físicos...

-então acredita que...

-se ela for sua alma gêmea, não haverá obstáculo que a fará se distanciar, muito menos o físico. O corpo torna-se mais um acessório, um decodificador de sensações carnais e ele pode se adaptar para o amor...

-é o que esta acontecendo entre você e o Martino ? Vocês estão se adaptando para o amor?

Otavio levantou-se de um salto, assustado por ter seu segredo escancarado sem pudor.

-eu e Martino estamos tentando, mas sabemos que não somos almas gêmeas e sim pessoas que buscam o amor. Nada perto daquela grandeza.

-mas quem sabe um dia no futuro, se o amor de vocês se consolidar, quem sabe ele também não se fará imortal?

Otavio a abraçou soluçando, molhando seu ombro com lagrimas mornas. Sempre desconfiara que Aurora suspeitava de sua sexualidade, mas eles nunca tinham tocado no assunto e ele temia que ela o rejeitasse. Agora compreendia que ela sempre soube e sempre o aceitou, mesmo antes de se confrontar com Carla e sombra do amor homossexual crescendo entre as duas.

Separaram-se do abraço e Otavio ainda tremia emocionado.

-o que fará agora, Madame Mei?

-ainda não sei. Mas quando ela vier, deixarei meu corpo e coração me guiar. O que poderia me ferir agora, o que eu poderia perder ?

Aurora avançou pela casa exultante.

-Amanhã quero que abra todas as janelas. Quero a luz da manhã penetre em cada recôndito escuro desta casa e os purifique. Troque as cortinas, tapetes e queime todos os lençóis e roupa de cama do meu quarto. Quero comprar tudo novo. Arranje dois outros serviçais para pintar as paredes da ala intima.

Ela moveu-se em direção a agenda telefônica.
-quero marcar urgente uma consulta com meu ginecologista. Será que consigo amanhã?

Otavio sorriu ao vê-la vibrando com uma energia nova, qual noiva preparando-se para a lua-de-mel, mas ainda pensou que deveria como amigo alerta-la de algo.
-mais uma coisa, Madame Mei. Eu ainda li que não há obstáculos possíveis contra almas gêmeas a não ser...

-sim?

-a rejeição de uma delas ao amor.

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