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"GUARDE SEU AMOR PARA MIM.
PARA SEMPRE".

O sangue afluiu forte para a face de Aurora. Sentia como se de fato tivesse sido atingida no rosto.

Carla lhe soletrara todas as palavras do "anjo", no momento em que se preparava para sair antes da tempestade que estava se formando. Seu digladiar tolo com a violinista terminou quando abateu-se sobre ela a revelação de que alguém, um intruso também participara do sua experiência astral vivenciada naquela manha, no "jardim".

- NADA MAIS ALÉM DO SENTIR. NADA ALÉM DO AMOR". - repetiu Carla.

Aturdida, Aurora reagiu instintiva e agressivamente, qual um animal ferido e encurralado. Sentia-se traída em seus mais absoluto segredo. O segredo de seu coração. Por um breve momento, desejou agredir fisicamente a jovem cega que lhe apertara as feridas da alma com tanta frieza e crueldade.

Não teve tempo. A violinista mal terminou de articular as palavras e desabou. Por sorte, Martino já estava próximo o suficiente para ampara-la.

O desmaio dela e as convulsões que se seguiram, fizeram com que a ira de Aurora desvanecesse instantaneamente. Pela primeira vez presenciava um ataque de Pânico e este não estava molestando seu corpo e sim o de Carla.

Martino, presto, deitou-a no chão do varandado, cercando o corpo agonizante com as almofadas dos moveis próximos.

Otavio, aparvalhado, correu para seu refugio na cozinha, aspergindo limonada no corredor, enquanto um ou outro croissant fugia-lhe. Voltou com uma colher.

Nos próximos e cruciais minutos, Aurora viu-se ajoelhada aconchegando a cabeça de Carla no colo, depois de utilizar a colher para lhe forçar o maxilar e certificar-se que não estava se sufocando com a própria língua.

Martino auxiliou-a com o primeiro-socorro e agora segurava a mão de Carla enquanto rezava em silencio.

Acariciando os cabelos claros e macios que estavam colados na fronte febril de Carla, Aurora sussurrou-lhe ao ouvido tantas palavras, com ternura e sentimentos indizíveis.
Era como se outra pessoa falasse em seu lugar, utilizando seus lábios, voz. Porque quem sussurrava, certamente amava aquela mulher em agonia.

O monologo sussurrado durou pouco.

De alguma forma, o corpo de Carla parou de agitar-se e ela abriu os olhos e os prendeu nos de Aurora, como se pudesse vê-la.

Depois, serenou e abandonou-se na paz libertadora do sono.Martino acercou-se e tomou Carla nos braços. O olhar aflito agora transbordando alivio e agradecimento.

__venha comigo. - pediu Aurora enquanto o conduzia para o quarto de hospedes.

Instalaram Carla na macia cama.

Otavio reapareceu. Agora com um pijama feminino, lençóis e fronhas em um braço e um copo misterioso de suco de maracujá na mão direita. Certamente enfrentara o pomar em meio ao "breu".

Martino sorriu enquanto retirava o calçado de Carla e acomodou-a de lado, entre travesseiros.

__ajudará a respirar melhor. - explicou.-__ela nunca mais havia tido uma crise. Não depois que perdeu a visão.
Ele ainda estava atordoado.

__Preciso avisar Dona Laura.

__Faça isso. O telefone fica no fim do corredor.- concordou Aurora.

__a senhora conseguiu acalma-la. Quando esta em crise, dona Carla debate-se incontrolavelmente por longos minutos. É difícil controla-la e evitar que se machuque.

__ela se debate porque se sente sufocando. É torturada por uma mente que acredita estar morrendo.

O rapaz a olhou, inquisitivo. Aurora explicou.

__Eu a compreendo porque também padeço deste mal. Por isso, eu e Carla temos Laura em comum. Vá fazer a ligação enquanto eu a visto com o pijama. Acredite. Agora ela esta bem. Martino acompanhou Otavio para o interior da casa, encostando a porta do quarto ao saírem.

__Aurora?

Carla balbuciou quando delicadamente Aurora lhe retirava o moletom.

__sim. - respondeu ao perceber que a jovem despertara do seu torpor, ainda atordoada e movia o corpo na cama com dificuldade para auxilia-la com as roupas.

__Aurora !. - repetiu Carla com a voz embargada.

__Tenha calma. A crise já passou. Vou fazer uma breve prece e depois...Você adormecerá lenta e calmamente. - sugestionou-a, seguindo a estratégia que Laura utilizava em suas sessões de relaxamento. __Não tenha medo. Eu estou aqui ao seu lado. Não a abandonarei.

As mãos da jovem fecharam-se com ânsia nas de Aurora.

__É uma promessa? Não me abandonará - pausa - outra vez? - balbuciou com dificuldade.

__não. - Aurora respondeu intrigada. Naquele instante afirmaria qualquer coisa para Carla, contanto que isso lhe aplacasse o sofrimento.Os olhos cristalinos de Carla despejaram filetes de copiosas lágrimas. Havia em seu olhar uma expressão de criança perdida. (certamente. Na torre da grande fortaleza, havia uma criança).

Fechou-os e tornou a adormecer.

Horas depois, Laura aportou na chácara. O rosto alvo, afogueado pela ansiedade e preocupação.
Quando avistou Carla repousando, sentou-se ao lado do leito e acariciou-lhe a fronte com amor.

__Minha menina. Minha pobre menina. O que aconteceu?

Aurora descreveu o ocorrido. Revelou também sobre o que conversara com o "ente" no jardim e o que Carla lhe dissera minutos antes de sucumbir ao surto da Síndrome do Pânico.

Sentia-se inexplicavelmente culpada, como se o que algo que dissera para a jovem violinista, de alguma forma tivesse deflagrado a crise.

Laura permaneceu ao lado de Carla escutando em silencio.

__você não tem culpa. Ninguém tem culpa. Sorriu. __Finalmente está ouvindo a sua voz interior, Aurora. Finalmente está encontrando o caminho. O que sentiu depois que ele lhe respondeu as indagações ?

__paz

__E ainda teme a morte?

Aurora não havia tomado consciência de sua nova condição. Depois que Asrael lhe falara, a morte deixou de ser uma expectativa aterradora, torturante. Passara apenas a representar a ausência da vida, como a escuridão é a ausência da luz. Um estagio.

__ainda resiste a idéia de deixar de viver um dia ? - insistiu Laura.

__não. Algo mudou dentro de mim. Eu aceitei a morte como algo inerente a vida. - constatou surpresa.

__Então esteja certa. Você se libertou da síndrome do Pânico.


Laura deixou a chácara pouco depois das 21 horas, levando Carla consigo.

Aurora sentiu vontade de gritar, correr pelo pomar ou na macia mata circundante, mas só o que conseguiu foi chorar continuamente. Otavio era a imagem da desolação.

__Dona Aurora, por favor. Se continuar a chorar, sou eu quem vou ter um colapso.

__acalme-se. Eu estou chorando de alivio. Vai para seu chalé e me deixe sozinha. Eu vou ficar bem.

O chalé onde Otavio morava era após o pomar, cerca de cem metros da casa principal.

Ambos decidiram pela privacidade, principalmente após o longo relacionamento de Aurora com Eduardo Meirelles.

Durara quase seis anos. Eduardo e Otavio se entendiam bem, mas quando se tratava de disputar a atenção de Aurora, era necessário separa-los em ambientes diferentes qual dois felinos ciumentos. Por esta razão, Otavio mudara-se definitivamente para o chalé que fora o refugio do pai de Aurora, engenheiro civil que tinha por hobby, construir enorme e engenhosos relógios.

O local ainda era uma espécie de refugio de relógios de varias formas e tamanhos, todos soando a meia-hora ou hora inteira. Otavio gostava de dar corda nas engrenagens. Fazia-o com amor e religiosamente. Mesmo depois do rompimento da relação entre Eduardo e a patroa, Otavio permanecera no chalé. De dia, migrava para a casa principal para cuidar da patroa e de seus afazeres de aspirante a mordomo, como se intitulava.

Em sua cama, Aurora não conseguia conciliar o sono. As imagens enlouquecidas do que ocorrera ali, saltavam diante dos olhos, ciciando-lhe no ouvido palavras desconexas quais ninfas embriagadas saltitando, alçando vôo na tempestade.

Um trovão a fez fugir do quarto em direção a copa. Verteu goles fartos de água fresca, deliciando-se quando o liquido acariciava sua garganta ressequida.-O sentimento pleno que desfrutara quando acreditara nas palavras de Laura ao afirmar que estaria livre da Síndrome, cambiara novamente para outro: o de que havia algo misterioso, ameaçador, entre si e Carla Torres. Algo que precisava ser desvendado e solucionado e parte da resposta, certamente a violonista a possuía.

Rememorou repetidas vezes o incidente no varandado. Carla declarara literalmente o que o ente do jardim lhe segredara em seu encontro na tarde. - NADA ALÉM DO SENTIR. NADA ALÉM DO AMOR.
Por uma fração daquele momento a escultora avaliara se havia revelado seu segredo a mais alguém.

Não. Ela não tivera nem a oportunidade de encontrar Laura e lhe contar sobre a experiência fantástica.

Faria apenas na próxima consulta. Isso se ela, Laura, a permitisse relatar.

Estranhamente a terapeuta fechou-se reticente ante o desejo de sua orientada em lhe revelar detalhes de suas recentes experiências sensoriais.Não havia explicação plausível fora do campo da metafísica para o "jardim".
Constava agora que Carla também freqüentava a dimensão alem da longa escada de mármore e a sombra difusa que Aurora sempre divisava ao lado de Asrael era a emanação do eu da jovem cega.

Nunca estiveram a sós. Ela e o "anjo". -não, isso não é uma explicação. Não pode haver explicação para isso! - lutou Aurora consigo, vertendo outro copo de água.A voz lenta e confortadora de Laura reapareceu-lhe ao ouvido para segredar: - Vê a pequena libélula debatendo-se contra o vidro cristalino? Ela não consegue atravessar e ganhar o azul e verde amplo que avista logo à frente. Não entende o que a limita, não compreende porque a lei exata que sempre a ensinou a voar pelo cristalino do ar e grandeza da dimensão onde nasceu, agora, por motivos insondáveis - para ela- esta inacessível.

Ah, mas se este inseto desenvolver um pouquinho de fé ? Ele há de pensar: O grande deus dos insetos (decerto uma libélula imensa da qual acredita ser a imagem e semelhança, ou mesmo, para eles os insetos, nós humanos), não quer que me aventure por aquele caminho. Esta acompanhando, Aurora?- E talvez nós, todo-poderosos para os insetos, abramos a janela e o deixemos sair. Então, teremos uma libélula acreditando que sofreu uma experiência transcendental...um milagre...A voz de Laura misturou-se no murmurar feroz da mente de Aurora.

Ela agora atinava plenamente a espécie de fabula que a sua amada orientadora lhe contara em certa tarde especial no verão passado.

Compreendeu que por não possuir "alcance" mental, percepção, ou ser dotado para entender o que nunca presencia, nós não poderemos nos aventurar a compreender o tempo, a natureza de um criador -que não é criatura - a vida e a morte. A verdade absoluta não está ao alcance. Para nos traduzir o insondável, somente a fé. Depois da revelação, retornou ao leito sentindo-se imensamente bem. A angustia desaparecera.

Finalmente adormeceu. Acordou com o telefone soando insistente.

__precisamos conversar. Fui cruel com você. Ataquei-a com o segredo sobre "Asrael" pois estava furiosa. Agi de forma infantil e leviana. Sentia-me sem saída.

A voz de Carla reboou onírica, improvável, no interior da mente de Aurora.

__quer conversar?

__preciso. Ainda hoje, de outro modo não poderei repousar.

__Laura sabe que esta me ligando?

__Sim.

O timbre de voz dela, agora diferente, traduzia urgência e ansiedade.

Aurora afastou o lençol do corpo e sentou-se na cama.

__Venha agora se puder. - pediu sem acreditar no que sua voz articulava.

__É muito cedo. Talvez o sol ainda não tenha nascido para "vocês", seres da luz plena.

Aurora consultou o relógio. Duas horas da madrugada.

Perdera a noção do tempo. Alias, Carla também, pois ligara em um horário "sinistro" para quem esta em casa repousando. Aquele horário em que tememos atender ao telefone e ouvir a noticia de morte de um ente querido ou um outro evento ruim.
O avô costumava dizer que o "anjo da morte" é mais ativo entre as duas e três horas da madruga. Ele faleceu às duas horas e cinco minutos, seis anos atrás.

__está silenciosa. - voz grave dela instou.

__é que me ocorreu agora tanta coisa tola na cabeça. Acho que não despertei completamente.

__Não consigo conciliar o sono. -revelou a violinista.

Ficaram silenciosas por alguns instantes.

__Venha. Estarei esperando. - insistiu Aurora.

Carla pareceu indecisa do outro lado da linha.

__venha antes do nascer do sol e eu o descreverei para você. É uma promessa.

__Outra promessa? - Carla riu suavemente.__Está bem. Irei "ouvir a Aurora". - decidiu-se, jogando com as palavras.- Dizem que dependendo da sintonia, podemos ouvir estrelas?

Desligaram.

Aurora correu para um banho rápido.

Completamente desperta, vestiu roupa intima e cobriu-se com o confortável roupão de seda negro artisticamente bordado com fios dourados. Fôra presenteado por sua avó chinesa. Não sabia porque, mas decidira-se coloca-lo naquele momento. Também desconhecia a razão de suas atitudes e decisões mas não se importava mais. Deixaria sua intuição a guiar.

Saiu para a sacada de seu quarto no segundo piso e sentou-se perscrutando a estrada da serra, na ilusão de avistar o veiculo que conduziria, talvez, as respostas de que necessitava. Não deveriam demorar muito. Uma hora e alguns minutos mais. Estiara e o carro dirigido por Martino podia vencer cuidadosamente os 80 km de estrada de terra sinuosa que as separava neste período.

Sabia que Laura a mantivera consigo na pequena propriedade rural onde residia. A tempestade tornara a descida da serra ate a cidade grande no dia anterior, uma aventura arriscada.

Desceu para preparar o desjejum. Não podia enfrentar Carla com o estômago vazio e desejava oferecer aos visitantes um bom café no alto da serra.

"EU PROMETO".

A porta do veiculo abriu-se abrupta, com o carro ainda em movimento. O "leitmotif" escapou do interior, chegando ate Aurora em frases fragmentadas. "Save Your Love..., I promisse, I promisse ...
"

Desta vez, a musica irritante traduziu-se no que realmente era: apenas uma canção de amor.

Carla apareceu e sem esperar o auxilio de Martino, adiantou-se rápida pelo trecho curto entre o automóvel estacionado e o varandado. Certamente a tênue luz do luar não lhe dificultava os passos ate que estacou e chamou.

__Aurora?

A Escultora que já aguardava na varanda estava petrificada. A nova imagem de Carla, recortada pelo cenário cinza azulado ao fundo lhe remetia a lembranças que não reconhecia como suas. A jovem agora com os cabelos soltos, formando um véu harmonioso da fronte ate os ombros, vestia-se com uma simples camiseta sem mangas e jeans desbotado o que não lhe ocultava mais o corpo longo e deliciosamente sensual.

Carla agora, mesmo vestida com simplicidade, se permitia revelar todo o esplendor de sua beleza. As fotos nos jornais estavam longe de fazer-lhe justiça.

A constatação de que antes, a arredia aluna andara se ocultando deliberadamente, aumentou o desconforto de Aurora.A musica ponteou... "I promisse..." e Carla , ainda parada diante da varanda estendeu a mão em direção a estarrecida mestre.

__você prometeu!

Aurora livrou-se de sua catatonia e adiantou-se, apanhando-lhe o braço para ajuda-la a subir o degrau do varandado.

__o que eu prometi ? - perguntou baixinho, quase gaguejando.

O sorriso tímido de Carla abriu-se, exalando seu hálito suave no momento em que voltou o rosto para Aurora. Estavam muito próximas agora.

-prometeu descrever a "Aurora".

 

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