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AURORA BOREAL

Aurora conduziu Carla pelo varandado que contornava toda a residência, um sobrado de madeira e alvenaria no melhor estilo franco-alemão.

Presos nas vigotas que sustentavam a cobertura da varanda, "mensageiros do vento" tilintavam, mágicos. Havia os de bambu, metal e cerâmica. Estes últimos ela os moldara em forma de flores, sinos ou mesmo, bruxinhas e duendes.

- o sol nasce nesta face da casa. - explicou para sua visitante enquanto se acomodavam na imensa namoradeira.

A casa principal fora construída no topo de um monte verde, circundado a noroeste pela penugem densa de um bosque nativo, este guardião de um riacho que nascia nas montanhas quilômetros acima. A oeste, o pomar e ao sul, a muralha protetora dos eucaliptos. O pai temia o poderoso e avassalador vento sul.

Devido a localização privilegiada da residência, mais precisamente do piso superior- área intima, era possível visualizar todo o vale abaixo de um ângulo de 360 graus. Um belvedere maravilhoso.

-e a janela do seu quarto se abre para o nascente.

Aurora interrompeu a breve descrição do vale sob o sol nascente, surpresa. Como Carla poderia saber sobre a posição da sua janela?

- como sabe ? -inquiriu suavemente.

-intuição. - foi a resposta lacônica.

O espetáculo do nascer do sol evoluía, transformando a luz prata do céu em um clarão lilás cambiando para o violeta. As nuvens que a obliteravam, foram sendo vazadas por longos dardos dourados que finalmente as rompeu, liberando todo o fulgor solar.

Aurora continuou a descrever suavemente o avanço inexorável da luz rompendo as nuvens e colinas no horizonte.

- e os girassóis ? - Carla interrompeu suavemente.

-este ano não os plantei. Sentia-me com o espírito alquebrado demais para me alegrar em observa-los moverem as faces douradas, seguindo o astro-rei.
Antigamente, eu os semeava na banda norte. Assim, no nascente poderia espiar quando moviam-se para a esquerda e lentamente giravam, qual um exercito verde-amarelo, para a direita, quando enfim repousavam. A natureza do girassol é girar e girar em busca da luz.

-assim como a natureza humana se move para o amor e pelo amor, buscando-o dia após dia incansavelmente. - completou Carla.

Aurora silenciou, perturbada pelas palavras da violinista, mas esta tocou sua mão, pedindo suavemente que continuasse a descrição.

O sol delineou-se com todo seu esplendor e Aurora enfim encerrou sua narrativa. Estava esgotada física e emocionalmente para inquirir a companheira ao lado sobre como sabia tantos detalhes de sua vida antes da mutilação, sobre os girassóis, e o mais importante, sobre o jardim onde o anjo repousava.

Lentamente voltou o rosto para sua companheira e a viu com os olhos fechados. O perfil cinzelado em linhas impossíveis de se reproduzir na rocha, no alabastro ou argila, tal a pureza e a suavidade.
O brilho dos cabelos, a aparência trigo aveludada da pele e os lábios nórdicos rubros.
O coração apertou quando avistou duas densas lagrimas escorrerem dos cílios espessos. Desejou abraça-la naquele momento para consola-la, mas capitulou.

-Carla! - Aurora chamou com medo, tocando o braço da jovem violinista.

Ela voltou o rosto para sua companheira e ergueu uma sobrancelha, enquanto a mão elegante retirava a lagrima de seu curso. Não desejava revelar tanto da dor que lhe abatera o peito momentos atrás.

-não me toque, Aurora. Por favor. Não agora.
Ela suspirou profundamente e recuperou a expressão glacial costumeira. Os olhos cegos, fixos em um ponto através da escultora, brilhavam cruéis.

-livre-me de qualquer sentimento de piedade. Talvez, apesar de tudo eu ainda não tenha bebido o suficiente no cálice da amargura. Não como o seu.

Aurora prendeu a respiração. O peito opresso ao entendimento das palavras de Carla.

-impossível mensurar. - confirmou. -Contudo não há como avaliar e comparar a minha dor, a sua dor.

A violinista estendeu as mãos e tentou tocar a face de Aurora. A escultora a conduziu ate a si e comoveu-se com os toques ternos em sua pele. Fechou os olhos inebriada e suspirou. A confusão do que ocorrera ate ali, fechou-se em sua mente após presenciar o sofrimento de Carla no dia anterior.

-encontrei o "anjo" enquanto estava em coma no hospital. - Carla iniciou a relatar com voz emocionada e um pequeno sorriso agridoce nos lábios.- mesmo no coma, ouvi o médico explicar aos meus pais que meu estado era critico e que sobreviveria por um milagre. Naquela madrugada, "Asrael" personificou-se. Veio acompanhar um menino que jazia a três camas após a minha.

-acompanhar?

-o pequeno faleceu naquela madrugada. Eu estava imóvel entre tubos e sondas, mas pude sentir a presença do anjo e também pressentir sua vontade. Desejei que ele me conduzisse junto, mas ouvi sua voz em minha mente que dizia que meu momento ainda não era vindo porque o objetivo maior de minha vida estava perto de ser alcançado. Depois, ele voltaria.
Despertei do coma meses após. Um milagre como disseram os médicos.

-Laura sabe sobre o "anjo"?

-contei a ela e a partir deste momento ela sugeriu veementemente que eu me encontrasse com você.

-ela explicou os motivos?

-não.

Aurora enrubesceu no momento em que os dedos de Carla passaram a contornar seus lábios, entretanto não se armou de coragem para impedi-la de continuar sua exploração. Estava totalmente atordoada com o relato da jovem violinista e a conclusão surgiu claramente: elas conheciam o anjo da morte e de alguma forma, em suas meditações e viagens astrais, Aurora encontrara a emanação da personalidade de Carla no jardim, aos pés de Asrael.

-Esteve no "jardim astral" ontem?

-sim e "senti" sua presença ali. - confirmou Carla.

-como poderia ter certeza que era "minha presença"?

-a certeza apenas quando você confirmou.

-no entanto a revelação foi assim tão assustadora a ponto de desencadear uma crise de "Pânico"?

Carla retirou as mãos da face de Aurora e fechou-se. Aparentemente, todo progresso para vencer a barreira erguida entre elas, retrocedeu ao marco inicial.

A escultora avaliou a atitude arredia e misteriosa de sua companheira e temeu que mais um passo incauto e a teria em fuga.

-não quero que fuja novamente de mim, Carla! - verbalizou o que sentia com voz baixa, arrependida tardiamente de revelar a causa de sua súbita ansiedade e medo.

A violinista tornou a sorrir de forma amarga.

-mesmo se esta fosse minha vontade, eu não poderia mais retroagir. Não depois de reconhecer e aceitar meu destino.

-e onde esta seu destino?

-estive tocando-lhe a face, momentos antes.
Aurora baqueou enquanto o sangue lhe fugia da face e o coração estrondava em seu peito.
Estática, avaliou cada palavra e diante do choque, nada fazia sentido.

Otavio apareceu agitado e estacou ao ver a palidez de sua jovem patroa. Aurora por sua vez, sentiu-se aliviada com o aparecimento do rapaz.

-o desjejum esta posto, Madame Mei. - anunciou ele embaraçado.

O sorriso de Aurora o acalmou e ele saiu.

-Madame Mei?

-um apelido. Meu pai gostava de me chamar assim.

-sobrenome de familia?

-sim, da parte de minha mãe. Fui batizada Aurora Mei Santa Ana. Vamos ao desjejum? - convidou suavemente desejosa em adquirir um pouco de tempo para pensar.
Com o meneio de aprovação de Carla, Aurora arrebatou-lhe a mão esquerda e a instalou no seu braço conduzindo-a pelo varandado que contorna a casa.

Estava inebriada por te-la próximo de si e aos seus cuidados, seguindo-a docilmente. Uma mudança importante de comportamento.

Depois do desjejum silencioso, sentadas no estúdio, Aurora percebeu a fadiga no rosto de sua companheira e sugeriu que poderiam dormir algumas horas antes de retomarem a conversa interrompida.

Novamente surpreendeu-se ante a atitude silenciosa e condescendente de sua aluna selvagem.


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Deitada no lusco fusco de seu quarto, Aurora refletiu um pouco antes de ser tomada pelo sono intenso.
-sim, Carla estivera no "jardim" outras vezes e ambas conheciam "Asrael", mas o que mais haveria ali? Que segredo Laura e Carla estiveram ocultando todo tempo ?
Havia voltado a chover intensamente e Aurora deixou o sono restaurador envolve-la. Sob o efeito da fadiga não teria capacidade cognitiva suficiente para avaliar fatos tão complexos.

Despertou abruptamente. Um sonho recorrente que a acometera na infância e boa parte da adolescência reaparecera. O sonho de uma tempestade em alto mar , vagas que a esmagavam e o mergulho desesperado na profundidade azul. Isso de certa forma explicava sua talassofobia, o medo fóbico do mar. Era estranha sua reação furiosa quando amigas da infância e depois, namorados a convidavam para passeios no litoral ou a beira-mar. Os pais, concluíram logo que melhor seria não a forçar a nada.
Depois de um tempo, os sonhos com o afogamento em alto mar foram escasseando.

Levantou-se nua e envolveu-se no seu roupão de seda favorito. Algo a empurrava para o corredor e em direção ao quarto de hospedes onde Carla estava instalada.

Bateu na porta suavemente, mas não ouviu resposta. Esperou e assustou ao detectar algo parecido com o som de um gemido pungente.

Entrou porta adentro com o coração opresso, principalmente ao avistar Carla se debatendo na cama.

-calma, eu estou aqui agora. Tudo esta bem. - confortou-a quando sentou na cama e envolveu-lhe o corpo em um abraçou forte. Foi preciso usar toda sua força para conter o corpo jovem de estrutura esguia, porem sólida que tremia intensamente a o ponto de parecer que poderia partir-se a qualquer momento.

Algum alivio percorreu o corpo de Aurora ao perceber que desta vez não estava diante de outra crise de pânico e que suas palavras brandas e as caricias feitas nos cabelos macios e empapados de suor de Carla a estavam acalmando lentamente.

-um pesadelo? - Aurora perguntou no momento em que aninhou a cabeça de Carla em seu colo. Ela meneou a face afirmativamente e suspirou aliviada enquanto aos poucos abrandava e enlaçava a cintura de sua companheira fortemente. Lagrimas cálidas umedeceram a seda do roupão de Aurora .

-não consegue dormir?

- Ha pouco sim, ate que, sonhei... - Carla sussurrou.

- Uma massagem a ajudara a relaxar. Enquanto isso, se quiser, poderemos conversar.

Carla afastou relutante o rosto do colo de Aurora.

-não há motivo para que seja gentil comigo. Eu destruí o "alma da terra" e tornei sua rotina um caos.

-Laura estava certa. Você fez sair da tristeza e mergulhar em intensas emoções. - riu Aurora, enquanto tentava em vão desvencilhar-se dos braços de Carla.

-imagino que a ira seja uma emoção intensa. - concluiu a violinista quando finalmente permitiu que Aurora se afastasse da cama. No rosto, um ricto de amargura.

-a ira é de longe melhor do que depressão e sentimentos auto-destrutivos. Reconheço que quase perdi o controle quando você transformou o "Alma da Terra" em inúmeros pedaços de cerâmica. Contudo, serviu a lição. Se eu desejasse me recuperar, teria que reconstruir minha vida sob outra base, com parâmetros diferentes. Minha deformidade é permanente. O "Alma da Terra" representou uma fase doce encerrada de meu passado recente e que não a reaverei mais. Não poderia me abalar tanto com mais esta perda, apenas lamentar. Antes, o rápido desaparecimento dos meus avos paternos e de meus pais realmente significaram uma perda importante. De qualquer forma, estou grata.

Aurora caminhou para apanhar o óleo e alguns cremes que estavam dispostos em um móvel próximo.

-grata?

-sim. Estou grata porque meus pais e avos não viveram o suficiente para saber o que fizeram com sua adorada "Madame Mei " ou "pequeno Nenúfar".

Carla sentou-se abruptamente na cama. Os olhos claros que procuravam a voz de sua companheira, destilando compreensão e ternura intensa. Não havia ali qualquer indicio de comiseração o que representou muito para a escultora. Por alguma razão, ainda desconhecida, ela desejou acercar-se do coração de Carla, mas não pelo sentimento de piedade ou a compreensão sobre sua intensa solidão.

Pediu suavemente que a violinista se deitasse de bruços e ouviu-a suspirar brevemente quando acomodou-se sobre a parte traseira de sua pélvis e iniciou a massagear-lhe pelos ombros tensos. Aos poucos afastava-lhe o roupão de seda das áreas que pretendia trabalhar.

Uma vertigem inebriante abateu-se nela ao deslizar as mãos experientes sobre as costas e a lateral próxima aos seios de sua companheira silenciosa.

Já fizera inúmeras massagens antes. Interessava-se pela acupuntura e massagem oriental a ponto de freqüentar alguns cursos. Depois, praticara em algumas amigas e nos namorados, sempre com sucesso, pois possuía mãos fortes e habilidosas. Eduardo afirmava que suas massagens eram especiais.

A verdade era que desta vez, o corpo de Aurora estava se comportando de forma diversa ao esperado e uma tensão palpitante iniciou-se no centro nervoso poderoso, instalado entre suas pernas. Tentou debalde direcionar sua mente a se concentrar no músculo, tendão ou nervo que trabalhava com as mãos, mas esta se perdia na textura da pele acetinada, o calor, as formas sensuais que fremiam ao seu toque.

Interrompeu a massagem e tentou se afastar, mas Carla não estava disposta a permitir.

-por favor, fique. Ha pouco estava conseguindo relaxar o suficiente para conciliar o sono. - pediu, prendendo-a pelo pulso.

Ela virou-se na cama e retirou completamente o roupão, mantendo-se apenas com a pequena roupa intima que lhe cobria o monte de Vênus harmonioso e macio e de onde escapavam alguns fios de pelos aloirados.

-toque-me, Aurora! Eu ainda me sinto muito tensa. - ronronou sensualmente.

A perplexa escultora lambeu os lábios secos e iniciou a coordenar os pensamentos desordenados que a assolavam. Algo lhe gritava que iniciara a percorrer um terreno perigoso e desconhecido.

A visão dos seios nus e hirtos de Carla alem da umidade visível que lhe umedecera a roupa intima eram indícios cabais de que a massagem agira de forma diversa a que pretendera.

Moveu-se ágil, afastando-se do corpo semi-nu com uma ânsia e medo desmesurada.

-me desculpe. Eu não devia...

-Aurora , você prometeu! - a voz de Carla soava tremula com um timbre desesperado.

Havia pungente medo em seus olhos.

-eu prometi? - a escultora conseguiu balbuciar, momentaneamente paralisada pela expressão de dor que se formara no rosto incrivelmente belo da violinista.

-Prometeu guardar seu amor para mim, para sempre! Prometeu que voltaria e eu a esperei tanto tempo. Eu a esperei e procurei por tantas gerações. Você não me reconhece?

Em um gesto forte, Carla lhe enlaçou o rosto com as mãos e puxou-a para si, unindo seus lábios densos e macios em um beijo apaixonado, urgente.

O calor forte que as invadiu deflagrou uma centena de sensações luxuriosas, intensas em seus corpos e Aurora sentiu-se desfalecer enquanto seus lábios correspondiam ao beijo com sofreguidão, tesão crescente. O cheiro acre-almiscarado de seus sexos palpitantes invadiu o ambiente.

Tateando a esmo como se estivesse imersa em um black-out, Aurora livrou-se do corpo de Carla e escapou porta afora.

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