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Home 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 Atônita no meio de seu quarto, Aurora sentia a vertigem submeter seus sentidos e uma mão gigantesca comprimindo seu plexo solar. Cambaleou lenta para sua cama, no entanto não chegou a se deitar. O perfume de Carla denunciou sua aproximação. Voltou-se e a avistou trêmula. Na face, os olhos grandes intensamente solitários, perdidos de onde lagrimas cristalinas se represavam. -posso entender seu medo, Aurora. Quando vislumbrei o imponderável a respeito do que une nossas vidas, ou pelo menos o que as uniu outrora, pensei que perdera o senso, a noção de tempo, espaço ou mesmo a razão. A
voz soava cansada e a fadiga física e emocional de Carla transparecia
no seu rosto e corpo. -venha
e fale-me sobre nós. Quem sabe depois você poderá
descansar? - Aurora capitulou trêmula, sabendo que adiar um pouco
mais o confronto significava prolongar a ansiedade e angustia que as
torturava. --x-- Almoçando silenciosamente, "Madame Mei" não conseguia elevar o olhar para a face de Carla. A violinista estava sentada defronte com Martino ao seu lado auxiliando-a a cortar o alimento com o garfo e a faca. Otavio não desviava o olhar inquisidor de sua jovem patroa. O palor da tez dela o preocupava. Sabia que as mulheres conversaram em particular por um bom período na parte superior da casa principal e depois repousaram ambas pelo menos por duas horas. O
que o afligia era a sensação de que algo terrível
ou mesmo grave acontecera ou andava iminente e sua jovem patroa o estava
mantendo a margem da verdadeira situação. Terminaram a refeição e os rapazes esperaram pacientes por orientação. -Precisamos ir, Martino!. - Carla determinou para o motorista. O motorista aproximou-se solicito para ajuda-la. -pode
pernoitar aqui, se desejar... -eu realmente preciso ir. Meus pais estarão retornando de uma longa viagem no fim desta tarde. - justificou a loira. Aurora ergueu a cabeça finalmente enquanto as mãos nervosas agarraram o guardanapo do seu colo e o torceu. Pela primeira vez pensou em Carla como um ser derivado de alguém. Não sabia ao certo porque a tomara como um ente quase sobrenatural acima da qualidade telúrica dos seres que se unem para gerar outros. Com a saída dela, o coração de Aurora escureceu. Lagrimas saltaram de seus olhos e Otavio ganiu como um filhote abandonado. -Madame Mei, por favor... A
escultora entrou no estúdio vazio e trancou a porta atrás
de si. -eu quero ficar só. - ela pediu com suavidade. Ele encostou a cabeça na porta e seguiu os veios da madeira com a ponta da unha do indicador. -o que ela lhe fez? Ela a magoou? A voz dele estava fanha com o esforço de manter-se firme sem deixar transparecer sua aflição crescente. -não Otavio, ela não me magoou. Há pouco ainda não consegui refletir e assimilar a grandeza do que ocorreu. Seja paciente comigo. - pediu com doçura. -poderemos conversar quando a patroinha refletir? -claro, meu amigo. Sempre poderemos conversar. No momento preciso apenas de um pouco de solidão. - confortou-o. Ele se afastou com passadas pesadas. Decidiu-se tentar misturar uma nova receita de bolo de laranja para exorcizar a sensação de hecatombe iminente. Seria capaz de oferecer parte de sua vida para ela ou em razão dela. Madame Mei sofrera uma serie de perdas em um curto período e sua alma sensível já se ferira demais. Três anos antes, os avós paternos pereceram em um acidente de carro. Aurora era muito ligada ao avô. Meio ano depois, a mãe dela, Áurea Mei, apresentara um raro e agressivo câncer no pulmão que a matou em pouco mais de quatro meses. Não houve qualquer chance de rádio ou quimioterapia. O fim daquele ano fatídico trouxe mais uma baixa. O pai de Aurora sucumbira a sua dor em um enfarto fulminante. Dos avós maternos, ela perdera qualquer contato há décadas na distante China. Sentada em sua Berger favorita, Aurora rememorava os momentos a sós com a violinista. Ela viu seu passado nos olhos de Carla. A consciência de sua vida anterior aflorou suavemente dos recônditos misteriosos da inconsciência e instalou-se diante de seus olhos como se no principio ali sempre estivera, calando os brados alucinados de razão. Fechou
os olhos e chamou baixinho o nome da violinista. Ela fora batizada Carla
Torres Kronner. Ele parecia sussurrar-lhe que era preciso reunir coragem e ir além. Aurora
deitou-se no macio tapete no centro da sala e fechou os olhos absorvendo
com cada célula e senso de si a melodia da "Sonata ao Luar"
de Beethoven enquanto buscava na sua mente a imagem da violinista. Ela
nada lhe pedira, mas Aurora temia que sua indecisão pudesse afasta-la
de si, magoada pela rejeição tácita, muda. -este outrora fora também meu sonho. Voltar para ela. - a escultora exclamou para si em voz baixa. Aquela
vida perdida em uma distante aldeia de pescadores, talvez próxima
a atual Finlândia onde o sol desfilava paralelo e nunca atingia
o zênite ao meio-dia, isso por diversos meses, significara tanto
para ambas. O irmão do homem que Aurora um dia fôra, jovem
líder espiritual dos aldeões, dissera que sonhara com
um cardume de peixes, como nunca avistado antes, que se formava em algum
ponto no poente em meio ao oceano que rumorejava perigoso e em ressaca. Aurora
agora entendia porque ele, José, mesmo inconsciente disso, sempre
a odiaria e ao seu rosto bonito, como o do homem que ela fora outrora.
E isso bastou para o encher de ódio e ira bestial contra ela.
O irmão fraco e invejoso que cobiçava a mulher do belo,
forte e destemido pescador. A
consciência daquela traição, perfídia abateu
profundamente o espírito de Aurora. A escultora saiu do seu estúdio,
cambaleando com dificuldade escadaria acima. Sentia-se terrivelmente
doente, não fisicamente, mas a angustia voltou a tortura-la. Avistou a silhueta de Otavio que se esgueirava ao seu encalço. O moço não se arriscava a vagar pela ala íntima da casa principal sem ser convidado, mas naquele dia, estava disposto a romper todas as regras tácitas. Ele não se importava se ela o expulsasse. Não se afastaria até certificar-se de que Madame Mei estava bem. O olhar mortiço, perdido dela o paralisou. -por favor me ajude, Tato. Há pouco sinto como se a vida estivesse me escapando pelas narinas... Ele apressou-se e a amparou ajudando-a a se deitar no quarto. -acenda uma vela. Eu preciso rezar. Quando ela finalmente conseguiu repousar, um sono entrecortado de gemidos e pequenos sustos, a campainha do telefone tocou estrondoso. -Carla? - Aurora pensou com o coração palpitante de esperança, mas ao alcançar o fone, ouviu a voz viril de Eduardo. -Aurora, sinto saudades! - ele despejou em um único fôlego. -você? - ela indagou perplexa. -sim,
sou eu. -ah, certo. Otavio bateu na porta e a chamou. -quem esta ai com você? - Eduardo perguntou ciumento. Ela desligou o telefone. Um absurdo o ex-amante estabelecer contato após tantos meses silencioso. O telefone tornou a tocar e ela não atendeu. Otavio bateu na porta novamente. -posso atender, patroa? - inquiriu. -Não. Eu faço. - Aurora respondeu furiosa ao esticar o braço e ajustar o fone no ouvido. -é inadmissível sua atitude possessiva e ciumenta, Eduardo. Se há um bom motivo para ligar, seja breve. Estou ocupada. O suspiro profundo do outro lado da linha paralisou a respiração da escultora enfurecida. -Carla ? Um breve momento em silencio e ela respondeu com sua voz profunda e sensualmente rouca. -sim. - uma pausa.- muito ocupada? Posso ligar amanha então. -não. Acabo de me desocupar. Podemos conversar tranqüilamente agora. - ela riu nervosa, aborrecida consigo mesmo. - Martino e eu acabamos de chegar em casa. - Carla informou em um tom brando, quase casual. -e seus pais? -cansados por causa do fuso horário. Amanha almoçaremos juntos. -ah. -algo a perturba? -A lua. Esta cheia e penso que neste momento ela move as marés e... (eu preferia vê-la neste instante, ou mais tardar amanha. ) - a voz da mente de Aurora gritou enquanto seus lábios se calaram. -sim? Aurora não conseguiu prosseguir. Não poderia dizer que ao ouvir novamente a voz dela, sentira-se quase desfalecer para depois vibrar ao ataque intenso dos jorros fortes de sangue que a incandesciam, como o recuo das ondas que precede uma tsunami. - e os bebês lunares esperam pacientes para nascer. - ofegou. Carla refletiu por um momento. - estou certa que não era exatamente sobre bebês lunares que há pouco você se referia. Está novamente jogando com as palavras, Aurora. O que deseja ocultar precisamente? -que
a lua hoje, não move apenas as marés. Move também
a mim, minha libido... Otavio correu ruidoso pelo piso de madeira do corredor. -Madame Mei, seu celular está tocando !. - Anunciou atrás da porta cerrada do quarto. O enlevo mágico entre as duas foi momentaneamente rompido. -um momento Carla, necessito de alguns minutos para praticar um "mordomocidio" e poderemos continuar. Otavio continuou a bater na porta. Agora com mais intensidade. -patroa o Eduardo está na linha. Diz que precisa conversar com... Aurora agarrou um pé da sua bota de montaria perto de um móvel e a atirou contra a porta com estrondo. -o que foi isso? - Carla perguntou preocupada. -acabo de calar um "quase mordomo" histérico. -o que fez com ele? -não se preocupe. Ele tem coração forte. Vai resistir. Pela primeira vez, Aurora ouviu a deliciosa risada cristalina de Carla. Riram juntas por momentos de descontração sublime até que a violinista declarou timidamente. - eu penso que necessito de outra massagem. Suas mãos são mágicas e meus pais afirmaram que meu humor melhorou consideravelmente. Aurora não conseguiu responder. A voz presa na garganta enquanto refletia como agir. Naquele momento, ela finalmente tomou conhecimento que flertava com outra mulher, há pouco uma quase desconhecida. -as mãos de "Madame Mei" estão a sua disposição. Carla riu suavemente. -esta tarde, depois que cheguei em casa e me deitei para descansar um pouco...eu senti sua mão acariciando meus cabelos. -e eu sonhava que a tinha adormecida no meu peito masculino, como outrora. Alguém perto de Carla a chamou com a voz grave carregada de sotaque. -Meu
pai esta chamando. Combinamos assistir um concerto de musica erudita
hoje e eu já o estou atrasando. Eu a verei em breve, pequeno
Nenúfar. Encerraram a ligação. Aurora sentiu seu corpo vibrar em um misto de alegria, indecisão, saudade e medo. Todos sentimentos desfilando em sua pele sendo que o único que permanecia residente era o desejo ardente que iniciara pequeno como uma centelha e irradiava em um crescendo paulatino dentro de si. Escapou do quarto e quando alcançou o pé da escadaria, encontrou com Otavio. O mordomo estava pálido e ainda mantinha o celular de Aurora na mão. O olhar perdido e desolado fixou no rosto da patroa. -ele ligou para avisar que não desistirá de conversar com você. - o rapaz conseguiu dizer com voz baixa. -o Eduardo? -sim. Aurora apanhou o aparelho celular e iniciou a discar para o ex-amante. Obteve o sinal da caixa postal. -não adianta, patroa. Eu disse a ele que a senhora não estava receptiva, mas ele não aceitou qualquer argumento. Disse que arranjaria uma oportunidade de aparecer para vê-la e conversarem. Aurora abandonou o celular sobre um móvel e sentou-se no sofá, abraçando a cabeça com as duas mãos. -vou providenciar um café. - Otavio anunciou, desejoso de escapulir para seu refugio na cozinha. -fique, Tato. Precisamos conversar. Quero que me desculpe por tê-lo tratado mal lá encima. Não queria ser interrompida em minha conversa com Carla, muito menos para atender um telefonema de Eduardo. Você sabe como meu gênio anda um tanto azedo. Otavio sentou-se no sofá defronte Aurora. -não precisa desculpar-se, patroa. Eu imagino o quanto Eduardo a magoou, mas vocês estiveram juntos há tanto tempo e pensei que se amassem e pudessem acabar se entendendo. Conclui mal que um telefonema dele lhe faria bem. -Em outros tempos, talvez eu me alegrasse com a chamada dele. Não agora. Depois que Eduardo foi embora, muita coisa mudou em mim e em minha vida, Otavio. Entretanto penso que já é hora de você saber o que realmente me magoou em nosso rompimento, afinal pessoas unem e rompem relacionamentos todos os dias sem maiores seqüelas. Eu namorei muitos rapazes e nunca consegui manter uma relação alem de poucos meses ou 1 ano, até Eduardo. O fim dos outros relacionamentos nunca doeu alem do quinhão que se espera em uma tentativa fracassada. Eu me iludi quanto ao amor incondicional dele para mim. Me apeguei pois ele esteve ao meu lado quando da perda de todos os meus parentes. -não precisa contar, patroa. Não é assunto da conta de serviçais. -Sabe que não o considero um mero serviçal, Otavio. Você foi criado na família e é um amigo dedicado e por esse motivo quero lhe falar. Podemos conversar ? Aurora tocou com a mão o lugar ao seu lado, indicando onde queria que ele sentasse. Otavio sentou-se ali, obediente. -eu sei que você e Eduardo eram bons amigos e penso que não há mal algum se vocês continuarem sendo amigos, entretanto se ele acredita que está voltando para reivindicar seu lugar ao meu lado na cama, ele fará uma viagem infrutífera. Você pode recebe-lo na sua casa, após o pomar. Não o quero aqui na casa principal. -não sei se conseguirei detê-lo. -nesse caso, quando ele vier, eu vou ter que sair de casa. Acho que me fará bem um passeio pelas olarias no sopé das serras. -o que ele lhe fez que a magoou tanto, patroa? Aurora engoliu a saliva duas vezes antes de iniciar seu relato. Ela
e Eduardo viviam um romance intenso, cheio de promessas e expectativas
felizes para o futuro. Depois do evento traumático que ela atravessou
e que a mutilou física e emocionalmente, ele permaneceu ao seu
lado apoiando-a, mas o distanciamento iniciou por conta das crises de
Pânico e a depressão que dilapidava diariamente a energia
da escultora. Ela o mandava embora, mas os dias foram passando e ele
permanecendo ao seu lado. Certa manhã, ela deixou-o toca-la sensualmente
e depois do sexo, adormeceram abraçados. Neste período
Aurora já utilizava sua permanente meia mascara de silicone.
Ao despertar, ela depara-se com os olhos cheios de horror dele, fixos
em sua face mutilada. -depois deste dia, ele saiu para o trabalho e não retornou mais. Ligou algumas vezes, você sabe, com alguma desculpa. A ultima para avisar que aceitara um emprego em uma das filiais da empresa que trabalhava, localizada no interior de Minas Gerais e que teria que se mudar. Otavio tremeu indignado. -como ele pôde fazer isso? -Antes fiquei intensamente ferida. Eu pensei que o amava e a rejeição foi cruel. Hoje penso que não o posso culpar. Depois do que me aconteceu eu não me tornei uma pessoa fácil de se conviver. -mas nada justifica a atitude dele, patroa! -Agora não importa mais. -o que fará ? -penso que em todo fim de relação, os companheiros precisam conversar. A nossa conversa apenas está demorando quase um ano após para ocorrer. Eu vou decidir o momento em que poderemos finalmente conversar. Não aceitarei imposição. -mas pelo jeito, ele esta vindo para tentar recuperar o relacionamento. -não há mais qualquer possibilidade. Principalmente depois do que aconteceu entre mim e Carla. Otavio a olhou pensativo. Seus olhos expressivos cheios de compreensão. -vocês duas estão se entendendo? - ele perguntou suavemente. -Sinto que ela me quer, Otavio. -pensou no que fará de agora em diante? -quando horas atrás eu precisei rezar, sabia que finalmente necessitava pedir pela paz das nossas almas amarguradas. A minha e a dela. Depois da prece, meu coração conseguiu finalmente avistar paz. Eu a aceitei novamente. Aceitei o amor que ela me ofereceu e ainda oferece. Sinto-me reviver e compreendo que a solidão e melancolia que sempre carreguei comigo era a dor pela perda da mulher que amei. Nesta minha existência, na realidade eu não consegui amar as pessoas com quem me relacionei. Mantinha longas relações por necessitar de companhia e vazão para minha energia sexual. Precisava também me sentir dentro do padrão tido como "normal". Otavio estava ficando corado. Não esperava ser elevado tão repentinamente a confidente. -Madame Mei está longe de qualquer padrão. - ele argumentou. Ela sorriu. -deve parecer absurdo, mas eu não estou enlouquecendo, Tato. Não é um delírio coletivo entre mim e Carla. Nos realmente vivenciamos uma vida e um grande amor juntas e é este amor que ela quer reaver. -diz sempre o que ela quer, o que ela pensa, mas ainda nada diz sobre seu próprio sentimento. Aurora o fitou intensamente. Chegara no ponto que ainda a torturava. Um obstáculo que não sabia como remover. -vamos partir de hipóteses. - ela corou. - um homem e uma mulher se amam ardentemente em outra vida. Ele morre no mar e ela depois, desesperada atira-se de um penhasco. Outras vidas depois, ela o reencontra e...a alma dele desta vez está instalada em um corpo feminino. -E ela o aceita ? -penso que sim. - Aurora gemeu ao lembrar as palavras ardentes de Carla.- o obstáculo está na cabeça "dele" o jovem que morreu no mar. Até o momento de reencontra-la ele não se importava ou se preocupava em ter renascido uma mulher. Alias, ele não sabia. Agora "ele" se lembra do amor que fizeram, de como "ele" a tocava, possuía e sente-se um ente emasculado. "Ele" agora a quer com a mesma intensidade, mas não sabe como agir. Não sabe como fazer para te-la e satisfaze-la sexualmente e isso o deixa desnorteado pois agora a deseja tanto que sente cada nervo de seu corpo fremir e doer. A face de Aurora estava tomada por um rubor intenso enquanto ela relatava sua "hipótese" com o olhar fixo nos anéis de seus dedos longos. No instante em que revelou sobre seu desejo, fechou os olhos e deixou escapar um gemido dorido. O querer dela a fazia sentir uma dor quase física e seu corpo pulsar sedento. Otavio ainda pálido, a olhava agora com novo interesse. -sabe Madame Mei que minha formação é católica, mas eu sei o quanto a senhora agora acredita em imortalidade da alma e reencarnação e andei lendo muito sobre isso. -nem sempre acreditei, Tato. Até há pouco era uma agnóstica teimosa. A fé na imortalidade da alma e reencarnação simplesmente me cercou e meteu-se dentro da minha cabeça a custo de fórceps. - ela sorriu suavemente. -Bem, eu não sou mesmo um bom conselheiro, mas voltando as hipóteses, li algo sobre almas gêmeas que me deixou muito emocionado, pois o amor que há entre elas, permanece perpetuamente e supera os obstáculos físicos... -então acredita que... -se ela for sua alma gêmea, não haverá obstáculo que a fará se distanciar, muito menos o físico. O corpo torna-se mais um acessório, um decodificador de sensações carnais e ele pode se adaptar para o amor... -é o que esta acontecendo entre você e o Martino ? Vocês estão se adaptando para o amor? Otavio levantou-se de um salto, assustado por ter seu segredo escancarado sem pudor. -eu e Martino estamos tentando, mas sabemos que não somos almas gêmeas e sim pessoas que buscam o amor. Nada perto daquela grandeza. -mas quem sabe um dia no futuro, se o amor de vocês se consolidar, quem sabe ele também não se fará imortal? Otavio a abraçou soluçando, molhando seu ombro com lagrimas mornas. Sempre desconfiara que Aurora suspeitava de sua sexualidade, mas eles nunca tinham tocado no assunto e ele temia que ela o rejeitasse. Agora compreendia que ela sempre soube e sempre o aceitou, mesmo antes de se confrontar com Carla e sombra do amor homossexual crescendo entre as duas. Separaram-se do abraço e Otavio ainda tremia emocionado. -o que fará agora, Madame Mei? -ainda não sei. Mas quando ela vier, deixarei meu corpo e coração me guiar. O que poderia me ferir agora, o que eu poderia perder ? Aurora avançou pela casa exultante. -Amanhã quero que abra todas as janelas. Quero a luz da manhã penetre em cada recôndito escuro desta casa e os purifique. Troque as cortinas, tapetes e queime todos os lençóis e roupa de cama do meu quarto. Quero comprar tudo novo. Arranje dois outros serviçais para pintar as paredes da ala intima. Ela
moveu-se em direção a agenda telefônica. Otavio
sorriu ao vê-la vibrando com uma energia nova, qual noiva preparando-se
para a lua-de-mel, mas ainda pensou que deveria como amigo alerta-la
de algo. -sim? -a
rejeição de uma delas ao amor. |