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Home 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 Aurora
conduziu Carla pelo varandado que contornava toda a residência,
um sobrado de madeira e alvenaria no melhor estilo franco-alemão. -
o sol nasce nesta face da casa. - explicou para sua visitante enquanto
se acomodavam na imensa namoradeira. -e a janela do seu quarto se abre para o nascente. Aurora interrompeu a breve descrição do vale sob o sol nascente, surpresa. Como Carla poderia saber sobre a posição da sua janela? - como sabe ? -inquiriu suavemente. -intuição. - foi a resposta lacônica. O espetáculo do nascer do sol evoluía, transformando a luz prata do céu em um clarão lilás cambiando para o violeta. As nuvens que a obliteravam, foram sendo vazadas por longos dardos dourados que finalmente as rompeu, liberando todo o fulgor solar. Aurora continuou a descrever suavemente o avanço inexorável da luz rompendo as nuvens e colinas no horizonte. - e os girassóis ? - Carla interrompeu suavemente. -este
ano não os plantei. Sentia-me com o espírito alquebrado
demais para me alegrar em observa-los moverem as faces douradas, seguindo
o astro-rei. -assim como a natureza humana se move para o amor e pelo amor, buscando-o dia após dia incansavelmente. - completou Carla. Aurora silenciou, perturbada pelas palavras da violinista, mas esta tocou sua mão, pedindo suavemente que continuasse a descrição. O sol delineou-se com todo seu esplendor e Aurora enfim encerrou sua narrativa. Estava esgotada física e emocionalmente para inquirir a companheira ao lado sobre como sabia tantos detalhes de sua vida antes da mutilação, sobre os girassóis, e o mais importante, sobre o jardim onde o anjo repousava. Lentamente
voltou o rosto para sua companheira e a viu com os olhos fechados. O
perfil cinzelado em linhas impossíveis de se reproduzir na rocha,
no alabastro ou argila, tal a pureza e a suavidade. -Carla! - Aurora chamou com medo, tocando o braço da jovem violinista. Ela voltou o rosto para sua companheira e ergueu uma sobrancelha, enquanto a mão elegante retirava a lagrima de seu curso. Não desejava revelar tanto da dor que lhe abatera o peito momentos atrás. -não
me toque, Aurora. Por favor. Não agora. -livre-me de qualquer sentimento de piedade. Talvez, apesar de tudo eu ainda não tenha bebido o suficiente no cálice da amargura. Não como o seu. Aurora prendeu a respiração. O peito opresso ao entendimento das palavras de Carla. -impossível mensurar. - confirmou. -Contudo não há como avaliar e comparar a minha dor, a sua dor. A violinista estendeu as mãos e tentou tocar a face de Aurora. A escultora a conduziu ate a si e comoveu-se com os toques ternos em sua pele. Fechou os olhos inebriada e suspirou. A confusão do que ocorrera ate ali, fechou-se em sua mente após presenciar o sofrimento de Carla no dia anterior. -encontrei o "anjo" enquanto estava em coma no hospital. - Carla iniciou a relatar com voz emocionada e um pequeno sorriso agridoce nos lábios.- mesmo no coma, ouvi o médico explicar aos meus pais que meu estado era critico e que sobreviveria por um milagre. Naquela madrugada, "Asrael" personificou-se. Veio acompanhar um menino que jazia a três camas após a minha. -acompanhar? -o
pequeno faleceu naquela madrugada. Eu estava imóvel entre tubos
e sondas, mas pude sentir a presença do anjo e também
pressentir sua vontade. Desejei que ele me conduzisse junto, mas ouvi
sua voz em minha mente que dizia que meu momento ainda não era
vindo porque o objetivo maior de minha vida estava perto de ser alcançado.
Depois, ele voltaria. -Laura sabe sobre o "anjo"? -contei a ela e a partir deste momento ela sugeriu veementemente que eu me encontrasse com você. -ela explicou os motivos? -não. Aurora enrubesceu no momento em que os dedos de Carla passaram a contornar seus lábios, entretanto não se armou de coragem para impedi-la de continuar sua exploração. Estava totalmente atordoada com o relato da jovem violinista e a conclusão surgiu claramente: elas conheciam o anjo da morte e de alguma forma, em suas meditações e viagens astrais, Aurora encontrara a emanação da personalidade de Carla no jardim, aos pés de Asrael. -Esteve no "jardim astral" ontem? -sim e "senti" sua presença ali. - confirmou Carla. -como poderia ter certeza que era "minha presença"? -a certeza apenas quando você confirmou. -no entanto a revelação foi assim tão assustadora a ponto de desencadear uma crise de "Pânico"? Carla retirou as mãos da face de Aurora e fechou-se. Aparentemente, todo progresso para vencer a barreira erguida entre elas, retrocedeu ao marco inicial. A escultora avaliou a atitude arredia e misteriosa de sua companheira e temeu que mais um passo incauto e a teria em fuga. -não quero que fuja novamente de mim, Carla! - verbalizou o que sentia com voz baixa, arrependida tardiamente de revelar a causa de sua súbita ansiedade e medo. A violinista tornou a sorrir de forma amarga. -mesmo se esta fosse minha vontade, eu não poderia mais retroagir. Não depois de reconhecer e aceitar meu destino. -e onde esta seu destino? -estive
tocando-lhe a face, momentos antes. Otavio apareceu agitado e estacou ao ver a palidez de sua jovem patroa. Aurora por sua vez, sentiu-se aliviada com o aparecimento do rapaz. -o desjejum esta posto, Madame Mei. - anunciou ele embaraçado. O sorriso de Aurora o acalmou e ele saiu. -Madame Mei? -um apelido. Meu pai gostava de me chamar assim. -sobrenome de familia? -sim,
da parte de minha mãe. Fui batizada Aurora Mei Santa Ana. Vamos
ao desjejum? - convidou suavemente desejosa em adquirir um pouco de
tempo para pensar. Estava inebriada por te-la próximo de si e aos seus cuidados, seguindo-a docilmente. Uma mudança importante de comportamento. Depois do desjejum silencioso, sentadas no estúdio, Aurora percebeu a fadiga no rosto de sua companheira e sugeriu que poderiam dormir algumas horas antes de retomarem a conversa interrompida. Novamente
surpreendeu-se ante a atitude silenciosa e condescendente de sua aluna
selvagem. Deitada
no lusco fusco de seu quarto, Aurora refletiu um pouco antes de ser
tomada pelo sono intenso. Despertou
abruptamente. Um sonho recorrente que a acometera na infância
e boa parte da adolescência reaparecera. O sonho de uma tempestade
em alto mar , vagas que a esmagavam e o mergulho desesperado na profundidade
azul. Isso de certa forma explicava sua talassofobia, o medo fóbico
do mar. Era estranha sua reação furiosa quando amigas
da infância e depois, namorados a convidavam para passeios no
litoral ou a beira-mar. Os pais, concluíram logo que melhor seria
não a forçar a nada. Levantou-se nua e envolveu-se no seu roupão de seda favorito. Algo a empurrava para o corredor e em direção ao quarto de hospedes onde Carla estava instalada. Bateu na porta suavemente, mas não ouviu resposta. Esperou e assustou ao detectar algo parecido com o som de um gemido pungente. Entrou porta adentro com o coração opresso, principalmente ao avistar Carla se debatendo na cama. -calma, eu estou aqui agora. Tudo esta bem. - confortou-a quando sentou na cama e envolveu-lhe o corpo em um abraçou forte. Foi preciso usar toda sua força para conter o corpo jovem de estrutura esguia, porem sólida que tremia intensamente a o ponto de parecer que poderia partir-se a qualquer momento. Algum alivio percorreu o corpo de Aurora ao perceber que desta vez não estava diante de outra crise de pânico e que suas palavras brandas e as caricias feitas nos cabelos macios e empapados de suor de Carla a estavam acalmando lentamente. -um pesadelo? - Aurora perguntou no momento em que aninhou a cabeça de Carla em seu colo. Ela meneou a face afirmativamente e suspirou aliviada enquanto aos poucos abrandava e enlaçava a cintura de sua companheira fortemente. Lagrimas cálidas umedeceram a seda do roupão de Aurora . -não consegue dormir? - Ha pouco sim, ate que, sonhei... - Carla sussurrou. - Uma massagem a ajudara a relaxar. Enquanto isso, se quiser, poderemos conversar. Carla afastou relutante o rosto do colo de Aurora. -não há motivo para que seja gentil comigo. Eu destruí o "alma da terra" e tornei sua rotina um caos. -Laura estava certa. Você fez sair da tristeza e mergulhar em intensas emoções. - riu Aurora, enquanto tentava em vão desvencilhar-se dos braços de Carla. -imagino que a ira seja uma emoção intensa. - concluiu a violinista quando finalmente permitiu que Aurora se afastasse da cama. No rosto, um ricto de amargura. -a ira é de longe melhor do que depressão e sentimentos auto-destrutivos. Reconheço que quase perdi o controle quando você transformou o "Alma da Terra" em inúmeros pedaços de cerâmica. Contudo, serviu a lição. Se eu desejasse me recuperar, teria que reconstruir minha vida sob outra base, com parâmetros diferentes. Minha deformidade é permanente. O "Alma da Terra" representou uma fase doce encerrada de meu passado recente e que não a reaverei mais. Não poderia me abalar tanto com mais esta perda, apenas lamentar. Antes, o rápido desaparecimento dos meus avos paternos e de meus pais realmente significaram uma perda importante. De qualquer forma, estou grata. Aurora caminhou para apanhar o óleo e alguns cremes que estavam dispostos em um móvel próximo. -grata? -sim. Estou grata porque meus pais e avos não viveram o suficiente para saber o que fizeram com sua adorada "Madame Mei " ou "pequeno Nenúfar". Carla sentou-se abruptamente na cama. Os olhos claros que procuravam a voz de sua companheira, destilando compreensão e ternura intensa. Não havia ali qualquer indicio de comiseração o que representou muito para a escultora. Por alguma razão, ainda desconhecida, ela desejou acercar-se do coração de Carla, mas não pelo sentimento de piedade ou a compreensão sobre sua intensa solidão. Pediu suavemente que a violinista se deitasse de bruços e ouviu-a suspirar brevemente quando acomodou-se sobre a parte traseira de sua pélvis e iniciou a massagear-lhe pelos ombros tensos. Aos poucos afastava-lhe o roupão de seda das áreas que pretendia trabalhar. Uma vertigem inebriante abateu-se nela ao deslizar as mãos experientes sobre as costas e a lateral próxima aos seios de sua companheira silenciosa. Já fizera inúmeras massagens antes. Interessava-se pela acupuntura e massagem oriental a ponto de freqüentar alguns cursos. Depois, praticara em algumas amigas e nos namorados, sempre com sucesso, pois possuía mãos fortes e habilidosas. Eduardo afirmava que suas massagens eram especiais. A verdade era que desta vez, o corpo de Aurora estava se comportando de forma diversa ao esperado e uma tensão palpitante iniciou-se no centro nervoso poderoso, instalado entre suas pernas. Tentou debalde direcionar sua mente a se concentrar no músculo, tendão ou nervo que trabalhava com as mãos, mas esta se perdia na textura da pele acetinada, o calor, as formas sensuais que fremiam ao seu toque. Interrompeu a massagem e tentou se afastar, mas Carla não estava disposta a permitir. -por favor, fique. Ha pouco estava conseguindo relaxar o suficiente para conciliar o sono. - pediu, prendendo-a pelo pulso. Ela virou-se na cama e retirou completamente o roupão, mantendo-se apenas com a pequena roupa intima que lhe cobria o monte de Vênus harmonioso e macio e de onde escapavam alguns fios de pelos aloirados. -toque-me, Aurora! Eu ainda me sinto muito tensa. - ronronou sensualmente. A perplexa escultora lambeu os lábios secos e iniciou a coordenar os pensamentos desordenados que a assolavam. Algo lhe gritava que iniciara a percorrer um terreno perigoso e desconhecido. A visão dos seios nus e hirtos de Carla alem da umidade visível que lhe umedecera a roupa intima eram indícios cabais de que a massagem agira de forma diversa a que pretendera. Moveu-se ágil, afastando-se do corpo semi-nu com uma ânsia e medo desmesurada. -me desculpe. Eu não devia... -Aurora , você prometeu! - a voz de Carla soava tremula com um timbre desesperado. Havia pungente medo em seus olhos. -eu prometi? - a escultora conseguiu balbuciar, momentaneamente paralisada pela expressão de dor que se formara no rosto incrivelmente belo da violinista. -Prometeu guardar seu amor para mim, para sempre! Prometeu que voltaria e eu a esperei tanto tempo. Eu a esperei e procurei por tantas gerações. Você não me reconhece? Em um gesto forte, Carla lhe enlaçou o rosto com as mãos e puxou-a para si, unindo seus lábios densos e macios em um beijo apaixonado, urgente. O calor forte que as invadiu deflagrou uma centena de sensações luxuriosas, intensas em seus corpos e Aurora sentiu-se desfalecer enquanto seus lábios correspondiam ao beijo com sofreguidão, tesão crescente. O cheiro acre-almiscarado de seus sexos palpitantes invadiu o ambiente. Tateando
a esmo como se estivesse imersa em um black-out, Aurora livrou-se do
corpo de Carla e escapou porta afora. |