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(PARTE 2) - AURORA

NADA MAIS, ALÉM DO SENTIR

Confortável em seu diáfano roupão de algodão, reclinou-se no móvel macio e mergulhou nos pensamentos e na música ambiente.
Três semanas passaram-se após o incidente do "Si-sustenido-três oitavado-em- falsete" de Otavio. Três semanas também sem que a arredia aluna reaparecesse, entretanto a mestra parecia não se importar. Neste período, Laura a fizera aprender ou mesmo entender algo mais sobre seu eu interior e isso era suficiente para lhe ocupar os pensamentos e estimular os sentidos.

_Se somos imortais, qual a finalidade da morte?

_não posso lhe responder a isso, pois estaria submetendo-a as minhas verdades. Pergunte àquele que está no jardim.

A terapeuta referia-se claramente ao ente que Aurora, em suas meditações, encontrara em um jardim além da longa escadaria. Muito acima destes céus.

-Quem é este ente? - insistiu.

Laura sorriu paciente.
-pergunte a ele quando o reencontrar.

- e ele poderá responder às minhas indagações?

-talvez.

A terapia regressiva naquele mês assomara um rumo totalmente novo e abruptamente a terapeuta as interrompera, aconselhando Aurora a se dedicar a sós ao estudo e prática de "meditação".

Estimulada pelas sutis, porém importantes melhoras, ela leu e pesquisou exaustivamente sobre o assunto e concluiu que a experiência que vivenciava não se assemelhava às de outras pessoas submetidas a hipnose ou regressão.Otávio espichou o pescoço, mantendo o corpo oculto portal adentro.

-patrô! Más notícias... A "tempestade de Granizo" está se aproximando rapidamente...

-o quê? - Piscou repetidamente para livrar-se dos seus íntimos solilóquios.

-preciso guardar os objetos perecíveis ? - sorriu ele, timidamente.

Aurora compreendeu que talvez Martino, o motorista da "tempestade de granizo" ligara avisando que já se encontravam próximos da propriedade.Levantou-se preguiçosamente e instalou-se na rede da varanda enquanto acompanhava com os olhos, sem muito interesse, o rapaz guardar todo objeto de ornamentação da oficina e passar a arranjar a mesa, argila e instrumentos de modelagem.

O ronco abafado do motor a fez redirecionar o foco de sua atenção para o automóvel de pára-choque e calotas cromadas que atravessava os pórticos guarnecidos pelo portão eletrônico e subia cuidadosamente a sinuosa aléia formada de Pinnus Eliots.

-vai ficar na porta esperando o "Aluvião de Saias"?

-é preciso encarar o "problema" de frente e hoje estou preparada. Tenho um plano.

-um plano para enfrentar a "Cria de Yansã"?

-Sim. Um plano simples, mas que pode funcionar.
Sorriu satisfeita consigo mesma.

-Além do mais, acabo de emergir de minha meditação e ter uma visão maravilhosa. Estou sentindo uma força interior e paz como há muito tempo não experimentava.

-é assim tão especial esta experiência mística?

-quase religiosa. Uma forma de ver e vivenciar uma prece e hoje, "ele" respondeu à minha pergunta.

-"ele" quem? Que pergunta? A patroinha querida está ouvindo conselhos do além?

A voz de Otavio afinava-se demonstrando claramente que estava ficando nervoso. Naquele ano, presenciara impotente, dois ataques de pânico de Aurora e por mais que ela lhe explicasse que não havia nada errado com seus sistema neurológico, intimamente o rapaz temia um dia encontra-la louca, rolando ladeira abaixo, nua e coberta de argila.

- fique calmo.Não estou tendo alucinação auditiva. Está tudo sob controle agora.

Sua vontade genuína era poder dispor daquele fim de dia para empreender profunda e acurada reflexão sobre sua experiência astral, entretanto, Carla reaparecera e com ela, o momento apropriado para colocar em prática o plano que arquitetara astuciosamente por dias. Antes precisava surpreende-la e para isso inteirara-se de pormenores dos vinte e três anos da vida de sua aluna rebelde.

Filha de família tradicional, Violinista talentosa, vários prêmios e muitas turnês ao exterior.
Pai, industrial Norueguês e mãe, conhecida socialite brasileira.
Uma vida aparentemente linear e tranqüila até que a jovem "viking", bela e exuberante sofrera misteriosa queda do 4o andar de seu edifício. Teria tentado suicídio ou sofrido um acidente?. Despencou sobre um pé se "sete-copas" que miraculosamente a livrara da morte, mas lhe causara concussão cerebral.
O caso foi abafado e depois de três meses em coma a jovem despertara para enfrentar a nova e dolorosa realidade de fisioterapia e densa escuridão.
Depois, fechou-se em um ostracismo crônico, afastou-se conseqüentemente de seu cotidiano, da sociedade e da orquestra.

-como eu, ela também conhece a fundo a solidão e o medo. - ponderou.

Martino abriu cuidadosamente a porta do veículo.
Ao avistar o reaparecimento de Carla, Aurora sentiu o pulso acelerar.
O cabelo louro trigueiro, preso, flutuou formando ondas sinuosas no ar a cada passada firme e fluída da bela jovem.

O instante evoluiu em um slow-motion mágico.
Flash-backs em borbulhantes imagens apagaram a paisagem atrás de Carla, transformando-se na visão fugaz de um cais onde ela acenava um adeus, o sol poente a lhe acender as mechas douradas, incandescendo-lhe o rosto.

-Patrôinha! Libera a frente ou ela lhe acerta as costelas com o "vil metal"... - murmurou Otávio, agarrando-lhe o braço.

Ao passar por Aurora, Carla estacou o passo e contraiu as narinas. Já lhe percebera a presença.
Vestia-se da forma costumeira. Talvez demorasse longos minutos no seu quarto de vestir escolhendo a melhor indumentária para se tornar horrorosa e partir para o cerimonial de "quebra-vasos" no ateliê da "Abominável Criatura do Lodo".
Debalde se esforçara, pois aos olhos da experimentada artista plástica não havia como tentar ocultar artificiosamente as linhas da "graça e da beleza" e sensualidade felina sob o largo moletom escuro.

-fique a vontade enquanto Otávio providencia algo refrescante para beber.
Carla, sem articular palavra voltou a caminhar em direção à entrada do estúdio e Martino apressou-se a conduzi-la.

-Quem vê a "abominação da Desolação" entrando porta adentro com seu bastão de metal, nem imagina a "musa de Stradivarius" oculta naquela casca. - comentou o quase-mordomo, ainda grudado no braço de sua patroa qual filhote de Coala.

-feche a matraca e a casa. Apareça só se eu o chamar e providencie dois copos de suco de maracujá.

-e se o telefone tocar?

-atenda e não ouse interromper minha aula sem que eu assim determine.

-mas se for o "OBSESSOR"?.

-Diga que sabemos quem ele é e que a polícia já foi acionada. Enfim, mande que se dane.

Otavio arregalou os olhos, assustado. Sua patroa sempre fora a personificação da doçura e resignação. Aquela tarde, entretanto parecia transfigurada.Tratou de escapulir cozinha adentro arrastando Martino consigo.
No estúdio, Carla já se acomodara na Berger.

-não ouvi o Leitmotif. - exclamou calmamente a mestra. (Primeiro Round).

O esgar dos lábios da recém chegada mostrou que compreendia a ironia. As mãos vibravam de forma quase imperceptível, denotando a tempestade interna oculta atrás dos olhos sem luz. Franziu o cenho enquanto o som vibrante do "Fantasma da Ópera" fluía do aparelho eletrônico.

-se a música a estiver incomodando, posso desligar. - ofereceu-se prestativa.

-não será necessário. Aprecio a obra e o tema. - sorriu mordaz - Seu "leitmotif" é bem apropriado.

Só então Aurora compreendeu o significado: A composição erudita narrava a história de uma criatura que utilizava-se de meia-máscara para lhe ocultar a face horrendamente desfigurada e escondia-se nos subterrâneos do "Ópera de Paris", aterrorizando pessoas com suas aparições fantasmagóricas.
(Soa o gongo. Primeiro round perdido.)
Anotou mentalmente que depois que tudo terminasse, deveria "esganar Otavio lentamente" ao som da "Carmina Burana".

-Então, agora que o Leitmotif está tocando e as cortinas abriram-se, iniciemos o primeiro Ato. - recompôs-se Aurora, adiantando-se para apanhar-lhe a mão e conduzi-la até o rotor.

Carla estremeceu ao toque, recuando dois passos e abalroou o abajur que espatifou estridente. Voltou a sentar-se.
Otávio anunciou atrás da porta cerrada:

- Não tem maracujá para o suco, Patrô!
Estava claro que espreitava.

Risada curta e divertida escapuliu dos lábios da mestre.
-Tente duas laranjas!

Tornou a concentrar-se na soturna aluna que permanecia silenciosa e estática no lusco-fusco do ateliê.
O segundo passo, articulado às pressas, seria atacar de surpresa e romper a muralha que aquela jovem arredia erguera em torno de si. Haveria de encontrar uma forma.

-esta semana cogitei se você, quando viesse, poderia afinar um velho violino. Hoje é um instrumento sem serventia, mas que pertenceu a alguém a quem amo muito. (o aríete posicionou-se diante do portão da fortaleza. Das seteiras, esvoaçavam setas inúmeras em sua mortal trajetória em elipse).

Cruzando as elegantes pernas em nova posição, Carla não demonstrou interesse pelo simples pedido. (o inimigo reorganiza-se para fazer frente à tropa que neste momento estende a longa escada objetivando galgar as muralhas).

-Não vim participar da sua aula. Estou aqui por um simples motivo. Quero fazer o acerto de contas. Minha vocação não está adormecida na argila! - a voz de Carla lhe escapava seca, quase rude. ( óleo fervente é derramado sobre os pretensos invasores, derrubando-os no justo momento em que se aproximavam das ameias).

-não imaginava que viesses aqui por algum motivo específico além o de espatifar meus vasos com seu adorável bastão. Entretanto tenho em mente uma proposta melhor. Afine o instrumento e poderá ir embora sem qualquer ônus.
(porque será que não a deixo simplesmente partir?. Ah, Laura e seus mistérios, sempre insistindo para que desvendasse Carla. Não poderia haver qualquer sentido nisso . Aquela rapariga pretensiosa e arrogante minava-lhe paulatinamente a energia e paciência).
Esperou. (os grandes portões resistiam bravamente à força do aríete percutido por dúzia de braços vigorosos.)

A jovem moveu o corpo esguio na Berger postando-se em posição alerta. Parecia preste a soçobrar a um terrível conflito interno. A franja longa e lisa insistia em escapar-lhe defronte os olhos, ao que ela as prendia atrás das orelhas em um gesto nervoso.
(Algo novo acontecendo no interior da fortaleza?).

- o violino. - pediu finalmente aparentando enfado, estendendo a mão. (Dedos longos, vibrantes de personalidade)

Aurora entregou o instrumento, temerosa de que aquela criatura instável e surpreendente aniquilasse a doce herança que o avô lhe deixara.

Surpreendeu-se.
Em alguns movimentos, ela apertou as cravelhas, tangendo docemente as cordas. (soçobrou ou estaria lhe acenando com um armistício?).

-se precisar do diapasão... Devo ter um guardado em algum lugar...- ofereceu.

Carla tocou as linhas elegantes do violino acariciando-lhe os " efes " recortados na madeira como se lhe testasse a acústica e o fino acabamento. Os lábios permaneciam apertados e contidos.

-Não preciso. já ouviu falar em "ouvido absoluto"?

A mestre lera alguma coisa a respeito, mas resolveu estimula-la a falar. (talvez no interior da torre da grande fortaleza apenas habitasse uma menina. Riu em seu interior ao vislumbrar a estreita abertura por onde pretendia penetrar ).

-Li alguma coisa em um fórum de músicos. Parece ser um dom raro - confirmou com simplicidade. Sentiu que sua admiração pelo talento de Carla expandia.

-sim. O maestro afirma que é dom inato. Com o "lá fundamental" na memória, afina-se qualquer instrumento sem recorrer ao diapasão. Sabe que já toquei na Sinfônica do Teatro Estadual?

Falava pausadamente, a voz escapando pela garganta com dificuldade. Os dedos moviam-se no ar, formando volutas invisíveis.

-Spalla! (sim, ela sabia).

-não. Atuei como Spalla apenas em um concerto. Nosso admirável "Sebastian" fraturara a clavícula. As revistas fantasiam e maquiam as informações. Querem publicar matérias sensacionalistas transformando instrumentistas talentosos em "jovens virtuoses fantásticos". Para se tornar "spalla" é preciso bem mais.Contentava-me em estara entre os "primeiro violino".

-mas ainda não deixa de ser extraordinário o dom de afinar um instrumento sem o uso de um diapasão.

-nem tanto. Algumas publicações sérias afirmam que todo chinês possui "ouvido absoluto". Então podemos concluir que mais de 1 bilhão de indivíduos estão aptos, com algum treino, a afinar um instrumento sem diapasão.

(Impressionante a forma como ela contesta todas minhas afirmações, mesmo as elogiosas. Chegou o momento de sair da retranca e partir para o ataque).

-Tenho que confessar que já li algo a respeito em uma revista. - preambulou - Dependendo da entonação da voz, um chinês pode dizer "Chong" e a expressão significar : "papai ou, homem sentado ou cavalo morto". Tudo depende do timbre exato utilizado. Aí entra o maravilhoso "ouvido absoluto" que na verdade é praticado e desenvolvido por eles desde a mais tenra idade, quando se adquire a "fala".

Adiantou-se para apanhar o violino e ajeita-lo cuidadosamente no estojo.

-Costuma esboçar perguntas quando já conhece sobejamente a resposta?

-ah, sim. - suspirou - Um defeito meu que acaricio desde tenra idade. Gosto de estimular as pessoas a responderem perguntas as quais já conheço as respostas ou a maioria delas. Uma forma de manter o controle e testar a capacidade humana em tecer conjecturas a respeito de assuntos óbvios. Oh maravilhoso ser humano! Capaz de nos surpreender ou de nos desapontar!

-de quem é a citação?

-acabo de inventar.

-Patrô! Não tem laranja! - uivou Otávio no corredor.

-Vá ao pomar e as colha!

-com esse breu lá fora?

-Ok. Tente limão.

Ploc -ploc. Afastou-se novamente.
Distraída, Aurora procurava o interruptor para acender a luz . Se não haveria aula não havia motivo para manter o local parcamente iluminado pela luz do abajur remanescente.
Assustou-se ao sentir a mão da ex-aluna crispar em seu ombro. Voltou-se e a encarou. Calçada com tênis, parecia medir pelo menos dez centímetros ou mais do que Aurora. (Herança genética dos famosos Vikings.)

-espírito zombeteiro!

-isso é expressão bíblica!

A "Viking" retirou os óculos escuros e a expressão perigosa de seus olhos verdes era intimidante.
Instalou-se um pesado clima de "Alfred Hittcock" entre as duas.

-Qual a finalidade em defender a tese do "ouvido absoluto" nos chineses? - perguntou ameaçadora.- demonstrar que com seus trinta anos aprendeu mais sobre as pessoas ou está tentando me impressionar?

(segunda opção. Na mosca!)

-Nem uma nem outra finalidade. Além de que...por outro lado, acabo de concluir que preciso jogar meu "Aurélio" fora. Tem palavras demais. Um adolescente mediano é capaz de passar um mês ou mais, "virando-se" com três palavras chaves, tipo: Falô, Tá limpo ou sujou-broder!. Destas três, ele faz a multiplicação de significados com simples inflexão de voz.

-tem sempre uma resposta cretina para tudo?

-Quase sempre. Truque de tímidos. - moveu os ombros - Aliás, só para mera informação: na primavera passada completei vinte e oito anos. Está mal informada a meu respeito.
(Nocaute no terceiro round).

O relâmpago e trovão romperam o silêncio constrangedor que se instalara na sala e Aurora resolveu "cerrar as cortinas" .

-tenho um bom guarda-chuva. Vai precisar.

Carla fez ouvidos moucos e caminhou para o portal que dava acesso à varanda, quando então o vento úmido a fez estacar.

-o que vai fazer com o violino?- perguntou finalmente.

-praticar a "Fuga de Bach" para rivalizar com os agudos histéricos de Otávio.

-Qualquer "Fuga de Bach" é peça difícil para principiantes. Tente "Atirei o pau no gato".

-Não subestime meu talento com os dedos. Sou um gênio em estado bruto pronto para ser moldada por mãos habilidosas.

-e quem seria o professor com mãos tão miraculosas?

-A princípio estava pensando em você, mas, como parece estar ansiosa em abandonar nossa relação Terapêutica-ocupacional, devo me resignar a continuar amassando e moldando o barro.

Os lábios dela moveram-se em um ricto que parecia o embrião de um sorriso tímido.

-Está espirituosa hoje.

-Na verdade hoje é um dia especial.

Silêncio.

-Quem sabe, depois deste "dia especial", nos reencontremos...

-acho difícil. Raramente saio da chácara. Fobia social. O único lugar que ainda me forço a freqüentar é o consultório de sua tia.

-Entretanto; talvez; quem sabe; algum dia... nos reencontremos no "jardim". - completou Carla.

No varandado, Martino aparecera com uma ampla capa de chuva e aproximou-se para cobrir os ombros nus de sua patroa.

-jardim?

Passou a chover com mais intensidade e Otávio surgiu com uma bandeja e quatro copos de suco de limão com gelo, além de uma cestinha de vime onde estavam primorosamente arranjados, croissants dourados.

-Sim, o lugar onde Asrael repousa e você freqüenta procurando resposta para o paradoxo da vida e morte!

Aurora sentiu como se punhos potentes se abatessem em seu peito, roubando-lhe o fôlego.

-Não estamos tratando sobre o mesmo "ente". Você está tentando me confundir...

-Está eufórica porque ele lhe revelou que não deve ter medo da morte pois esta nada mais é do que o mero desprendimento de uma dimensão onde a matéria corrompe-se e renova-se em ciclos migrando para outro ciclo...

-pare!

-...E que a única herança que levamos desta matéria/dimensão é " NADA MAIS, ALÉM DO SENTIR. NADA ALÉM DO AMOR"...


****FIM DA SEGUNDA PARTE****


*(1) nota de rodapé:

UM DOM DE GÊNIO
"

Aqueles que identificam de ouvido qualquer nota musical provocam espanto até entre os músicos. Agora, esse poder misterioso - o "ouvido absoluto"- começa a ser decifrado nos seres humanos e nos pássaros canoros. E há cientistas que acham que ele é acessível a qualquer mortal.
Muito antes de ficar famoso pelas Bachianas Brasileiras e outras obras-primas da música erudita, Heitor Villa-Lobos já era um menino prodígio, violoncelista profissional aos 12 anos de idade. Mas seria impossível dizer quanto desse talento precoce já tinha nascido com ele. Desde cedo, o genial compositor foi educado pelo pai, músico amador dos mais apaixonados - e professor ultra-rigoroso. Parte de seu método consistia em obrigar o filho a identificar quais notas musicais eram emitidas em qualquer som ambiente, do pio de um passarinho ao freio de um trem. E, toda vez que errava - crock! -, o pobre Heitor entrava no cascudo.Agora a Ciência está descobrindo, tal como no caso do maestro brasileiro, que o ouvido absoluto não é um dom divino, mas algo que pode ser adquirido por meio de treinamento, desde que feito na infância. Até há pouco, acreditava-se que ele era um privilégio inato e raríssimo, prerrogativa de uma em cada 10 000 pessoas. Essa visão começa a ser derrubada. Há pesquisadores que acham até que todos nascemos com esse potencial.

A educação do ouvido começa cedo
É fácil para um professor de música reconhecer os alunos que têm ouvido absoluto. Essa tribo superdotada costuma sofrer da compulsão de identificar musicalmente qualquer ruído. Há até uma anedota a respeito do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) quando jovem. Uma vez ele teria exclamado "Sol sustenido!" ao ouvir o guincho de um porco. "

- Revista SUPERINTERESSANTE.


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